Síndrome geriátrica
Fragilidade no idoso
Quando o corpo perde a reserva para se recuperar de pequenos baques. É uma condição com nome, critérios e, na fase certa, reversível.
O que é a fragilidade
A fragilidade é uma síndrome geriátrica em que o organismo perde a reserva necessária para responder ao estresse. Uma gripe, uma internação curta ou uma queda, que um idoso robusto supera em dias, podem desencadear no idoso frágil uma cascata de perdas: ele para na cama, enfraquece, fica confuso e demora a voltar ao que era, quando volta 1.
Fragilidade não é a mesma coisa que idade avançada. Existem pessoas de 85 anos robustas e pessoas de 70 já frágeis. O que define a síndrome é a perda de reserva fisiológica, não o número de aniversários. Por isso ela pode, e deve, ser identificada e tratada 2.
No centro da fragilidade está a sarcopenia, a perda de massa e força muscular. O músculo fraco reduz a velocidade da marcha, o equilíbrio e a energia disponível para o dia, alimentando um ciclo descendente que se acelera sozinho se ninguém intervém 3.
A fragilidade em números
Entre os idosos que vivem em casa, de 4 a 16% já são frágeis. Outros 28 a 44% estão na fase pré-frágil, que é justamente onde o tratamento rende mais 1,5. Depois dos 90 anos a conta muda: um em cada quatro é frágil, e a proporção passa de um em cada três depois dos 95 7.
O que vem depois é o que dá urgência ao assunto. A fragilidade aumenta o risco de fratura de quadril, de internação e de perda da independência, mesmo quando se descontam as outras doenças 5,9. E o idoso frágil que interna tem sete vezes mais chance de sair do hospital com uma limitação que não tinha ao entrar 16.
Há um dado que quase ninguém menciona, e é ele que sustenta o trabalho da fisioterapia: a maioria dos idosos robustos continua robusta ao longo dos anos 9. A trajetória não é automática. Ela responde ao que se faz.
Os cinco critérios de Fried
Os critérios de Fried são a forma mais usada de reconhecer a fragilidade. Avaliam cinco sinais. Três ou mais definem o idoso frágil. Um ou dois indicam pré-fragilidade, a fase de maior chance de reversão. Nenhum, o idoso robusto 1.
O primeiro é a perda de peso sem querer, emagrecer sem dieta, algo em torno de 4,5 kg ou 5% do peso no último ano. O segundo é a exaustão, a sensação de que tudo exige esforço e falta energia até para o simples. O terceiro é a fraqueza, medida pela força de preensão da mão no dinamômetro. O quarto é a lentidão da marcha, caminhar mais devagar do que o esperado para a idade e a altura, mais de 6 a 7 segundos para percorrer 4,5 metros. O quinto é a baixa atividade física ao longo da semana.
Dois desses critérios, a força de preensão e a velocidade da marcha, são medidos com aparelho e cronômetro. São eles que o fisioterapeuta refaz mês a mês para saber se o tratamento está funcionando. Não é impressão: é número.
Existe um segundo modo de enxergar a fragilidade, chamado índice de fragilidade. Em vez de olhar cinco sinais físicos, ele soma os déficits que a pessoa acumulou ao longo da vida: as doenças, as perdas funcionais, o declínio cognitivo, a situação social. Quanto mais déficits somados, maior o escore e maior o risco. Os dois caminhos apontam para o mesmo lugar, e a escolha depende do que a avaliação tem em mãos 10.
Como saber se o seu familiar está frágil
A recomendação internacional é avaliar fragilidade em toda pessoa acima de 70 anos, e em qualquer adulto com doença crônica ou que tenha emagrecido mais de 5% em um ano 2. Nem sempre há um dinamômetro por perto, e para esses casos existem questionários curtos, feitos em dois minutos de conversa.
A escala FRAIL
É um questionário de cinco perguntas, e cada letra do nome corresponde a uma delas. Fadiga: o senhor se sente cansado? Resistência: consegue subir um lance de escadas? Ambulação: consegue caminhar um quarteirão? Illness, que em inglês quer dizer doenças: tem mais de cinco diagnósticos? Loss of weight, perda de peso: emagreceu mais de 5% no último ano? Três respostas que confirmem o problema indicam fragilidade. Uma ou duas indicam pré-fragilidade 11.
