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Idoso perdendo força nas pernas: sarcopenia e tratamento

Sarcopenia é a perda de massa muscular com queda de força e de desempenho, e atinge de 10% a 27% dos idosos acima de 60 anos. Veja os três testes que confirmam, com dinamômetro e cronômetro, os primeiros sinais vistos em casa e o treino de força que reconstrói o músculo.

24 min de leitura

Ilustração de idoso apoiando as duas mãos nos braços da poltrona para se levantar

Atualizado em 12 de setembro de 2026. Revisado por Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F, formado na UFMG com residência multiprofissional em saúde do idoso pelo Hospital das Clínicas da UFMG. Como este texto foi feito.

O que é a sarcopenia em idosos

Resposta curta

A sarcopenia é a perda de massa muscular somada à queda de força e de desempenho físico, e o critério que mais pesa hoje é a força, não o volume do músculo. O sinal aparece em casa antes de qualquer exame: apoiar as duas mãos no braço da poltrona para levantar, parar no meio da escada, soltar a sacola no caminho. Quando a marcha também fica lenta, a condição é classificada como grave.

Ela apoia as duas mãos no braço da poltrona para levantar. Ele para no meio da escada do prédio, que antes subia inteira. A bermuda folgou na coxa e ninguém emagreceu de propósito. Esse conjunto tem nome: sarcopenia, a perda de massa muscular esquelética junto com queda de força e de desempenho físico, uma das principais causas de fragilidade e de perda de autonomia no idoso 1.

A palavra vem do grego e quer dizer, ao pé da letra, pobreza de carne. Durante muito tempo ela descreveu só o tamanho do músculo, e a mudança mais importante dos últimos anos foi tirar a massa do centro da definição. O Consenso Europeu revisado em 2019 pôs a força na frente: o músculo pode ainda ter volume razoável e já não produzir a tensão necessária para levantar da cama, e é a força que prevê queda, internação e dependência 1. Quem perdeu massa, perdeu força e ainda anda devagar tem a forma grave da condição.

Entre 10% e 27% dos idosos acima de 60 anos convivem com sarcopenia, e a faixa é larga porque cada critério de diagnóstico corta em um ponto diferente 4. Entre quem já tem outra doença o número sobe: perto de um em cada cinco no diabetes e até dois em cada três nas doenças graves e avançadas 6. Quem tem o diagnóstico cai quase duas vezes mais do que quem não tem, e o risco de fratura sobe quase tanto quanto 5.

10 a 27%dos idosos acima de 60 anos convivem com sarcopenia
2×quase o dobro de quedas em quem tem o diagnóstico
10 diasde cama tiram 13% da força da coxa de um idoso saudável
Ilustração de três cortes de músculo de espessuras diferentes sobre uma linha
A sarcopenia retira massa e força, e a perda acelera sem estímulo.

Por que o músculo do idoso encolhe

A perda começa cedo e é lenta. A partir dos 40 anos o corpo dispensa aproximadamente 1% da massa muscular por ano, e depois dos 70 a conta acelera. O que sai primeiro não é o músculo inteiro, e sim um tipo específico de fibra: a rápida, a que entra em ação quando o pé escorrega no tapete e o corpo tem uma fração de segundo para corrigir. Por isso a potência, a força aplicada depressa, despenca antes da força bruta e explica melhor quem perde a autonomia 7.

Três engrenagens empurram o processo ao mesmo tempo. A primeira é o nervo: o neurônio que comanda um grupo de fibras vai morrendo, e as fibras órfãs ou são adotadas por um vizinho ou desaparecem. A segunda é a resposta à comida. O músculo jovem monta proteína nova assim que recebe aminoácidos; o músculo envelhecido precisa de uma dose maior para reagir com a mesma intensidade, um fenômeno chamado resistência anabólica 17. A terceira é a inflamação de baixo grau que acompanha diabetes, doença renal, insuficiência cardíaca e a própria idade, e que mantém o corpo em modo de desmontagem.

