Ilustração de idosa conversando com profissional de saúde, caixa de medicamentos sobre a mesa
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Iatrogenia

O gigante que não deveria existir: o próprio cuidado, com a melhor das intenções, acaba adoecendo o idoso. Por ser evitável, é também o mais frustrante.

Atualizado em 12 de agosto de 2026. Conteúdo de Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F.

O que é a iatrogenia

A palavra iatrogenia vem do grego e significa, literalmente, o que é gerado pelo tratamento. Trata-se do dano que surge não da doença, mas da própria tentativa de cuidar: um remédio que faz mal, um exame que leva a outro desnecessário, um repouso que enfraquece, uma internação que confunde. Perto de uma em cada dez internações de idosos tem uma reação a medicamento como causa, e a maior parte delas poderia ter sido evitada 5.

Ilustração de uma cartela de comprimidos ocupando quase todo o quadro
A iatrogenia é o dano que vem do próprio tratamento.

Ela é um dos gigantes da geriatria com uma marca única: é o único totalmente evitável 4. O idoso é especialmente vulnerável porque seu corpo processa os medicamentos de forma diferente, costuma ter várias doenças ao mesmo tempo e é acompanhado por vários médicos que nem sempre conversam entre si 1.

Únicogigante da geriatria que é totalmente evitável
5 ou +medicamentos definem a polifarmácia, principal face da iatrogenia
1 em 10internações de idosos têm um remédio como causa, quase sempre evitável

A polifarmácia, a face mais comum

O rosto mais frequente da iatrogenia é a polifarmácia: o uso de muitos medicamentos ao mesmo tempo, em geral cinco ou mais. Cada remédio pode ser justificado isoladamente, mas juntos eles interagem, somam efeitos colaterais e elevam o risco a cada novo comprimido 2.

Ilustração de organizador semanal de comprimidos visto de cima
Quanto mais remédios se somam, maior a chance de um deles derrubar a pessoa.

O caso clássico é a cascata da prescrição, quando o efeito colateral de um remédio é confundido com uma nova doença e tratado com mais um remédio:

  1. Um remédio para pressão causa tontura e queda de pressão ao levantar.
  2. A tontura é interpretada como labirintite e ganha um novo medicamento.
  3. Esse novo remédio causa sonolência e desequilíbrio.
  4. O idoso cai, fratura o quadril e é internado, somando ainda mais riscos.

Onde mais a iatrogenia se esconde

Ela vai muito além dos comprimidos. Boa parte do dano nasce de condutas bem-intencionadas que se tornam excessivas:

Repouso demais

O conselho de "ficar de repouso" prolongado é uma das maiores fontes de dano. Ele leva direto à imobilidade e à perda de força.

Fralda sem necessidade

Colocar fralda por comodidade, e não por indicação, instala a incontinência e fere a autoestima do idoso.

Sedativos para dormir

Calmantes e indutores do sono causam confusão e quedas. Muitas vezes pioram justamente o que pretendiam tratar.

Contenção e excesso de ajuda

Prender no leito ou fazer tudo pelo idoso, com a intenção de proteger, acelera a dependência e a perda de função.

Internação prolongada

O hospital salva vidas, mas o ambiente desconhecido favorece o delirium e a incapacidade cognitiva.

Exames em excesso

Investigações desnecessárias geram achados sem importância que levam a mais exames, mais ansiedade e mais intervenções.

Sinais de alerta para a família

Vale procurar avaliação quando o idoso usa cinco ou mais medicamentos, alguns com função que ninguém sabe explicar, quando um sintoma novo surge logo após começar um remédio, quando foi orientado a ficar de repouso por tempo indefinido sem reavaliação, quando passou a usar fralda ou sonda durante uma internação e nunca mais deixou, ou quando diferentes médicos prescrevem sem que ninguém revise a lista completa de remédios.

Como reduzir o risco do próprio tratamento

Parte do que se tenta resolver com mais um comprimido responde melhor ao movimento. Dor crônica, insônia, ansiedade e desequilíbrio melhoram com exercício, e cada queixa resolvida sem um remédio novo é um risco a menos numa lista que já costuma ser longa 3. Vale ter isso em mente antes de pedir algo para dormir ou para acalmar, porque justamente esses são os que mais derrubam e mais confundem o idoso.

Ilustração vertical de uma bengala grande com um idoso pequeno ao lado da base
Parte do que se trata com remédio responde melhor ao movimento.

Na prática, isso significa recusar o repouso desnecessário, deixar o idoso fazer o que ainda consegue em vez de fazer por ele, e não deixar fralda e sonda instaladas depois que a indicação passou. Cada um desses itens, mantido por comodidade, cobra em força, em pele e em autonomia.

Três hábitos da família desarmam o gigante mais evitável de todos. Manter uma lista atualizada de tudo o que o idoso toma, incluindo o que foi comprado sem receita, chá e suplemento, e levá-la a toda consulta. Perguntar de cada remédio novo para que serve, por quanto tempo e o que fazer se aparecer efeito indesejado. E não interromper nada por conta própria, porque a retirada errada também machuca, sobretudo em calmantes e remédios de pressão. Se aparecer queda, tontura, confusão ou sonolência depois de uma mudança na receita, isso precisa voltar ao médico, e não ser aceito como parte da idade.

Às vezes, o melhor remédio é um a menos

Movimento no lugar do repouso, autonomia no lugar da fralda, função no lugar de mais um comprimido. O cuidado na medida certa protege.


Cuidar bem também é saber quando não fazer.

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