Ilustração de senhora idosa à mesa da cozinha com organizador semanal de comprimidos
Síndrome geriátrica

Polifarmácia no idoso

Quando o número de remédios passa a ser, ele próprio, um risco à saúde. Entenda os perigos e o conceito de desprescrição.

Atualizado em 20 de agosto de 2026. Conteúdo de Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F.

O que é polifarmácia no idoso

Chamamos de polifarmácia o uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos. Ela é comum e, muitas vezes, necessária: o idoso costuma ter várias doenças ao mesmo tempo. O problema começa quando a lista cresce sem revisão, e o conjunto de remédios passa a causar mais dano do que benefício 1.

O corpo do idoso processa os remédios de outro jeito. O fígado e os rins eliminam as substâncias mais devagar, então o medicamento permanece mais tempo no organismo e o efeito se acumula. Uma dose segura para um adulto jovem pode ser excessiva para o idoso, mesmo sem mudança na prescrição 2.

Quanto mais medicamentos, maior a chance de interação entre eles e de efeitos colaterais. Acima de cinco remédios, o risco de eventos adversos cresce de forma acentuada, e parte deles se manifesta justamente como quedas, sonolência, confusão e tonturas 3. No Brasil, cerca de 13% dos idosos já convivem com essa quantidade de caixas na mesa, e a proporção passa de 18% na região Sul 5.

~13%dos idosos brasileiros usam cinco ou mais medicamentos
+50%de risco de queda em quem usa remédio sedativo ou antidepressivo
evitávelparte das internações por reação adversa pode ser prevenida

Riscos de tomar muitos remédios

A cascata de prescrição

É a armadilha mais comum. Um remédio causa um efeito colateral, esse efeito é confundido com uma nova doença, e um segundo remédio é prescrito para tratá-lo. A lista cresce tratando problemas que os próprios medicamentos criaram.

Medicamentos potencialmente inapropriados

Alguns remédios oferecem mais risco do que benefício para idosos, especialmente certos calmantes, relaxantes e antialérgicos antigos. Listas como os critérios de Beers ajudam a equipe médica a identificá-los e buscar alternativas mais seguras.

Quedas e confusão

Sedativos, alguns remédios para pressão e medicamentos que afetam o cérebro estão entre as causas mais frequentes de quedas e de estados confusionais no idoso. Quem toma sedativo ou antidepressivo cai cerca de 50% mais do que quem não toma 6. Rever esses itens costuma ter efeito direto sobre a segurança.

Ilustração de caixas de remédio empilhadas uma sobre a outra
Cada remédio novo entra por um bom motivo, e quase nunca alguém revisa o conjunto.

Desprescrição: como reduzir remédios com segurança

A desprescrição é o processo planejado de revisar e, quando apropriado, reduzir ou suspender medicamentos que já não trazem benefício claro. Sempre conduzida pelo médico, de forma gradual e monitorada, ela pode melhorar o estado de alerta, reduzir quedas e simplificar a rotina da família, sem abrir mão do que é essencial 4.

Ilustração vertical de uma pilha menor de caixas ao lado de duas separadas
Retirar um remédio exige o mesmo critério que introduzir.

Como revisar a lista de remédios

Uma prática simples resolve boa parte do problema: juntar em uma sacola tudo o que o idoso toma, incluindo colírio, pomada, vitamina, chá e o que foi comprado sem receita, e levar à consulta uma vez por ano. É comum aparecerem duplicidades, remédios que ninguém mais lembra por que começaram e itens prescritos por médicos diferentes que não conversam entre si. A pergunta que abre a conversa é direta: algum destes já pode sair?

Vale também desconfiar da sequência. Sintoma novo que aparece pouco depois de um remédio novo costuma ser efeito dele, e não uma doença a mais para tratar com outro comprimido. Tontura, sonolência, confusão, boca seca, prisão de ventre, inchaço nas pernas e queda entram nessa lista. Anotar a data de início de cada medicamento ajuda a enxergar essa ligação, que passa despercebida quando tudo é atribuído à idade.

Nada deve ser suspenso por conta própria, porque a retirada errada machuca tanto quanto o excesso, sobretudo com calmantes, remédios de pressão e antidepressivos, que pedem redução gradual. E parte do que hoje é tratado com comprimido responde ao movimento: dor crônica, insônia e humor melhoram com exercício regular, o que abre espaço para uma lista menor na próxima revisão.

Com os remédios, às vezes menos protege mais

Revisar a lista com regularidade reduz quedas, confusão e interações, sem abrir mão do que é essencial.

Revisar

Cada remédio precisa de um motivo atual para continuar na lista.

Observar

Tontura e sonolência novas podem vir do próprio tratamento.

Substituir

Exercício alivia dor, sono e humor, poupando medicação.

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