Muleta canadense
A muleta canadense, de antebraço, tira mais peso da perna que a bengala e é mais segura que a axilar no uso prolongado. Veja quando usar, como regular a altura e como andar com uma ou duas.
RCAtualizado em 26 de setembro de 2026. Revisado por Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta com residência em Saúde do Idoso no HC-UFMG, CREFITO 4/277587-F. Como este texto foi feito.
O que é a muleta canadense
A muleta canadense, também chamada de muleta de cotovelo, muleta de antebraço, muleta inglesa ou Lofstrand, é um dispositivo composto por uma haste vertical com empunhadura horizontal e uma braçadeira em U que envolve o antebraço logo abaixo do cotovelo. Sua biomecânica transfere a carga para o cotovelo e o punho, sem comprimir a região axilar como ocorre nas muletas tradicionais.
Costuma ser o dispositivo de escolha para situações de uso prolongado, pacientes neurológicos crônicos e pós-operatórios que se estendem por semanas ou meses. Quando bem ajustada, oferece estabilidade comparável à muleta axilar com muito mais conforto e menor risco de complicações neurovasculares.
Por que a canadense é mais segura para uso crônico. A muleta axilar comprime o plexo braquial e os vasos da região axilar quando usada por muitas semanas, podendo causar paralisia temporária do braço, dormência e fraqueza, a chamada "paralisia do muleteiro". A canadense elimina esse risco porque a carga se distribui entre o antebraço, pela braçadeira, e a mão, pela empunhadura, nunca na axila. Em uma muleta canadense para idoso, essa distribuição de carga no antebraço importa ainda mais, porque preserva a força de preensão para outras tarefas do dia a dia.
Quando usar a muleta canadense
Indica-se em casos de pós-cirúrgico prolongado, como artroplastia de quadril ou joelho e fraturas de membro inferior com uso por semanas ou meses, sequelas neurológicas crônicas como poliomielite, AVC com hemiparesia leve ou lesão medular incompleta, e amputação unilateral de membro inferior em fase de protetização. Também serve a pacientes jovens e ativos que precisam de mobilidade rápida e manter as mãos parcialmente livres, já que a braçadeira permite abrir uma porta sem soltar a muleta. Sempre que a muleta axilar for indicada, mas o uso ultrapassar 4 a 6 semanas, a canadense é a progressão natural, assim como na reabilitação de marcha com necessidade de descarga parcial bilateral.
Altura correta da muleta canadense
Altura da empunhadura
Com o paciente em pé, calçado, braços relaxados ao lado do corpo, a empunhadura deve coincidir com a prega do punho ou com a linha do trocanter maior. Ao apoiar a mão, o cotovelo deve flexionar entre 15° e 30° (nunca esticado).
Posição da braçadeira
A braçadeira em U deve envolver o antebraço logo abaixo do cotovelo, aproximadamente a 2,5 a 5 cm abaixo do olécrano (osso saliente posterior do cotovelo). Não pode comprimir o cotovelo nem cair sobre o punho.
Tamanho da braçadeira
A abertura deve permitir entrada e saída do antebraço sem aperto, mas sem folga excessiva. Braçadeira solta gira em torno do braço e desestabiliza a marcha; braçadeira apertada causa garroteamento e pressão sobre nervo ulnar/radial.
Resumo do ajuste: empunhadura na linha do trocanter ou prega do punho, cotovelo a 15°–30° de flexão; braçadeira 2,5–5 cm abaixo do olécrano, firme, mas sem comprimir; toda a carga vai para empunhadura e antebraço, nunca para a axila.
Como andar de muleta canadense
Marcha em 2 pontos (carga parcial bilateral leve)
Muleta direita avança junto com membro inferior esquerdo; muleta esquerda avança junto com membro inferior direito. Padrão recíproco, marcha mais rápida.
Marcha em 3 pontos (descarga total ou parcial unilateral)
Ambas as muletas avançam junto com o membro afetado; depois, o membro saudável é trazido à frente. Padrão típico do pós-operatório de quadril/joelho com restrição de descarga.