O círculo vicioso do imobilismo. O repouso prolongado é o maior inimigo do músculo envelhecido: quanto menos o idoso se move, mais fibras ele perde, e quanto menos fibras tem, mais custoso fica mover-se 2. Inatividade física, alimentação pobre, tabagismo, sono muito curto ou muito longo e diabetes aparecem com frequência entre os fatores associados ao quadro 6. O trabalho de carga progressiva, ajustado à capacidade cardiovascular e articular de cada pessoa, interrompe esse ciclo. A engrenagem inteira, e o que ela faz com o corpo além do músculo, está descrita em síndrome do imobilismo.

Como saber se é sarcopenia: os três testes

O Consenso Europeu organiza a avaliação em três testes, sempre nesta ordem: primeiro a força, depois a massa, por último o desempenho. Nenhum dos três sozinho fecha o diagnóstico.

Força muscular

Dois testes bastam. O primeiro é a força de preensão manual, medida com um dinamômetro de mão: a pessoa senta, apoia o cotovelo e aperta com toda a força três vezes, e o visor mostra quantos quilos ela marcou. Abaixo de 27 quilos no homem e de 16 na mulher, a força está baixa. O segundo é o sentar e levantar cinco vezes, cronometrado, de braços cruzados no peito: acima de 15 segundos, a força das pernas está comprometida. A queda de força é o sinal mais precoce, e é ela que muda o dia da pessoa.

Ilustração de uma mão fechada em torno de um dinamômetro de preensão
A força de preensão é simples de medir e diz muito sobre o corpo inteiro.

Quantidade e qualidade do músculo

Confirmada a fraqueza, o passo seguinte é olhar a massa. O exame de referência é a densitometria de corpo inteiro, o mesmo aparelho que mede osso, e existe também a bioimpedância. Em casa, a medida possível é a circunferência da panturrilha, com fita métrica, na parte mais grossa da perna: abaixo de 31 centímetros, a suspeita é forte. Somada ao questionário de rastreio, ela melhora bastante a chance de identificar quem tem a condição, e isso foi verificado em idosos brasileiros 10. Coxa e panturrilha são as regiões que mais interessam, porque sustentam a marcha.

Ilustração de duas mãos medindo a panturrilha de um idoso com fita métrica
A fita métrica na panturrilha é a única medida de massa muscular que cabe em casa.

Desempenho físico

O terceiro teste pergunta se a perda já chegou à vida real. A medida mais usada é a velocidade da marcha: caminhar quatro metros em ritmo habitual, cronometrado, e dividir a distância pelo tempo. Abaixo de 0,8 metro por segundo, o que significa levar mais de cinco segundos nesses quatro metros, o desempenho está reduzido e a sarcopenia é classificada como grave. A bateria curta de desempenho físico soma três provas, o equilíbrio parado, o sentar e levantar e a caminhada, e dá um retrato mais completo: as duas primeiras antecipam melhor as quedas, e a caminhada antecipa melhor a perda de mobilidade 11. O que cada faixa de velocidade significa está detalhado em velocidade da marcha no idoso.

O questionário que abre a conversa

Antes de qualquer aparelho existe o SARC-F, cinco perguntas simples: se há dificuldade para carregar quatro quilos, para atravessar um cômodo, para levantar da cama ou da cadeira, para subir dez degraus, e quantas quedas houve no último ano. Ele não fecha diagnóstico, e não deve ser usado sozinho, porque deixa passar muita gente 10. Serve para outra coisa: transformar queixa vaga em pergunta objetiva e levar o assunto para a consulta.

