Muleta axilar
A muleta axilar tira todo ou parte do peso de uma perna por 1 a 6 semanas, na fratura e no pós-operatório imediato, e o peso vai na mão, nunca na axila. Veja como regular a altura, as marchas de 3 e de 2 pontos e os riscos do apoio errado.
RCAtualizado em 29 de setembro de 2026. Revisado por Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta com residência em Saúde do Idoso no HC-UFMG, CREFITO 4/277587-F. Como este texto foi feito.
O que é a muleta axilar
A muleta axilar, também chamada de muleta de ombro, é o dispositivo mais conhecido para descarga unilateral total ou parcial. Possui um coxim almofadado superior que se apoia no flanco da caixa torácica, não diretamente na axila, uma empunhadura horizontal e uma haste única terminando em ponteira de borracha. Geralmente usada em pares, uma em cada lado.
Funciona bem no curto prazo, tipicamente entre 1 e 6 semanas. Para usos mais longos, a muleta canadense é preferida, pois evita complicações neurovasculares na axila.
Onde o peso realmente deve ficar. Apesar do nome, a muleta axilar NÃO deve receber peso na axila. A carga é transferida pela empunhadura para o punho, ombro e parede torácica lateral. O coxim axilar serve apenas como guia e estabilizador, nunca como ponto de apoio para o peso corporal. O coxim deve ficar a 2–3 dedos abaixo da axila.
Quando a muleta axilar é indicada
Indica-se em fraturas de membros inferiores, como tíbia, fíbula, tornozelo ou pé, com indicação de ausência de descarga ou descarga parcial, no pós-operatório imediato de cirurgias ortopédicas, nas primeiras 1 a 6 semanas, em lesões agudas de tornozelo como entorses grau III ou ruptura de tendão de Aquiles, e na descarga total temporária por úlceras plantares ou infecções. Também é a escolha para pacientes com força preservada nos membros superiores e bom equilíbrio de tronco, e nas situações em que a muleta canadense seria ideal, mas o paciente não tolera a carga concentrada no punho ou cotovelo.
Riscos da muleta axilar mal usada
Atenção: paralisia do muleteiro
O uso prolongado ou incorreto da muleta axilar (com peso apoiado diretamente na axila) pode lesar o plexo braquial e os vasos axilares, causando dormência, formigamento, fraqueza muscular e, em casos graves, paralisia temporária ou definitiva do braço. Essa complicação é conhecida na literatura como "crutch palsy" (paralisia do muleteiro) e justifica preferir a muleta canadense para uso por mais de 6 semanas. É rara, mas bem descrita: a maior parte dos casos relatados se resolve sozinha em 8 a 12 semanas, e nos mais graves a força e a sensibilidade levam meses para voltar 1.
A compressão do plexo braquial gera parestesia, dor irradiada para o braço e fraqueza muscular. Há risco de trombose da veia axilar, complicação rara, mas grave. Lesões de pele, como escoriações e bolhas no flanco torácico, são comuns no contato com o coxim, assim como tendinite do manguito rotador por sobrecarga repetitiva do ombro e dor cervical pela elevação compensatória dos ombros.
Como regular a muleta axilar
Altura total da muleta
Com o paciente em pé, calçado, com a muleta em posição vertical próxima ao corpo: o coxim axilar deve ficar 2 a 3 dedos, cerca de 2,5 a 5 cm, abaixo da prega axilar. Nunca encostado na axila. A altura marcada nos furos da muleta serve só de ponto de partida: entre 116 adultos com lesão na perna, 57% precisaram de ajuste depois da medida feita no próprio corpo 2.
Altura da empunhadura
Com o paciente em pé, braços relaxados: a empunhadura deve coincidir com a prega do punho. Ao apoiar a mão, o cotovelo deve flexionar entre 15° e 30°.
Posicionamento da muleta
As ponteiras devem ficar aproximadamente 15 cm à frente e 15 cm lateralmente aos pés (o chamado "tripé" muleta-pé). Essa base ampla é essencial para estabilidade.
Resumo do ajuste: coxim 2–3 dedos abaixo da axila (nunca encostado nela); empunhadura na linha do punho, cotovelo a 15°–30° de flexão; ponteiras a 15 cm à frente e 15 cm lateralmente aos pés 3.
Como andar com muleta axilar
Marcha em 3 pontos (descarga total)
Indicada quando o membro afetado não pode receber nenhuma carga, como na fratura instável ou no pós-operatório imediato.
- Avance ambas as muletas à frente simultaneamente.
- Mantenha o membro afetado suspenso (não toca o chão).