Marcha em 4 pontos (instabilidade bilateral significativa)
Muleta direita → pé esquerdo → muleta esquerda → pé direito. Marcha lenta e estável, ideal para pacientes neurológicos.
Escadas
Subindo, o pé saudável sobe primeiro; depois as muletas e o pé afetado sobem juntos. Descendo, as muletas e o pé afetado descem primeiro; só então o pé saudável. Sempre que possível, use o corrimão com um dos braços, levando ambas as muletas no lado oposto.
Sentar e levantar
Para sentar, chegue de costas até sentir a cadeira encostar na parte de trás das pernas. Tire os braços das braçadeiras, junte as duas muletas na mão do lado da perna afetada e apoie a outra mão no braço da cadeira. Desça devagar, com a perna afetada um pouco à frente. Para levantar, faça o caminho inverso: chegue à beira do assento, empurre com a mão no braço da cadeira enquanto a outra segura as muletas pela empunhadura e só encaixe as braçadeiras depois de estar de pé e firme.
Como usar só uma muleta canadense
Uma muleta só serve quando a perna afetada já aguenta boa parte do peso e o que falta é equilíbrio ou alívio de dor, e não descarga. Ela fica no lado oposto à perna afetada: se a dor é no joelho direito, a muleta vai na mão esquerda. A muleta avança junto com a perna afetada, e a perna boa vem depois. Assim o apoio divide a carga com o lado que precisa, como acontece no balanço natural dos braços ao caminhar.
Usar a muleta do mesmo lado da perna machucada parece mais intuitivo, mas faz o tronco inclinar para aquele lado e aumenta a carga que se queria tirar. Se com uma muleta só a pessoa ainda manca muito ou perde o equilíbrio, o par continua sendo necessário.
Erros comuns com a muleta canadense
Braçadeira muito alta ou baixa força extensão excessiva do punho e provoca dor no antebraço. Apoiar peso sobre o cotovelo em vez da empunhadura sobrecarrega o nervo ulnar e causa parestesia. O cotovelo totalmente esticado ao apoiar indica muleta curta e sobrecarrega o ombro. A ponteira gasta provoca escorregões frequentes (substitua quando os sulcos antiderrapantes não forem mais visíveis). Por fim, avançar a muleta longe demais à frente gera passo excessivamente longo e desequilíbrio.
Muleta canadense ou axilar: qual escolher
A muleta axilar costuma resolver melhor as primeiras semanas de descarga total, porque se aprende mais rápido. A canadense ganha quando o uso passa de um mês, quando a pessoa precisa das mãos no dia a dia ou quando o apoio vai ser permanente.
Vantagens
Não comprime a axila e pode ser usada por meses sem complicações neurovasculares. Com a braçadeira, as mãos ficam parcialmente livres (é possível abrir uma porta sem soltar a muleta).
Limitações
Exige força e coordenação de punho e cotovelo preservadas. A curva de aprendizado é maior do que a da muleta axilar, podendo ser difícil para idosos muito frágeis ou com artrite significativa de membro superior.
Atenção
A muleta canadense exige força preservada no antebraço, punho e mão. Pacientes com artrite reumatoide significativa, sequelas neurológicas do membro superior ou fraqueza grave podem ter melhor desempenho com andador. Avaliação fisioterapêutica é fundamental para decidir.
Manutenção e hora de deixar a muleta
Inspecione ponteiras semanalmente. Verifique parafusos de regulagem mensalmente. Confira se a braçadeira não está rachada ou solta (é uma falha estrutural comum em muletas baratas). Em modelos com punho ergonômico de espuma, o revestimento pode ressecar e rachar com o tempo (substitua quando perceber sinais de desgaste).
Na recuperação de uma cirurgia, a muleta canadense costuma ser a ponte entre o andador das primeiras semanas e a bengala ou a marcha livre. A hora de trocar de etapa não se decide pela sensação de melhora, que chega bem antes da segurança real, e sim por teste objetivo e, no caso de fratura, pela confirmação da consolidação no raio-X. Abandonar o apoio cedo demais é uma das causas mais comuns de nova queda no pós-operatório.