Primeiros sinais de sarcopenia, vistos em casa

A sarcopenia raramente chega como queixa. Ela chega como uma frase solta no almoço de domingo, quase sempre atribuída à idade. Estes são os sinais que merecem atenção:

A pessoa passou a empurrar com as mãos para sair da poltrona, e antes não fazia isso. Ficou mais lenta na travessia da rua, e o sinal fecha antes de ela chegar do outro lado. Trocou a escada pelo elevador no próprio prédio. Pede ajuda para abrir garrafa e pote, ou para girar a chave na porta. Larga a sacola do mercado no meio do caminho. Encosta a mão na parede e nos móveis mesmo em terreno plano. A aliança gira no dedo, a calça folgou na coxa, o rosto afinou. Cansa em tarefa que antes não cansava, como varrer a sala ou estender roupa.

Nenhum desses itens isolado significa sarcopenia. Três ou quatro deles juntos, instalados nos últimos seis meses, já justificam uma avaliação. O oposto também informa: um idoso que continua carregando a compra, subindo escada e levantando da cadeira sem apoio provavelmente mantém a reserva em ordem, mesmo com oitenta e poucos anos.

Obesidade sarcopênica: sarcopenia com sobrepeso

A imagem mental de sarcopenia é a de um idoso magro, curvado, de braço fino. Existe uma versão bem mais difícil de enxergar, e mais perigosa: a obesidade sarcopênica, em que a perda de músculo acontece junto com o acúmulo de gordura. A balança não denuncia nada, porque o peso fica igual ou até sobe. Por fora a pessoa parece bem nutrida, e por dentro trocou músculo por gordura, inclusive dentro do próprio músculo 9.

A combinação é pior do que cada parte separada. O excesso de peso aumenta a carga sobre joelho e quadril justamente quando a perna tem menos força para sustentar esse peso, e o tecido gorduroso mantém a inflamação que consome mais músculo. O resultado aparece em mais quedas, mais limitação e mais complicação depois de uma cirurgia 9. A pista, aqui, não é o peso e sim a função: se um idoso de 85 quilos leva mais de 15 segundos para levantar cinco vezes da cadeira, o problema é de músculo, não de balança. E a conduta muda: a dieta restritiva isolada faz perder músculo junto com a gordura, e por isso qualquer redução de peso precisa vir acompanhada de treino de força e de proteína suficiente.

Internação: o que dez dias de cama tiram

Nem toda sarcopenia é lenta. Existe uma forma aguda, que se instala em dias, e ela costuma nascer dentro do hospital. Idosos saudáveis, com cerca de 67 anos, passaram dez dias deitados e perderam 13% da força da coxa, 14% da potência para subir escada e 12% do fôlego para o esforço 8. Eram pessoas sem doença nenhuma e bem alimentadas. O único tratamento aplicado foi a cama.

Numa internação de verdade a conta é pior, porque entram febre, jejum para exame, soro, dor e noite mal dormida. Uma pneumonia de duas semanas pode custar a um idoso a capacidade de levantar sozinho do vaso sanitário, e a alta hospitalar devolve para casa uma pessoa mais fraca do que a que entrou. Esse é o momento em que a fisioterapia rende mais e é menos lembrada. Quem acabou de sair de uma internação encontra o roteiro do que fazer nas primeiras semanas em fisioterapia depois da alta hospitalar.

Tratamento da sarcopenia: o treino de força

Não existe medicamento aprovado para reverter a sarcopenia. O que muda o quadro é o exercício com carga, e isso já era sabido nos anos 1990. Moradores de casa de repouso, com 87 anos em média e o mais velho com 98, treinaram força por dez semanas e mais do que dobraram a força das pernas, andaram mais rápido e subiram escada com mais potência. Quem recebeu apenas o suplemento nutricional, sem exercício, não mudou nada 16.

O mesmo acontece em quem mora na própria casa. Em idosos que já têm o diagnóstico, o treino com carga melhora a força da mão, a força da coxa, a velocidade da marcha e o tempo do levantar e andar 13. Em quem ainda não fechou diagnóstico, ele melhora a função física, e o maior ganho de todos aparece justamente em levantar da cadeira 3. Entre todas as formas de exercício, o treino com carga, sozinho ou combinado com equilíbrio, caminhada e nutrição, é o que mais melhora a qualidade de vida, a força da mão e a velocidade de caminhada 12. E não é preciso academia: sessões de 40 a 60 minutos com faixa elástica, três vezes por semana durante pelo menos doze semanas, estão entre as formas mais eficientes de fazer isso 14.

