Ilustração de senhor sentado num banco de praça, com o braço afetado pelo AVC apoiado numa almofada sobre o colo e a mão segura pela filha, sob um ipê amarelo
Condição clínica

Espasticidade após AVC: o que é, o que piora e como tratar

Braço que fecha contra o peito, mão que não abre e pé que aponta para baixo têm o mesmo nome. A rigidez tem gatilhos conhecidos e tem tratamento, e boa parte dele acontece dentro de casa.

Atualizado em 26 de setembro de 2026. Conteúdo de Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F.

O que é espasticidade após AVC

Resposta curta

Espasticidade após AVC é o aumento involuntário da tensão dos músculos do lado afetado, que aparece nas semanas seguintes ao derrame e endurece o braço, a mão e a perna. Ela atinge cerca de 1 em cada 4 pessoas que tiveram AVC, e perto de 4 em cada 10 quando o derrame deixou fraqueza de um lado do corpo. Não desaparece, mas tem controle: toxina botulínica aplicada cedo, eletroestimulação, treino de força e alongamento lento todos os dias, somados à retirada do que a piora, como dor, intestino preso e infecção urinária.

Depois de um AVC, o lado do corpo atingido costuma passar por duas fases. Na primeira, o braço e a perna ficam moles, sem força e sem tensão, e a família descreve um membro caído. Semanas depois, em parte das pessoas, esse mesmo membro começa a endurecer: a mão fecha sozinha, o cotovelo dobra e encosta no peito, o pé aponta para baixo. Essa segunda fase tem nome, espasticidade, e está entre as sequelas mais frequentes do derrame.

O que acontece por dentro explica o que se vê por fora. O cérebro não serve apenas para mandar o músculo contrair. Ele também freia os reflexos da medula, que, sem esse freio, reagem demais ao estiramento. Quando o AVC lesa as vias que descem do cérebro para a medula, o freio some e o músculo passa a responder a cada puxão com uma contração exagerada. O músculo não ficou forte, ficou desgovernado. A distinção importa porque espasticidade e fraqueza convivem no mesmo braço, e tratar uma não resolve a outra.

O quadro está longe de ser raro. Entre quem teve AVC, cerca de 25 em cada 100 desenvolvem espasticidade. A proporção sobe para perto de 40 em cada 100 quando o derrame deixou fraqueza de um lado do corpo, e a forma grave, a que impede a mão de abrir ou o cotovelo de esticar mesmo com ajuda, aparece em cerca de 1 em cada 10 desses casos1.

1 em cada 4pessoas desenvolve espasticidade depois de um AVC
4 em cada 10desenvolvem quando o AVC deixa fraqueza de um lado do corpo
3 mesesé a janela depois do AVC em que a toxina aplicada cedo já reduz a rigidez

Quando a espasticidade aparece depois do AVC

Ela não surge no dia do derrame. A fase mole do início pode durar de algumas horas a muitas semanas, e a tensão vai subindo aos poucos a partir daí. Os sinais iniciais costumam aparecer nas primeiras semanas, e a rigidez pode continuar a crescer ao longo dos meses seguintes, o que explica por que tanta família só percebe o problema depois da alta, já em casa.

Três características antecipam quem vai endurecer. A mais forte é o tamanho da fraqueza: quem saiu do AVC com fraqueza moderada ou grave tem mais de seis vezes mais chance de desenvolver espasticidade. As outras duas são a perda de sensibilidade no lado afetado e o AVC hemorrágico, que quase dobra a chance em relação ao isquêmico1. No braço, a fraqueza avaliada um mês depois do derrame continua sendo o melhor indicador seis meses adiante2.

Saber disso muda a conduta da família. Se o derrame deixou o braço muito fraco e dormente, a espasticidade é provável e convém procurá-la de propósito nas consultas dos primeiros meses, em vez de esperar a mão fechar para perguntar.

Quais são os sinais de espasticidade

A espasticidade após AVC tem um desenho reconhecível, quase sempre o mesmo. No braço, o ombro puxa para junto do corpo, o cotovelo dobra, o punho vira para baixo e a mão fecha em punho, com o polegar preso dentro dos dedos. Na perna, o joelho fica duro e esticado, o pé aponta para baixo e vira para dentro, e os dedos se curvam em garra. Quem anda com esse padrão joga a perna para o lado, num arco, porque ela não dobra para dar o passo.

Alguns sinais são menos óbvios, e a família costuma não ligá-los à espasticidade: tremor rítmico do pé quando ele encosta no chão ou no apoio da cadeira de rodas, espasmos que dobram a perna à noite e acordam a pessoa, dor ao vestir a camisa pelo braço afetado, dificuldade para limpar a palma da mão, que fica úmida e com cheiro, e pele macerada na dobra do cotovelo.

