Polifarmácia no idoso
Quando o número de remédios passa a ser, ele próprio, um risco à saúde. Entenda os perigos e o conceito de desprescrição.
RCAtualizado em 15 de setembro de 2026. Revisado por Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F. Como este texto foi feito.
O que é polifarmácia no idoso
Chamamos de polifarmácia o uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos. Ela é comum e, muitas vezes, necessária: o idoso costuma ter várias doenças ao mesmo tempo. O problema começa quando a lista cresce sem revisão, e o conjunto de remédios passa a causar mais dano do que benefício 1.
O corpo do idoso processa os remédios de outro jeito. O fígado e os rins eliminam as substâncias mais devagar, então o medicamento permanece mais tempo no organismo e o efeito se acumula. Uma dose segura para um adulto jovem pode ser excessiva para o idoso, mesmo sem mudança na prescrição 2.
Quanto mais medicamentos, maior a chance de interação entre eles e de efeitos colaterais. Acima de cinco remédios, o risco de eventos adversos cresce de forma acentuada, e parte deles se manifesta justamente como quedas, sonolência, confusão e tonturas 3. No Brasil, cerca de 13% dos idosos já convivem com essa quantidade de caixas na mesa, e a proporção passa de 18% na região Sul 5.
Riscos de tomar muitos remédios
A cascata de prescrição
É a armadilha mais comum. Um remédio causa um efeito colateral, esse efeito é confundido com uma nova doença, e um segundo remédio é prescrito para tratá-lo. A lista cresce tratando problemas que os próprios medicamentos criaram.
Medicamentos potencialmente inapropriados
Alguns remédios oferecem mais risco do que benefício depois dos 65 anos, e existem listas prontas que dizem quais são. Os critérios de Beers, norte-americanos, apontam o que evitar. Os critérios STOPP/START, europeus, fazem as duas perguntas: o que deveria sair e, igualmente importante, o que deveria estar sendo usado e não está, porque falta remédio tanto quanto sobra. Nenhuma das duas listas manda suspender nada sozinha: elas marcam o que merece discussão na consulta.
Os remédios que mais derrubam o idoso
Aqui a conversa deixa de ser sobre a lista inteira e passa a ser sobre nomes. Quem toma sedativo ou antidepressivo cai cerca de 50% mais do que quem não toma 6, e o motivo raramente é misterioso: cada classe derruba de um jeito reconhecível, num horário reconhecível do dia.
| Grupo | Como derruba | Quando costuma acontecer |
|---|---|---|
| Calmantes e remédios para dormir | Lentificam a reação e afrouxam o equilíbrio | À noite, no caminho até o banheiro, e na manhã seguinte |
| Remédios de pressão e diuréticos | Derrubam a pressão na hora de levantar | Ao sair da cama ou da poltrona, e depois do almoço |
| Antidepressivos | Somam sonolência, tontura e queda de pressão | Nas primeiras semanas e a cada aumento de dose |
| Antialérgicos antigos e antiespasmódicos | Secam a boca, embaçam a vista e confundem | Algumas horas depois da dose |
| Remédios para tontura e enjoo | Sedam e, no uso longo, enrijecem e lentificam | Depois de semanas ou meses de uso contínuo |
| Antipsicóticos | Enrijecem, lentificam e desequilibram | Ao longo do uso, e piora a cada aumento |
Duas coisas nessa tabela merecem atenção da família. A primeira é a linha dos remédios de pressão: a queda por pressão baixa ao levantar acontece num instante e num lugar específico, o que a torna fácil de reconhecer e de medir, como está descrito em hipotensão ortostática no idoso. A segunda é a dos remédios para tontura, em que o remédio tomado justamente para não cair pode passar a ser a causa da queda: a flunarizina e a cinarizina, muito receitadas no Brasil, provocam lentidão e rigidez com o uso prolongado, um quadro que imita a doença de Parkinson e some quando o remédio sai, como se explica em Parkinson ou parkinsonismo.
Quedas e confusão
Além da queda, o excesso de remédio se manifesta como confusão que aparece de repente, sobretudo em quem já tem alguma perda de memória. Rever esses itens costuma ter efeito direto sobre a segurança, e o efeito aparece rápido. Antes da consulta, vale medir o tamanho do risco com o questionário rápido de quedas e levar o resultado junto com a sacola de remédios.
Desprescrição: como reduzir remédios com segurança
A desprescrição é o processo planejado de revisar e, quando apropriado, reduzir ou suspender medicamentos que já não trazem benefício claro. Sempre conduzida pelo médico, de forma gradual e monitorada, ela pode melhorar o estado de alerta, reduzir quedas e simplificar a rotina da família, sem abrir mão do que é essencial 4.
Como revisar a lista de remédios
Uma prática simples resolve boa parte do problema: juntar em uma sacola tudo o que o idoso toma, incluindo colírio, pomada, vitamina, chá e o que foi comprado sem receita, e levar à consulta uma vez por ano. É comum aparecerem duplicidades, remédios que ninguém mais lembra por que começaram e itens prescritos por médicos diferentes que não conversam entre si. A pergunta que abre a conversa é direta: algum destes já pode sair?
Vale também desconfiar da sequência. Sintoma novo que aparece pouco depois de um remédio novo costuma ser efeito dele, e não uma doença a mais para tratar com outro comprimido. Tontura, sonolência, confusão, boca seca, prisão de ventre, inchaço nas pernas e queda entram nessa lista. Anotar a data de início de cada medicamento ajuda a enxergar essa ligação, que passa despercebida quando tudo é atribuído à idade.
Três hábitos evitam metade do problema antes que ele se instale. Manter uma lista única, escrita, com nome, dose, horário e data de início de cada item, e levá-la a toda consulta, inclusive às do especialista. Comprar sempre na mesma farmácia, para que as interações apareçam num cadastro só. E perguntar, diante de cada receita nova, três coisas: para que serve, por quanto tempo, e o que sai da lista agora que isto entrou. A terceira pergunta é a que quase ninguém faz, e é a que impede a pilha de crescer.
Nada deve ser suspenso por conta própria, porque a retirada errada machuca tanto quanto o excesso, sobretudo com calmantes, remédios de pressão e antidepressivos, que pedem redução gradual. E parte do que hoje é tratado com comprimido responde ao movimento: dor crônica, insônia e humor melhoram com exercício regular, o que abre espaço para uma lista menor na próxima revisão.
Com os remédios, às vezes menos protege mais
Revisar a lista com regularidade reduz quedas, confusão e interações, sem abrir mão do que é essencial.
Revisar
Cada remédio precisa de um motivo atual para continuar na lista.
Observar
Tontura e sonolência novas podem vir do próprio tratamento.
Substituir
Exercício alivia dor, sono e humor, poupando medicação.