A escala SOF
Mais curta ainda, resume tudo a três itens: perder 5% do peso no último ano, não conseguir levantar cinco vezes de uma cadeira sem usar os braços, e responder que não se sente cheio de energia. Dois dos três já caracterizam a fragilidade 12. Serve bem quando o tempo é curto e o objetivo é apenas saber se o caso merece uma avaliação completa.
Em casa, dois gestos dizem muito. Peça para o seu familiar levantar cinco vezes de uma cadeira firme sem apoiar as mãos. Depois, observe como ele atravessa a sala. Esses dois testes abrem a avaliação da ReabilitaCare, e qualquer família consegue fazê-los antes mesmo de procurar ajuda.
Por que o músculo está no centro de tudo
A fragilidade tem causa biológica, e conhecê-la explica por que o exercício é o tratamento e não um complemento.
No centro está a sarcopenia, a perda de massa e de força muscular. Músculo fraco significa marcha lenta, equilíbrio pior e menos energia para o dia, o que reduz o movimento e enfraquece mais o músculo. O ciclo se acelera sozinho quando ninguém interrompe.
Em volta dele, o corpo trabalha contra. O idoso frágil convive com uma inflamação silenciosa, de baixa intensidade, que ataca ao mesmo tempo o músculo, o apetite e a cognição. Junto dela, caem o hormônio de crescimento, o IGF-1 e a vitamina D, e sobe o cortisol, um arranjo hormonal que favorece a destruição do músculo em vez da sua construção 14. A defesa imunológica também enfraquece, a ponto de a vacina da gripe proteger menos 15. Fica mais fácil entender por que uma virose banal derruba um idoso frágil por semanas.
O treino de força age exatamente nesse ponto. Ele é o único estímulo conhecido capaz de virar o jogo do músculo a favor do idoso, mesmo aos 87 anos.
Antes de tratar, é preciso investigar
Emagrecimento, fraqueza e perda de função não vêm só da fragilidade. Depressão, doenças da tireoide, anemia, insuficiência cardíaca, doença renal, deficiência de vitamina B12, Parkinson e neoplasias produzem um quadro parecido, e todas têm tratamento próprio.
Por isso o médico costuma pedir alguns exames antes de fechar o diagnóstico. Se uma dessas causas aparecer, o rumo do tratamento muda. A fisioterapia caminha junto do médico assistente, nunca no lugar dele, e o fisioterapeuta que percebe um sinal fora do esperado durante as sessões tem a obrigação de avisar.
A pré-fragilidade é a janela que importa
Quanto antes a fragilidade é identificada, maior a chance de revertê-la. Na fase pré-frágil, o corpo ainda responde bem ao estímulo: com treino de força e proteína suficiente, muitos idosos voltam à condição de robustos. Esperar o quadro se instalar transforma um problema tratável em um caminho de dependência 4.
A internação é o momento em que essa janela se fecha mais rápido. Cada dia parado no leito custa um músculo que leva semanas para voltar, e boa parte do que se perde no hospital continua perdida depois da alta 16. É por isso que a fisioterapia deveria começar nos primeiros dias em casa, e não quando a família percebe que o pai já não sobe a escada.
O que devolve a reserva
Treino de força
O treino de força é o tratamento da fragilidade. Ele dobra a força muscular, aumenta a musculatura das pernas e acelera a marcha até em idosos de 87 anos que vivem em instituição, os mais debilitados que existem 17. E o efeito não se restringe ao músculo: quem recupera força volta a se mover por conta própria, sem esperar que alguém ofereça o braço.
Um programa estruturado de exercício também protege a capacidade de caminhar ao longo dos anos, e protege tanto o idoso frágil quanto o robusto 18. Nunca é tarde, e nunca é cedo demais.
Treinar a tarefa que está difícil
Duas regras guiam a prescrição. A primeira é a especificidade: treina-se o que está difícil. Se o problema é levantar da poltrona, o exercício é levantar da poltrona, primeiro com apoio dos braços, depois com um dedo, depois sem nada. Se o problema é a escada do prédio, começa-se por um degrau com corrimão dos dois lados. A segunda é a dose: o ganho acompanha a carga e a repetição, que sobem aos poucos, sessão após sessão.
Para quem está muito debilitado, o ponto de partida pode ser caminhar cinco minutos, duas vezes por dia. Começar devagar e progredir devagar vale mais do que um treino ambicioso que o paciente abandona na segunda semana.