Um teste simples ajuda a reconhecer o quadro, porque a espasticidade depende da velocidade. Movido devagar para cima, o punho da pessoa cede; movido rápido, ele trava num freio que parece uma mola. O fisioterapeuta mede esse freio com a escala de Ashworth modificada, que vai de 0, quando não há aumento de tensão, a 4, quando a articulação fica presa dobrada ou esticada. A partir do grau 3 a espasticidade é considerada grave, porque o movimento passivo já fica difícil1.

Espasticidade, rigidez ou encurtamento: como diferenciar

Nem todo braço duro depois do AVC é espasticidade, e a diferença decide o tratamento. O músculo que ficou semanas na mesma posição encurta, e o encurtamento não depende de velocidade: devagar ou rápido, a articulação para no mesmo ponto, como se batesse num batente. Esse quadro se chama contratura, ou retração, e a toxina botulínica não o desfaz, porque não há contração exagerada para relaxar, e sim tecido que perdeu comprimento.

Na prática, os dois costumam andar juntos. A espasticidade mantém o cotovelo dobrado, o cotovelo dobrado por semanas faz o músculo encurtar, e o músculo encurtado reforça o reflexo de estiramento. Quanto mais cedo a espasticidade é tratada, menor a parte de contratura que se forma, e por isso o tempo pesa tanto nesse assunto. O mesmo raciocínio vale para o tornozelo e está detalhado na página de pé caído e pé equino.

No dia a dia, todo braço duro é chamado de rígido, e esta página também usa a palavra assim. No consultório, porém, rigidez é o nome de outro quadro, o do Parkinson: ela não depende da velocidade, aparece dos dois lados e vem acompanhada de lentidão de movimento. A espasticidade do AVC fica no lado afetado, poupa o outro e cresce justamente com a pressa.

Ilustração do braço afetado pelo AVC com o cotovelo dobrado junto ao peito e a mão fechada, enquanto outra mão segura o punho por baixo e o leva devagar para cima
Levado devagar, o punho espástico cede. Levado rápido, trava, e é essa diferença que separa a espasticidade do encurtamento.

O que piora a espasticidade

A espasticidade oscila de um dia para o outro, e quem cuida percebe isso antes de qualquer profissional. A razão é que o reflexo sem freio responde a qualquer estímulo que incomode o corpo, mesmo que venha de longe do braço. Quando a rigidez piora de repente, sem nada ter mudado no treino, a primeira pergunta é o que está incomodando.

Gatilhos para procurar quando a rigidez aumenta

Infecção urinária, bexiga cheia ou sonda dobrada. Intestino preso há alguns dias. Ferida de pressão, unha encravada, calo, sapato ou tala apertando. Dor no ombro do lado afetado ou em qualquer outra articulação. Febre e qualquer infecção. Frio, ansiedade, cansaço e noites mal dormidas.

Antes de pedir mais remédio, portanto, o primeiro passo é olhar o corpo inteiro. Muitas vezes a rigidez volta ao que era quando a infecção urinária é tratada ou a constipação se resolve, e aumentar o relaxante muscular nesse momento só soma sonolência. A posição também conta: sentar torto, com o braço pendurado para fora da cadeira, ou deitar sempre sobre o mesmo lado mantém o músculo encurtado e alimenta a tensão.

Espasticidade após AVC tem cura?

No sentido de desaparecer para sempre, não. A lesão no cérebro que tirou o freio continua lá, e a espasticidade é a forma visível dela. Mas não ter cura é diferente de não ter o que fazer. Com tratamento, a tensão pode ser mantida num nível que permite abrir a mão para lavar, vestir sem dor, apoiar o pé inteiro no chão e dormir sem espasmo, e esse é o objetivo realista do tratamento.

Em parte dos casos, a espasticidade diminui com o tempo, à medida que o movimento voluntário volta. Em outra parte, ela se instala e exige cuidado contínuo. O que separa um grupo do outro não é só a gravidade do AVC: é também o que se faz nos primeiros meses para impedir que o músculo encurte.

Tratar também não significa zerar a tensão. Alguma espasticidade na perna ajuda a pessoa a ficar em pé, porque dá firmeza ao joelho, e retirar toda ela pode deixar a perna mole demais para sustentar o peso. O alvo do tratamento é o que atrapalha a vida, e não o número da escala.

