Muleta canadense com braçadeira de antebraço
Dispositivo de auxílio à marcha

Muleta canadense

Muleta de antebraço com braçadeira: tira mais peso da perna que a bengala e é mais segura que a axilar no uso prolongado.

Atualizado em 1º de agosto de 2026. Conteúdo de Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F.

O que é a muleta canadense

A muleta canadense, também chamada de muleta de antebraço, muleta inglesa ou Lofstrand, é um dispositivo composto por uma haste vertical com empunhadura horizontal e uma braçadeira em U que envolve o antebraço logo abaixo do cotovelo. Sua biomecânica transfere a carga para o cotovelo e o punho, sem comprimir a região axilar como ocorre nas muletas tradicionais.

Ilustração de muleta canadense vista de perfil
A braçadeira no antebraço deixa a mão livre sem soltar a muleta.

Costuma ser o dispositivo de escolha para situações de uso prolongado, pacientes neurológicos crônicos e pós-operatórios que se estendem por semanas ou meses. Quando bem ajustada, oferece estabilidade comparável à muleta axilar com muito mais conforto e menor risco de complicações neurovasculares.

Por que a canadense é mais segura para uso crônico. A muleta axilar comprime o plexo braquial e os vasos da região axilar quando usada por muitas semanas, podendo causar paralisia temporária do braço, dormência e fraqueza, a chamada "paralisia do muleteiro". A canadense elimina esse risco porque a carga se distribui entre o antebraço, pela braçadeira, e a mão, pela empunhadura, nunca na axila. Em uma muleta canadense para idoso, essa distribuição de carga no antebraço importa ainda mais, porque preserva a força de preensão para outras tarefas do dia a dia.

Quando é indicada

Indica-se em casos de pós-cirúrgico prolongado, como artroplastia de quadril ou joelho e fraturas de membro inferior com uso por semanas ou meses, sequelas neurológicas crônicas como poliomielite, AVC com hemiparesia leve ou lesão medular incompleta, e amputação unilateral de membro inferior em fase de protetização. Também serve a pacientes jovens e ativos que precisam de mobilidade rápida e manter as mãos parcialmente livres, já que a braçadeira permite abrir uma porta sem soltar a muleta. Sempre que a muleta axilar for indicada, mas o uso ultrapassar 4 a 6 semanas, a canadense é a progressão natural, assim como na reabilitação de marcha com necessidade de descarga parcial bilateral.

Como ajustar corretamente

Altura da empunhadura

Com o paciente em pé, calçado, braços relaxados ao lado do corpo, a empunhadura deve coincidir com a prega do punho ou com a linha do trocanter maior. Ao apoiar a mão, o cotovelo deve flexionar entre 15° e 30° (nunca esticado).

Ilustração de antebraço apoiado na braçadeira da muleta canadense
A braçadeira fica abaixo do cotovelo, e o cotovelo permanece levemente dobrado.

Posição da braçadeira

A braçadeira em U deve envolver o antebraço logo abaixo do cotovelo, aproximadamente a 2,5 a 5 cm abaixo do olécrano (osso saliente posterior do cotovelo). Não pode comprimir o cotovelo nem cair sobre o punho.

Tamanho da braçadeira

A abertura deve permitir entrada e saída do antebraço sem aperto, mas sem folga excessiva. Braçadeira solta gira em torno do braço e desestabiliza a marcha; braçadeira apertada causa garroteamento e pressão sobre nervo ulnar/radial.

Resumo do ajuste: empunhadura na linha do trocanter ou prega do punho, cotovelo a 15°–30° de flexão; braçadeira 2,5–5 cm abaixo do olécrano, firme, mas sem comprimir; toda a carga vai para empunhadura e antebraço, nunca para a axila.

Técnicas de marcha

Marcha em 2 pontos (carga parcial bilateral leve)

Muleta direita avança junto com membro inferior esquerdo; muleta esquerda avança junto com membro inferior direito. Padrão recíproco, marcha mais rápida.

Ilustração vertical de idoso caminhando com duas muletas canadenses
As duas muletas e a perna afetada avançam no mesmo tempo.

Marcha em 3 pontos (descarga total ou parcial unilateral)

Ambas as muletas avançam junto com o membro afetado; depois, o membro saudável é trazido à frente. Padrão típico do pós-operatório de quadril/joelho com restrição de descarga.

Marcha em 4 pontos (instabilidade bilateral significativa)

Muleta direita → pé esquerdo → muleta esquerda → pé direito. Marcha lenta e estável, ideal para pacientes neurológicos.

Escadas

Subindo, o pé saudável sobe primeiro; depois as muletas e o pé afetado sobem juntos. Descendo, as muletas e o pé afetado descem primeiro; só então o pé saudável. Sempre que possível, use o corrimão com um dos braços, levando ambas as muletas no lado oposto.

Erros comuns

Braçadeira muito alta ou baixa força extensão excessiva do punho e provoca dor no antebraço. Apoiar peso sobre o cotovelo em vez da empunhadura sobrecarrega o nervo ulnar e causa parestesia. O cotovelo totalmente esticado ao apoiar indica muleta curta e sobrecarrega o ombro. A ponteira gasta provoca escorregões frequentes (substitua quando os sulcos antiderrapantes não forem mais visíveis). Por fim, avançar a muleta longe demais à frente gera passo excessivamente longo e desequilíbrio.

Vantagens e limitações

Vantagens

Não comprime a axila e pode ser usada por meses sem complicações neurovasculares. Com a braçadeira, as mãos ficam parcialmente livres (é possível abrir uma porta sem soltar a muleta).

Limitações

Exige força e coordenação de punho e cotovelo preservadas. A curva de aprendizado é maior do que a da muleta axilar, podendo ser difícil para idosos muito frágeis ou com artrite significativa de membro superior.

Atenção

A muleta canadense exige força preservada no antebraço, punho e mão. Pacientes com artrite reumatoide significativa, sequelas neurológicas do membro superior ou fraqueza grave podem ter melhor desempenho com andador. Avaliação fisioterapêutica é fundamental para decidir.

Manutenção

Inspecione ponteiras semanalmente. Verifique parafusos de regulagem mensalmente. Confira se a braçadeira não está rachada ou solta (é uma falha estrutural comum em muletas baratas). Em modelos com punho ergonômico de espuma, o revestimento pode ressecar e rachar com o tempo (substitua quando perceber sinais de desgaste).

Na recuperação de uma cirurgia, a muleta canadense costuma ser a ponte entre o andador das primeiras semanas e a bengala ou a marcha livre. A hora de trocar de etapa não se decide pela sensação de melhora, que chega bem antes da segurança real, e sim por teste objetivo e, no caso de fratura, pela confirmação da consolidação no raio-X. Abandonar o apoio cedo demais é uma das causas mais comuns de nova queda no pós-operatório.

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