Um detalhe incomoda quem espera ver a coxa engrossar: a massa muscular medida em exame muda pouco, e às vezes não muda 13. A força sobe assim mesmo. Nas primeiras semanas o ganho é quase todo do sistema nervoso, que aprende a recrutar mais fibras de uma vez, e só depois o músculo começa a se reconstruir. O motivo está explicado em perda de força muscular no idoso. Para o dia do idoso, o que importa é justamente a força, não a fotografia do músculo.

Ilustração de idoso levantando de uma cadeira com os braços cruzados no peito
Levantar da cadeira sem as mãos é ao mesmo tempo teste e treino.

Força ou potência: qual treino muda o dia

Dito isso, nem todo treino com carga é igual. O treino de força tradicional pede que a carga suba devagar e desça sob controle. Treino de potência pede a mesma carga, com uma diferença: a fase de subida é feita o mais rápido possível, e a descida continua controlada. A distinção parece técnica e não é. O tropeço no tapete não cobra força, cobra velocidade de resposta, e é a potência que decide se o corpo corrige a tempo 7.

Comparados lado a lado, os dois funcionam, e o treino de potência sai um pouco à frente na melhora da função física, sem aumento de lesão 15. A vantagem é modesta e cabe num conselho curto: para um idoso que já tem força razoável e continua inseguro na rua, peça velocidade no movimento de subida. Para quem mal levanta da cadeira, o primeiro trabalho é ganhar força, e a velocidade entra depois. O treino que trabalha a reação a um desequilíbrio está descrito em exercícios de equilíbrio para idosos.

Exercícios para sarcopenia dentro de casa

Em casa essas peças se juntam num plano só. A central delas é a sobrecarga progressiva: se a série ficou fácil, ela precisa ficar mais difícil, com mais repetições, cadeira mais baixa, faixa elástica mais dura ou peso na mão. Sem isso o corpo se acomoda e o ganho estaciona em poucas semanas. Sobre essa base entra o trabalho de potência, quando a força já dá conta, para devolver a resposta rápida de equilíbrio. E a proteína entra como parte do tratamento, com a mesma seriedade de uma prescrição.

Na prática, a sessão em casa costuma girar em torno de meia dúzia de movimentos: levantar e sentar da cadeira, subir e descer um degrau, ficar na ponta dos pés segurando a bancada, empurrar e puxar faixa elástica com os braços, abrir a perna para o lado contra a faixa e, quando cabe, agachar parcial com apoio. Duas a três sessões por semana, em dias alternados, com carga que permita de oito a doze repetições difíceis, mas possíveis. Pressão alta, dor articular, prótese de quadril e cardiopatia não impedem o treino: mudam a escolha do exercício e a forma de progredir.

Quanta proteína o idoso precisa por dia

Pela resistência anabólica descrita lá atrás, o músculo do idoso responde menos a cada refeição, e por isso a recomendação depois dos 65 anos é maior do que a do adulto jovem: de 1,0 a 1,2 grama de proteína por quilo de peso, por dia. Quem treina ou está fisicamente ativo deve ficar acima de 1,2, e quem enfrenta doença aguda ou crônica precisa de 1,2 a 1,5. A exceção é a doença renal avançada sem diálise, em que a quantidade é definida pelo médico 17. Para um idoso de 60 quilos, a faixa comum significa de 60 a 72 gramas por dia.

Distribuir é o jeito prático de a conta fechar. O padrão brasileiro concentra quase tudo no almoço e deixa o café da manhã e o jantar quase sem proteína, e o músculo não guarda sobra para o dia seguinte. Cada refeição deveria trazer sua porção: ovo, leite, queijo ou iogurte pela manhã; carne, frango, peixe ou a dupla arroz com feijão no almoço; e alguma fonte proteica à noite, mesmo que leve. Quanto cada alimento rende em gramas está em proteína para idosos.

