Causas não neurológicas da marcha
Nem toda mudança no jeito de andar vem do sistema nervoso. Articulação, visão, remédio e coração pesam tanto quanto.
Atualizado em 1º de agosto de 2026. Conteúdo de Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F.
O corpo todo participa da marcha
É comum associar distúrbio de marcha só a doenças do sistema nervoso, mas boa parte das mudanças no jeito de andar vem de outros lugares do corpo 1. E é frequente as duas coisas acontecerem juntas: uma leve fraqueza neurológica somada a uma dor no joelho pesa mais do que qualquer uma das duas isoladamente 3. Por isso a avaliação de marcha nunca se limita ao exame neurológico.
Visão
Catarata, glaucoma e óculos multifocais desatualizados atrapalham a percepção de profundidade e de degraus, sobretudo à noite.
Articulações
A artrose de joelho e de quadril encurta o passo do lado dolorido e muda todo o padrão do andar para poupar a articulação.
Dor crônica
Dor nas costas, no pé ou na perna faz o corpo criar compensações que, com o tempo, desgastam outras articulações.
Remédios
Sedativos, ansiolíticos e alguns anti-hipertensivos causam sonolência, lentidão de reflexo e queda de pressão ao levantar.
Coração e pulmão
Falta de ar ao esforço e arritmias reduzem o fôlego para caminhar, e a pessoa passa a andar mais devagar e com mais pausas.
Deformidades no pé
Joanetes, calosidades e unhas mal cuidadas mudam o apoio do pé no chão e, por consequência, todo o padrão do passo.
Visão: a primeira fonte de informação do equilíbrio
O corpo usa a visão como uma das três fontes principais de informação para se manter equilibrado. Catarata, glaucoma e óculos multifocais desatualizados distorcem a noção de profundidade, dificultam identificar bordas de degraus e pioram muito em ambientes com pouca luz. Uma consulta oftalmológica anual, com atualização do grau, é uma medida simples com impacto real na marcha e no risco de queda.
Artrose e dor articular
A dor no joelho ou no quadril leva o corpo a criar compensações automáticas: encurtar o passo do lado dolorido, mancar, transferir o peso para o lado saudável. Essas compensações protegem a articulação no curto prazo, mas desorganizam o equilíbrio geral da marcha e, com o tempo, sobrecarregam outras articulações. O tratamento da dor de base, somado a fortalecimento muscular, costuma devolver boa parte do padrão normal do passo.
Medicamentos
Remédios para dormir, para ansiedade e alguns para controlar a pressão arterial estão entre os que mais afetam a marcha, por causarem sonolência, lentidão de reflexo ou queda de pressão ao levantar da cama ou da cadeira. Quanto maior o número de remédios em uso ao mesmo tempo, maior esse risco 2. Vale revisar a lista completa de medicamentos com o médico responsável periodicamente, e nunca ajustar doses por conta própria.
Coração e pulmão
Problemas cardiorrespiratórios não mudam o padrão do passo diretamente, mas reduzem o fôlego disponível para caminhar. O resultado prático é o mesmo observado em outras causas: passos mais curtos, mais pausas e menor distância percorrida sem cansar, um padrão que costuma ser confundido com fraqueza muscular pura.
Como a fisioterapia atua nessas causas
Quando a causa não é neurológica, o trabalho da fisioterapia se concentra em três frentes: fortalecer a musculatura ao redor da articulação dolorida para reduzir a compensação no passo, treinar resistência de forma gradual para quem tem limitação cardiorrespiratória, e adaptar o ambiente e o calçado para compensar a perda de visão ou de sensibilidade nos pés. Muitas vezes, o resultado mais rápido vem justamente daqui, porque o corpo responde bem a treino de força e resistência, mesmo quando a causa de base não tem cura.
A boa notícia dessas causas é que várias têm correção rápida, e vale começar por elas. A consulta oftalmológica atrasada e a troca da lente, o calçado fechado de sola firme no lugar do chinelo, a revisão dos remédios que baixam pressão ou dão sonolência, o tratamento da dor no joelho ou no pé que vinha sendo tolerada: cada um desses itens muda o jeito de andar em semanas, sem depender de meses de treino.
Também vale observar o que interrompe a caminhada. Se a pessoa para por falta de ar, o assunto é pulmão ou coração. Se para por dor, a articulação precisa ser tratada junto com o treino. Se para por cansaço nas pernas depois de alguns metros e melhora ao sentar, isso merece ser contado ao médico, porque pode ser problema de circulação ou da coluna, e não simples falta de condicionamento. Descrever com precisão o que faz parar encurta a investigação e evita meses de exercício na direção errada.