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Iatrogenia

O gigante evitável: quando o próprio cuidado, com a melhor das intenções, acaba adoecendo o idoso. Por ser evitável, é também o mais frustrante de todos.

O que é a iatrogenia

A palavra iatrogenia vem do grego e significa, literalmente, o que é gerado pelo tratamento. Trata-se do dano que surge não da doença, mas da própria tentativa de cuidar: um remédio que faz mal, um exame que leva a outro desnecessário, um repouso que enfraquece, uma internação que confunde.

Ela é um dos gigantes da geriatria com uma marca única: é o único totalmente evitável. O idoso é especialmente vulnerável porque seu corpo processa os medicamentos de forma diferente, costuma ter várias doenças ao mesmo tempo e é acompanhado por vários médicos que nem sempre conversam entre si 1.

Únicogigante da geriatria que é totalmente evitável
5 ou +medicamentos definem a polifarmácia, principal face da iatrogenia
1 em 3internações de idosos envolvem um evento medicamentoso evitável

A polifarmácia, a face mais comum

O rosto mais frequente da iatrogenia é a polifarmácia: o uso de muitos medicamentos ao mesmo tempo, em geral cinco ou mais. Cada remédio pode ser justificado isoladamente, mas juntos eles interagem, somam efeitos colaterais e elevam o risco a cada novo comprimido 2.

O caso clássico é a cascata da prescrição, quando o efeito colateral de um remédio é confundido com uma nova doença e tratado com mais um remédio:

  1. Um remédio para pressão causa tontura e queda de pressão ao levantar.
  2. A tontura é interpretada como labirintite e ganha um novo medicamento.
  3. Esse novo remédio causa sonolência e desequilíbrio.
  4. O idoso cai, fratura o quadril e é internado, somando ainda mais riscos.

Onde mais a iatrogenia se esconde

Ela vai muito além dos comprimidos. Boa parte do dano nasce de condutas bem-intencionadas que se tornam excessivas:

Repouso demais

O conselho de "ficar de repouso" prolongado é uma das maiores fontes de dano. Ele leva direto à imobilidade e à perda de força.

Fralda sem necessidade

Colocar fralda por comodidade, e não por indicação, instala a incontinência e fere a autoestima do idoso.

Sedativos para dormir

Calmantes e indutores do sono causam confusão e quedas. Muitas vezes pioram justamente o que pretendiam tratar.

Contenção e excesso de ajuda

Prender no leito ou fazer tudo pelo idoso, com a intenção de proteger, acelera a dependência e a perda de função.

Internação prolongada

O hospital salva vidas, mas o ambiente desconhecido favorece o delirium e a incapacidade cognitiva.

Exames em excesso

Investigações desnecessárias geram achados sem importância que levam a mais exames, mais ansiedade e mais intervenções.

Sinais de alerta para a família

Vale procurar avaliação quando o idoso usa cinco ou mais medicamentos, alguns com função que ninguém sabe explicar, quando um sintoma novo surge logo após começar um remédio, quando foi orientado a ficar de repouso por tempo indefinido sem reavaliação, quando passou a usar fralda ou sonda durante uma internação e nunca mais deixou, ou quando diferentes médicos prescrevem sem que ninguém revise a lista completa de remédios.

Como a fisioterapia ReabilitaCare ajuda a evitar o dano

A fisioterapia tem um papel curioso e poderoso contra a iatrogenia: muitas vezes ela oferece, pelo movimento, o que se tentaria resolver com mais remédio. Dor, insônia, ansiedade e desequilíbrio respondem ao exercício, e cada problema resolvido sem um novo comprimido é um risco a menos 3.

Na prática, isso significa combater o repouso desnecessário e manter o idoso ativo, estimular a autonomia em vez de fazer tudo por ele, retirar fralda e sonda quando não há mais indicação, e atuar como elo entre a família e a equipe médica, levando informação sobre o impacto funcional de cada medicamento. A fisioterapia ajuda a justificar, com dados de função, a conversa sobre reduzir o que não é mais necessário.

O cuidador e a família são decisivos aqui. Manter uma lista atualizada de todos os remédios, questionar com respeito cada nova prescrição e evitar o repouso por conta própria são atitudes simples que desarmam o gigante mais evitável de todos.

Às vezes, o melhor remédio é um a menos

Movimento no lugar do repouso, autonomia no lugar da fralda, função no lugar de mais um comprimido. O cuidado na medida certa protege.


Cuidar bem também é saber quando não fazer.

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