Ilustração de três pratos ao longo do dia, cada um com uma porção de proteína
Uma porção em cada refeição é o jeito prático de fechar a conta do dia, que dificilmente cabe num almoço só.

E o suplemento? Em idoso saudável e bem alimentado, proteína em pó sem exercício não aumenta massa nem força, mesmo tomada por um ano inteiro 20. Em quem já tem sarcopenia a história muda: aí o suplemento de proteína do soro do leite melhora massa e velocidade da marcha, e somado ao treino melhora também a força de mão 18. A regra é curta: suplemento serve a quem não alcança a quantidade pela comida, e nunca substitui o treino. O assunto está desenvolvido em nutrição e fragilidade no idoso.

Vitamina D, creatina e o que não resolve

A vitamina D não é tratamento de sarcopenia, e não adianta tomar por conta própria esperando ganhar força. O que existe é outra coisa: quando ela está baixa, corrigir o nível junto com a proteína melhora massa, força e função mais do que a proteína sozinha 19. A conduta que sai daí é dosar, repor quando falta, sempre sob orientação médica, e nunca colocar a cápsula no lugar do exercício.

A creatina aumenta mesmo a força, desde que venha junto com o treino, e é um dos suplementos mais estudados que existem 21. Já existe pesquisa feita especificamente com adultos mais velhos, e ela aponta para ganhos modestos de massa magra e de força de perna quando o suplemento acompanha o treino 22. Ainda assim, o uso depois dos 60 anos é conversa para o médico e o nutricionista, principalmente quando há doença renal. De novo, o efeito depende do treino: sem carga, não há o que potencializar. Dose, segurança e o que esperar estão em creatina para idosos.

O que não funciona também precisa ser dito. A caminhada isolada não recupera a força da perna, porque o corpo já carrega o próprio peso todo dia e não vê nisso um desafio novo. A massagem, a eletroestimulação passiva e os aparelhos que prometem contrair o músculo sem esforço não substituem levantar carga. A reposição hormonal por causa da fraqueza não tem indicação, e a testosterona fora de indicação médica traz risco. E a dieta de emagrecimento sem treino, num idoso, tira músculo junto com a gordura.

Quanto tempo demora para o músculo voltar

A primeira mudança que a família nota costuma vir entre a segunda e a quarta semana, e não é estética: é o idoso levantar da cadeira sem empurrar com as mãos. Esse é o ganho neural, o sistema nervoso aprendendo a usar melhor o músculo que já existe. Entre oito e doze semanas o ganho já aparece no dinamômetro e no cronômetro do sentar e levantar, e esse é o prazo mínimo para julgar se o plano funcionou 14. A velocidade da marcha e o equilíbrio costumam melhorar no mesmo período 12.

Depois disso o trabalho muda de natureza. O que foi conquistado se perde em poucas semanas de parada, com a mesma facilidade com que se perdeu na internação de dez dias 8. Tratamento de sarcopenia não tem alta no sentido de encerrar: tem uma fase intensiva de reconstrução e uma fase de manutenção, mais leve, que precisa continuar. Um ciclo de fisioterapia termina; um hábito instalado na casa, não.

Quando o problema não é só sarcopenia

A fraqueza no idoso tem muitas causas, e algumas exigem médico antes de qualquer treino. A mais importante é a perda de peso sem explicação: emagrecer sem dieta e sem querer costuma ter causa por trás, e anemia, tireoide, doença renal, doença do coração, má absorção intestinal, depressão e câncer entram na lista. Investigar isso vem antes de aumentar carga.