Tratamento da espasticidade após AVC: o que funciona

Entre as medidas da fisioterapia, as que têm melhor sustentação contra a espasticidade são as ativas: eletroestimulação, treino de força e pedalar numa bicicleta ergométrica, com ou sem eletroestimulação nos músculos da perna. O alongamento, tanto o feito com movimento quanto o mantido por uma órtese de posicionamento, fica um degrau abaixo. A conclusão prática é dar prioridade ao que a pessoa faz ativamente, e não só ao que se faz nela3.

Eletroestimulação

A eletroestimulação usa corrente de baixa intensidade aplicada na pele, sobre o nervo ou sobre o músculo. Na perna de quem teve o AVC há mais tempo, somada ao restante da fisioterapia, ela reduz a espasticidade mais do que a fisioterapia sozinha, e o efeito aparece quando cada aplicação passa de 30 minutos4. Nos três primeiros meses depois do derrame, só a toxina botulínica tem resultado mais firme do que ela5.

Treino de força

Durante décadas, evitou-se fortalecer o lado espástico, com medo de aumentar a tensão. Esse receio não se confirmou. O treino de força devolve mais força e mais função ao braço e à perna do que as outras terapias, sem aumentar a espasticidade além do que elas aumentam, e o treino mais intenso rende mais do que o leve6. Músculo espástico também é músculo fraco, e é a força que devolve a capacidade de levantar da cadeira.

Alongamento e órteses

O alongamento continua no plano, mas com a expectativa ajustada. Alongar com as mãos, do jeito comum, não tem efeito demonstrado sobre a espasticidade em si, embora melhore o uso da mão e as tarefas do dia a dia. Os aparelhos que mantêm o alongamento por mais tempo, como as talas de posicionamento, reduzem a tensão do punho e da mão7,8.

A órtese tem um custo que precisa ser vigiado. O aparelho que alonga punho e dedos pode causar dor, a tala de polegar pode abrir ferida na pele, e o ganho desses recursos sobre o encurtamento já instalado ainda é incerto9. A tala certa é a que foi moldada para aquela mão, usada pelo tempo combinado e retirada todos os dias para olhar a pele.

Ondas de choque e agulhamento seco

Duas técnicas mais recentes entram como complemento. As ondas de choque, aplicadas sobre o músculo espástico com aparelho próprio, reduzem a espasticidade e a dor e aumentam a amplitude de movimento da perna, com melhor resultado em baixa frequência e baixa pressão10. O agulhamento seco, feito com agulha fina, sem medicamento, dentro do músculo, reduz a espasticidade no curto prazo, com o efeito mais forte na panturrilha, justamente o músculo que mantém o pé apontado para baixo11. O efeito duradouro das duas ainda não está estabelecido, e nenhuma substitui o treino.

Toxina botulínica e fisioterapia na espasticidade

Fora da fisioterapia, a principal ferramenta contra a espasticidade localizada é a toxina botulínica, aplicada por médico, em geral neurologista ou fisiatra, direto nos músculos que mais travam. Ela bloqueia o sinal do nervo para aquele músculo e reduz a tensão de forma localizada, sem dar sono e sem enfraquecer o resto do corpo. O efeito começa em alguns dias, chega ao máximo em poucas semanas e vai passando com o tempo, e por isso a aplicação é repetida periodicamente.

O momento da aplicação importa. Aplicada nos três primeiros meses depois do AVC, quando a espasticidade aparece cedo, ela reduz a tensão de forma consistente, e há sinal de que o resultado supera o da aplicação feita depois desse prazo5. Em muitos casos, ela só é lembrada quando a mão já está fechada há um ano, e a essa altura parte da rigidez já virou encurtamento.

O ponto que mais se perde é o que vem depois da agulha. A toxina relaxa o músculo, mas não ensina o braço a se mexer. Somada à reabilitação, ela devolve movimento com mais frequência na perna do que no braço, e o ganho de função depende do treino que vem junto12.

As semanas seguintes à aplicação são uma janela: com o músculo mais solto, dá para alongar mais longe, ajustar a tala, treinar abrir a mão e apoiar o pé inteiro. Sem esse treino, a toxina compra alívio por alguns meses e devolve o mesmo braço quando o efeito passa.

Para saber se o tratamento está funcionando, o que o braço volta a fazer conta mais do que o grau na escala. Antes da aplicação, o ideal é combinar com o médico e com o fisioterapeuta duas ou três metas concretas, do tipo abrir a mão o bastante para cortar as unhas, vestir a manga sem dor ou apoiar o calcanhar no chão ao andar. Na consulta seguinte, a pergunta é se essas metas foram alcançadas, e é essa resposta que decide repetir a dose, mudar os músculos escolhidos ou tentar outro caminho.