- Apoie-se na empunhadura (mãos) e oscile o corpo para a frente, levando o membro saudável à frente das muletas.
- Repita.
Marcha em 3 pontos modificada (descarga parcial)
Quando há liberação para descarga parcial (toque do dedão, 25%, 50% do peso). As muletas e o membro afetado avançam juntos, e o membro saudável ultrapassa em seguida.
Marcha em 2 pontos (apoio bilateral leve)
A muleta direita e o pé esquerdo avançam juntos; a muleta esquerda e o pé direito avançam juntos. Padrão recíproco mais rápido.
Escadas
Subindo, o pé saudável sobe primeiro; depois as muletas e o pé afetado sobem juntos. Descendo, as muletas e o pé afetado descem primeiro; depois o pé saudável. Use sempre o corrimão quando possível, levando ambas as muletas no lado oposto.
Sentar e levantar
Para sentar, chegue de costas até sentir a cadeira encostar na parte de trás das pernas. Junte as duas muletas pelas empunhaduras na mão do lado da perna afetada, apoie a outra mão no braço da cadeira e desça devagar, com a perna afetada um pouco à frente. Para levantar, faça o caminho inverso: chegue à beira do assento, empurre com a mão no braço da cadeira enquanto a outra segura as muletas juntas e só coloque uma de cada lado depois de estar de pé e firme. Não se apoie nas muletas pelo coxim para sentar: elas escorregam e o peso cai na axila.
Como usar só uma muleta axilar
Uma muleta só serve quando a perna afetada já aguenta boa parte do peso e o que falta é equilíbrio ou alívio de dor, e não descarga. Ela fica no lado oposto à perna afetada: se a dor é no joelho direito, a muleta vai debaixo do braço esquerdo. A muleta avança junto com a perna afetada, e a perna boa vem depois, como no balanço natural dos braços ao caminhar.
Usar a muleta do mesmo lado da perna machucada parece mais intuitivo, mas inclina o tronco para aquele lado e devolve a carga que se queria tirar. Se a indicação ainda é tirar todo o peso da perna, uma muleta só não basta: o par continua necessário. E quando a fase de uma muleta só passa de algumas semanas, a muleta canadense ou a bengala costumam ser a troca natural, pelo mesmo motivo de proteger a axila.
Erros comuns com a muleta axilar
Apoiar o corpo no coxim axilar é o erro mais grave, pois representa risco direto de paralisia do muleteiro. Já o coxim encostado na axila indica altura excessiva da muleta; a elevação dos ombros ao andar é sinal de muleta muito longa, enquanto a inclinação do tronco para a frente indica muleta muito curta. Avançar pouco com as muletas também é um equívoco: passos curtos demais geram marcha ineficiente. Por fim, não usar luva ou proteção em uso prolongado favorece o surgimento de calos e bolhas na palma da mão.
Quando trocar a muleta axilar pela canadense
A muleta axilar é excelente para uso de curto prazo, mas torna-se inadequada quando o uso ultrapassa 6 semanas (nesse caso, considere a muleta canadense), quando o paciente apresenta artrite ou dor crônica de ombro, quando surgem sinais de parestesia ou fraqueza do membro superior, quando o paciente é idoso muito frágil (o andador costuma ser mais seguro) ou quando há instabilidade de tronco significativa.
Curva de progressão típica. Em fraturas de membro inferior, a progressão usual é: muletas axilares com descarga zero → muletas axilares com descarga parcial crescente → muleta canadense ou bengala → marcha independente. A liberação para cada estágio depende de avaliação clínica e, em fraturas, de imagem (raio-X) confirmando consolidação óssea.
Manutenção da muleta axilar
Inspecione ponteiras semanalmente (desgaste rápido pelo uso intenso em pós-operatório). Verifique parafusos de regulagem e travas de altura. O coxim axilar pode rasgar com o uso (substitua antes que a estrutura plástica/madeira interna fique exposta). Confira se o conjunto está alinhado: muletas tortas indicam dano estrutural e devem ser substituídas.
Fica uma orientação que precisa ser repetida em casa todos os dias: o peso do corpo se apoia nas mãos, e não na axila. O coxim serve para encostar o tronco e dar estabilidade lateral, e ele deve parar cerca de três dedos abaixo da axila. Descansar o corpo sobre esse apoio comprime nervos da região e provoca formigamento, dormência e fraqueza na mão, um problema que demora a se resolver. Se aparecer qualquer um desses sinais, vale ajustar a altura e conversar com quem acompanha o caso antes de continuar.