Outras pistas mudam o rumo da avaliação. A fraqueza que apareceu depressa, em semanas, não combina com sarcopenia, que é lenta. A fraqueza de um lado só do corpo aponta para causa neurológica. Dormência, formigamento ou queimação nos pés junto com a fraqueza sugerem neuropatia periférica. Dor muscular importante, sobretudo em quem usa estatina, pede avaliação específica. Cansaço com falta de ar em esforço pequeno remete ao coração e ao pulmão. E uma lista longa de medicamentos merece revisão: corticoide, alguns diuréticos e remédios que sedam contribuem para a fraqueza e para a queda, assunto tratado em polifarmácia no idoso.

Sarcopenia e fragilidade também não são a mesma coisa, embora andem juntas. A sarcopenia descreve o músculo; a fragilidade descreve a reserva do organismo inteiro, e inclui perda de peso, exaustão, lentidão e baixa atividade. A sarcopenia é um dos principais motores da fragilidade, e tratá-la é a via mais direta de recuperar reserva.

O músculo do idoso ainda responde, mesmo aos 90

Sarcopenia é perder força de músculo junto com massa. Não existe remédio para ela, e existem três coisas que funcionam e cabem dentro de casa.

Levantar

Sente na beira da cadeira, cruze os braços no peito e levante sem apoiar as mãos. Repita até ficar difícil, em geral de oito a doze vezes, descanse um minuto e faça mais duas séries iguais.

Distribuir

Ponha proteína nas três refeições, não só no almoço: ovo, leite ou queijo de manhã, carne ou arroz com feijão no almoço, e alguma fonte à noite. São de 60 a 72 gramas por dia para quem pesa 60 quilos.

Repetir

Duas a três vezes por semana, em dias alternados, por pelo menos doze semanas. Antes desse prazo não dá para dizer que não funcionou, e é aí que a maioria desiste.

Por onde começar em casa

A carga mais acessível dentro de casa é o próprio peso do corpo, e o exercício que resume tudo é levantar da cadeira sem empurrar com as mãos. Repetir até ficar difícil, descansar, repetir de novo, em dias alternados. Parece pouco, e não é: o mesmo movimento serve de teste e de treino. A regra da academia continua valendo aqui, com o cuidado que a idade pede, e quando a série deixa de custar é hora de baixar a cadeira, somar repetições ou segurar um peso na mão.

Antes de começar, convém anotar três medidas num papel guardado na gaveta: quantos segundos o idoso leva para levantar e sentar cinco vezes, quantos passos dá para atravessar o corredor e quantos centímetros tem a panturrilha na parte mais grossa. Repetir a mesma anotação a cada seis semanas transforma impressão em resultado, e é o que mostra se o plano está funcionando ou se precisa mudar.

No intervalo entre uma anotação e outra, bastam duas perguntas do dia a dia. As mãos ainda entram em ação para levantar da cadeira? Abrir a garrafa ou girar a chave ficou mais difícil do que era há seis meses? Se além da fraqueza já houve tropeço ou queda, o questionário de risco de queda ajuda a organizar o que precisa ser contado na consulta. E se a perda de peso apareceu sem dieta, a consulta médica vem antes de qualquer aumento de carga.