Treinar dentro de casa, nas tarefas do dia
Trabalhar as atividades da vida diária no próprio domicílio melhora o desempenho nessas tarefas, a mobilidade e a disposição do idoso para conviver 19. Treinar no lugar onde a vida acontece tem uma vantagem que nenhuma clínica oferece: o corredor, o banheiro e a escada do treino são os mesmos de sempre. Veja também a adaptação do ambiente domiciliar.
Proteína e vitamina D
Treino sem proteína não constrói músculo. Quando há perda de peso, vale investigar efeito de medicamentos, depressão, dificuldade de mastigar ou engolir e dietas restritivas mantidas sem indicação, como as de pouco sal ou pouca gordura que ninguém revisou. Suplementos entre as refeições ajudam a recuperar peso 20. A vitamina D, em torno de 800 a 1.000 unidades por dia, reduz quedas 21. Quem prescreve é o médico, mas o fisioterapeuta costuma ser o primeiro a perceber que o prato está voltando cheio.
Revisão dos remédios
Revisar a prescrição periodicamente é parte do cuidado. Muitos remédios continuam na receita por inércia, e alguns alimentam justamente a exaustão e as quedas que estamos tentando reduzir. O tema aparece com detalhe em polifarmácia no idoso.
Por que hormônio não resolve
Como a fragilidade vem acompanhada de queda hormonal, parece lógico repor o hormônio e encerrar o assunto. Não funciona assim. Testosterona fora do hipogonadismo comprovado, hormônio de crescimento e DHEA não tratam a síndrome, e o hormônio de crescimento traz mais risco do que benefício para o idoso saudável 22. Nenhum remédio substitui o exercício.
Como tratamos a fragilidade em casa
A avaliação inicial mede o que os critérios de Fried pedem, força de preensão e velocidade da marcha, e observa como o paciente se levanta, caminha e se vira dentro da própria casa. Dessa leitura sai um plano de treino de força progressivo, exercícios de equilíbrio e marcha, e o ensaio das tarefas que estão travando o dia, praticadas nos móveis e nos cômodos de verdade.
A família recebe orientação sobre proteína, sobre o que fazer entre as sessões e sobre os sinais que pedem uma conversa com o médico. E a cada reavaliação as mesmas medidas voltam à planilha, porque reserva recuperada se demonstra com número, não com impressão.
A fragilidade tem uma janela em que ainda se reverte
Reconhecer cedo os sinais de Fried e agir com treino e proteína devolve a reserva que o corpo havia perdido.
Reserva
Músculo e potência são o estoque que protege contra cada baque.
Janela
Na pré-fragilidade, o corpo ainda responde e volta a robusto.
Medida
Marcha e força medidas mostram, objetivamente, a recuperação.
Perguntas frequentes
Fragilidade é o mesmo que velhice?
Não. A idade avançada, por si só, não define fragilidade. Existem pessoas de 85 anos robustas e pessoas de 70 já frágeis. O que caracteriza a síndrome é a perda de reserva fisiológica, não o número de aniversários.
Fragilidade é o mesmo que ter várias doenças ou ser dependente?
Não. Comorbidades e incapacidade se associam à fragilidade, mas não a definem. Um idoso pode ter três doenças crônicas bem controladas e continuar robusto, assim como pode ser frágil sem um diagnóstico específico que explique o quadro.
A fragilidade tem cura?
A palavra certa é reserva, e reserva se recupera. Na fase pré-frágil, o corpo ainda responde bem ao treino de força com proteína suficiente, e muitos idosos voltam à condição de robustos. Nas fases avançadas, o trabalho passa a ser preservar a função que existe, reduzir quedas e manter qualidade de vida.
Existe remédio para fragilidade?
Não. Nenhum medicamento, reposição hormonal ou anti-inflamatório trata a síndrome. O tratamento é o treino de força, acompanhado de proteína suficiente na alimentação.
Quantas sessões de fisioterapia são necessárias?
A frequência sai da avaliação inicial e depende do quadro, do estágio de fragilidade e dos objetivos combinados com a família. A cada reavaliação, a força de preensão e a velocidade da marcha mostram se o plano precisa mudar.
Quando devo procurar avaliação para o meu familiar?
Um consenso internacional recomenda rastrear fragilidade em todas as pessoas acima de 70 anos, e em adultos com doença crônica ou perda de peso maior que 5% em um ano. Cansaço para tarefas simples, dificuldade de subir um lance de escadas ou de caminhar um quarteirão também são sinais de alerta.