Dispositivo de Auxílio à Marcha
Cadeira de Rodas
Mobilidade sem descarga de peso (quando a marcha funcional não é mais possível ou exige preservação de energia).
O que é a cadeira de rodas
A cadeira de rodas é o último degrau da progressão dos dispositivos de auxílio à mobilidade, não como derrota, mas como ferramenta de preservação da participação social quando a marcha não é mais funcional ou segura. Pode ser temporária (pós-cirúrgica, fase aguda de doença) ou permanente.
O modelo mais comum em geriatria é a cadeira manual, com 2 rodas grandes traseiras (com aros de propulsão) que o próprio paciente impulsiona, e 2 rodas pequenas dianteiras giratórias para direção. Para idosos sem condição de auto-propulsão, existe a versão para ser empurrada por terceiro.
A cadeira de rodas não é o fim: é uma reorganização. A indicação de cadeira de rodas em idosos não significa desistência da reabilitação. Em muitos casos, ela permite que o paciente conserve energia para atividades significativas (saída para consulta, visita a familiares, viagem) e mantenha a marcha treinada em ambiente domiciliar com supervisão. Em outros, é parte da fase aguda pós-AVC ou pós-cirúrgica, sendo gradualmente abandonada. A decisão clínica deve considerar prognóstico funcional, suporte familiar e qualidade de vida.
Quando é indicada
Indica-se em casos de incapacidade de deambulação, como paraplegia, sequelas graves de AVC com hemiplegia completa ou fraturas com não-consolidação, para pacientes com marcha exausta em longas distâncias como deslocamentos em hospital, aeroporto ou shopping, e em doenças neurodegenerativas avançadas como Parkinson em estágio avançado, esclerose lateral amiotrófica ou demência avançada. Também é indicada em insuficiência cardíaca grave ou DPOC com dispneia aos mínimos esforços, fraturas múltiplas em fase aguda com restrição total de carga, idosos restritos ao domicílio com dependência funcional avançada e pacientes oncológicos terminais em fase de cuidados paliativos. Por fim, integra o plano de reabilitação intermediária em pós-AVC ou pós-trauma, antes de retomar a marcha com andador.
Tipos de cadeiras de rodas
Cadeira manual padrão
Modelo mais comum, com rodas traseiras grandes (24") e aros de propulsão. O usuário se desloca girando os aros com as mãos. Indicada para idosos com força preservada nos membros superiores.
Cadeira para acompanhante
Rodas traseiras menores, sem aros de propulsão. Movida exclusivamente por terceiros. Indicada para idosos sem força para auto-propulsão.
Cadeira de banho/sanitária
Adaptada para uso no banheiro, com assento perfurado ou removível. Muito usada em domicílio para idosos acamados que precisam ser deslocados para o banho.
Cadeira motorizada (elétrica)
Indicada para pacientes com perda significativa de força nos braços mas com bom controle de tronco e cognição preservada. Mais cara, exige treinamento e adequação ambiental (largura de portas, rampas).
Cadeira esportiva / ultraleve
Modelos especializados para idosos ativos, mais raros. Estrutura em alumínio ou titânio, peso reduzido, geometria ajustada à biomecânica individual.
Como ajustar corretamente
Largura do assento
Medida nos quadris do paciente, com folga lateral de 2,5 cm em cada lado. Cadeira muito estreita comprime trocânteres e causa dor; muito larga deixa o paciente sem apoio lateral, prejudicando postura.
Profundidade do assento
Da prega do glúteo até 5 cm antes da fossa poplítea (atrás do joelho). Assento muito profundo comprime nervo ciático e veias poplíteas; muito raso reduz o apoio do fêmur e gera dor.
Altura do encosto
Varia com a função do paciente: o encosto baixo (até abaixo da escápula) oferece mais mobilidade do tronco e é indicado para pacientes ativos com bom controle postural; o encosto médio (até a altura da escápula) equilibra estabilidade e mobilidade; e o encosto alto (até a cabeça) destina-se a pacientes com perda de controle de tronco e cervical, como nos casos de Parkinson avançado ou demências.
Altura do assento
Com os pés nos descansos, joelhos a 90°. Assento muito baixo dificulta transferências; muito alto deixa os pés balançando, comprimindo a panturrilha.
Apoios de braço
Altura adequada para que cotovelos formem ângulo de 90° quando o paciente apoia os braços. Removíveis facilitam transferências laterais.