Perguntas frequentes

O que é sarcopenia em idosos?
Sarcopenia é a perda de massa muscular acompanhada de queda de força e de desempenho físico. O critério que mais pesa hoje é a força: o músculo pode ainda ter volume razoável e já não produzir a tensão necessária para levantar da cadeira ou subir um degrau. Quando a lentidão da marcha também aparece, a condição é classificada como grave.
Quais são os primeiros sinais de sarcopenia?
O sinal mais precoce é a perda de força, e ela aparece em gestos comuns: apoiar as mãos para sair da poltrona, trocar a escada pelo elevador no próprio prédio, pedir ajuda para abrir garrafa e girar a chave, largar a sacola no meio do caminho. A roupa que folga na coxa e a aliança que gira no dedo entram na mesma lista. Três ou quatro desses sinais instalados nos últimos seis meses já justificam uma avaliação.
Sarcopenia tem cura?
Ela tem tratamento, e o músculo responde em qualquer idade. Idosos de casa de repouso com quase 90 anos mais do que dobraram a força de perna em dez semanas de treino resistido. O que não existe é alta definitiva: o ganho se perde em poucas semanas de parada, então o tratamento tem uma fase intensiva de reconstrução e uma fase de manutenção que precisa continuar.
Qual é o melhor exercício para sarcopenia?
O treino com carga, também chamado resistido. Ele melhora a força de preensão, a força da coxa, a velocidade da marcha e o tempo do levantar e andar em quem já tem o diagnóstico. Não é preciso academia: sessões de 40 a 60 minutos com faixa elástica, três vezes por semana durante pelo menos doze semanas, estão entre as formas mais eficientes. Somar equilíbrio e uma parte aeróbia melhora ainda mais a qualidade de vida.
Caminhada trata sarcopenia?
Não sozinha. Caminhar traz benefício cardiovascular, humor e sono, mas não recupera a força das pernas, porque o corpo já carrega o próprio peso todos os dias e não enxerga nisso um estímulo novo. Para reconstruir músculo é preciso carga acima do habitual, ainda que leve. A caminhada é boa companhia do treino de força, não substituta.
Quanta proteína um idoso com sarcopenia precisa por dia?
A recomendação para quem tem mais de 65 anos é de 1,0 a 1,2 grama de proteína por quilo de peso por dia, subindo acima de 1,2 para quem treina e para 1,2 a 1,5 em doença aguda ou crônica. Num idoso de 60 quilos, isso significa de 60 a 72 gramas em um dia comum. Doença renal avançada é exceção e a quantidade fica a cargo do médico. Espalhar a proteína pelas três refeições não rende mais por si, mas é o jeito prático de fechar a conta, porque ninguém come tudo no almoço.
Existe remédio para sarcopenia?
Nenhum medicamento é aprovado para reverter a sarcopenia. A vitamina D só ajuda quando está baixa e é corrigida junto com a proteína, e a creatina depende de treino para fazer efeito. Reposição hormonal por causa da fraqueza não tem indicação. Massagem, eletroestimulação passiva e aparelhos que prometem contrair o músculo sem esforço não substituem levantar carga.
Quanto tempo demora para o idoso recuperar força muscular?
A primeira mudança costuma aparecer entre a segunda e a quarta semana, e é funcional: levantar da cadeira sem empurrar com as mãos. Esse ganho inicial vem do sistema nervoso aprendendo a recrutar melhor o músculo que já existe. Os ganhos mensuráveis de força de preensão e de tempo no sentar e levantar aparecem entre oito e doze semanas.
Idoso acima do peso pode ter sarcopenia?
Pode, e é a forma que mais passa despercebida. Na obesidade sarcopênica a perda de músculo acontece junto com o acúmulo de gordura, e a balança não denuncia nada porque o peso fica igual ou sobe. A pista não é o peso e sim a função: se levar mais de 15 segundos para levantar cinco vezes da cadeira, o problema é de músculo. Nesse caso, emagrecer sem treino de força tira músculo junto com gordura.
Como saber se um idoso tem sarcopenia em casa?
Duas medidas caseiras dão uma boa suspeita. A primeira é cronometrar o levantar e sentar cinco vezes, de braços cruzados no peito: acima de 15 segundos, a força das pernas está comprometida. A segunda é medir com fita a parte mais grossa da panturrilha: abaixo de 31 centímetros, a suspeita aumenta. Nenhuma das duas fecha diagnóstico, e as duas juntas justificam levar o assunto à consulta.
Internação piora a sarcopenia?
Piora, e depressa. Idosos saudáveis que passaram dez dias na cama perderam 13% da força da coxa e 14% da potência para subir escada, mesmo bem alimentados e sem doença nenhuma. Numa internação real, com febre, jejum e dor, a perda é maior. Por isso sair da cama o quanto antes, ainda no hospital, faz tanta diferença.

Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação individual do idoso, presencial, nem a conduta do médico que o acompanha.

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