Descanso de pés
Ajustar para que joelhos fiquem a 90°. Removíveis ou rebatíveis facilitam aproximação à cama, vaso sanitário etc.
Resumo do ajuste: assento com largura = quadril + 2,5 cm de cada lado, profundidade até 5 cm antes da fossa poplítea; encosto em altura ajustada à função (baixo para ativos, médio para intermediários, alto para déficit postural); descanso de pés com joelhos a 90° e pés totalmente apoiados.
Prevenção de complicações
Atenção: lesão por pressão
O risco mais grave em usuários de cadeira de rodas é a lesão por pressão (escara) no sacro, ísquios, calcanhar e cotovelo. Em idosos com baixa massa muscular, comorbidades e mobilidade reduzida, a lesão pode se instalar em poucas horas de imobilidade. Prevenção exige almofada apropriada, alívios de pressão (mudança de posição a cada 2 horas) e cuidados de pele.
Almofada
Almofada comum NÃO é suficiente. Use almofada de prevenção (espuma viscoelástica, gel, ar) prescrita conforme o risco do paciente. Reavalie a cada 6 meses.
Alívios de pressão
O paciente deve ser ensinado a fazer "push-up" (apoiar nas alças e elevar o corpo do assento por 5 segundos) a cada 15-30 minutos. Idosos sem condição de fazer o push-up devem ser deslocados na cadeira a cada 1-2 horas com ajuda do cuidador.
Inclinação lateral
Alternativa ao push-up: o paciente inclina o tronco para um lado, depois para o outro, aliviando o ísquio oposto.
Postura
Postura "deslizada" (com a pelve à frente do assento) é comum em idosos com fadiga e gera grande pressão sobre o sacro. Verifique e reposicione frequentemente.
Outras complicações comuns
Dor de ombro é frequente em usuários ativos, pois a auto-propulsão repetitiva sobrecarrega o manguito rotador (fortalecimento e ergonomia preventiva são essenciais). O edema de membros inferiores decorre da posição estática prolongada; meias elásticas e elevação das pernas várias vezes ao dia ajudam a preveni-lo. A constipação surge pela redução do trânsito intestinal na imobilidade e é combatida com hidratação, fibras e mobilização passiva. A atrofia muscular dos membros inferiores é evitada com fisioterapia regular, mesmo em pacientes sem possibilidade de marcha. Por fim, depressão e isolamento social são riscos reais (o uso da cadeira sem orientação pode gerar perda de papéis sociais, tornando o suporte psicossocial parte fundamental do tratamento).
Adequação ambiental
O domicílio precisa ser adaptado para o uso de cadeira de rodas. A largura das portas deve ser de no mínimo 80 cm, sendo 90 cm o ideal (portas de 60–70 cm não passam cadeira padrão). Rampas devem substituir soleiras e degraus, com inclinação máxima de 8,33% (1 m de comprimento para cada 8 cm de altura). Os banheiros precisam de espaço para giro de 360° (~1,50 m de diâmetro), barras de apoio e chuveiro sem desnível. Os pisos devem ser lisos e firmes (carpetes grossos dificultam a propulsão e tapetes podem enroscar nas rodas). Por fim, os móveis devem estar livres de obstáculos, com alturas compatíveis: mesa, cama e vaso sanitário próximos à altura do assento da cadeira para facilitar as transferências.
Manutenção
A cadeira de rodas exige inspeção sistemática. Os pneus devem ter calibragem verificada (em modelos com câmara de ar) e furos checados regularmente. As rodas precisam de rolamentos lubrificados e sem ruído. Os freios devem ser testados frequentemente (cadeira sem freio funcional é perigosa). O estofado requer limpeza periódica e deve ser substituído quando furado ou desgastado. Todos os parafusos da estrutura devem ser apertados periodicamente.
Indicação é uma decisão multidisciplinar. A escolha entre cadeira de rodas e a continuidade com andador deve envolver fisioterapeuta, médico, paciente e família. Considera-se prognóstico funcional, expectativa de vida, condições do domicílio, suporte de cuidadores e, fundamentalmente, os objetivos do próprio paciente. Para alguns idosos, parar de andar significa perda de identidade; para outros, é alívio da fadiga e da insegurança. A reabilitação geriátrica respeita essas escolhas, oferecendo a melhor solução possível para cada contexto.