Qual relaxante muscular é indicado após um AVC

Além da toxina, existem remédios por boca para a espasticidade, como o baclofeno e a tizanidina, e a escolha é do médico. Eles agem no corpo inteiro, e não só no músculo que trava, e por isso cobram um preço em sonolência, tontura, sensação de fraqueza e, em algumas pessoas, confusão. O relaxante ideal reduziria a espasticidade sem tirar o movimento voluntário e sem sedar, e nem sempre o comprimido consegue isso.

Quando o problema está concentrado em poucos músculos, como a mão e o punho ou a panturrilha, a toxina local costuma fazer mais sentido do que o comprimido. Quando a espasticidade se espalha pelo corpo, o remédio oral ganha espaço. Nos dois casos, parar ou trocar por conta própria é arriscado, e o baclofeno, em especial, não pode ser suspenso de repente.

Os calmantes da família do diazepam também relaxam o músculo, mas depois dos 65 estão entre os remédios que mais causam queda e confusão, e raramente são a melhor escolha para essa finalidade. A revisão da receita inteira é tema da página de polifarmácia no idoso.

Quando nem o comprimido nem a toxina controlam a espasticidade grave, existem procedimentos feitos por especialista. O bloqueio do nervo com fenol ou álcool age por mais tempo que a toxina num grupo muscular grande. A bomba de baclofeno, implantada sob a pele, libera o remédio direto no líquido que envolve a medula, em dose muito menor que a do comprimido. Quando o encurtamento já está instalado, a cirurgia ortopédica alonga o tendão ou libera a articulação. São caminhos para poucos casos, e a indicação depende de pesar, pessoa a pessoa, o ganho esperado contra o risco.

Espasticidade no idoso: o que muda depois dos 70

Tudo o que veio até aqui vale para qualquer idade. Depois dos 70, quatro fatores mudam de peso, e é neles que o cuidado se decide.

O primeiro é a pele. A pele fina do idoso aguenta menos pressão, e tala mal ajustada, dobra do cotovelo sempre fechada e úmida e calcanhar apoiado no mesmo ponto viram ferida em poucos dias. A lesão por pressão e a laceração de pele são complicações da espasticidade tanto quanto a mão fechada, e cada ferida volta a aumentar a tensão.

O segundo é o osso. Muitos idosos chegam ao AVC com osteoporose, e o lado paralisado perde osso depressa por falta de carga. O alongamento feito às pressas, por quem quer soltar o braço de uma vez, pode machucar articulação e osso frágil. O alongamento certo é lento, sem tranco, e para no ponto em que o músculo resiste.

O terceiro é o ombro do lado afetado, o ponto mais vulnerável depois do derrame. Sem o controle dos músculos, ele desce e sai parcialmente do encaixe, e a dor que vem daí está entre as queixas mais comuns depois do AVC e entre as que mais aumentam a espasticidade. Puxar a pessoa pelo braço afetado na hora de levantar é o jeito mais rápido de machucar esse ombro, e a dor no ombro no idoso tem conduta própria.

O quarto é a margem para remédio. O relaxante muscular por boca, somado aos outros remédios que o idoso já usa, aumenta a sonolência e o risco de queda, e quem tem um lado do corpo mais fraco costuma cair para esse lado, sem a mão para amortecer.

Nessa idade, portanto, o tratamento da espasticidade acontece menos no consultório e mais na rotina da casa: como a pessoa senta, como deita, como passa da cama para a cadeira, o que se faz todos os dias com o braço. Quando a família precisa de acompanhamento para montar essa rotina, a reabilitação pós-AVC em casa leva a avaliação da espasticidade e a orientação ao cuidador para o lugar onde o problema aparece, em Belo Horizonte e Nova Lima.

Exercícios de fisioterapia para espasticidade em casa

Os exercícios abaixo servem para a maioria das pessoas com espasticidade depois do AVC, mas a dose e a escolha dependem da avaliação. Uma regra serve para todos, a da velocidade: como a espasticidade cresce com a pressa, todo movimento feito no braço ou na perna afetada é lento, sem tranco e sem balanço.

Alongamento lento do punho e dos dedos

O objetivo deste exercício é manter o comprimento do músculo e o uso da mão, mais do que baixar a espasticidade. Com a pessoa sentada e o antebraço apoiado na mesa, quem ajuda segura a mão aberta por baixo e leva o punho para cima devagar, mantendo os dedos esticados. Quando o músculo resistir, parar nesse ponto e esperar: em alguns segundos a tensão cede e o punho avança um pouco mais. Repetir algumas vezes, todos os dias.

Carga no braço, sentado

Sentada na beira da cama, com os pés no chão, a pessoa coloca a mão afetada espalmada no colchão, ao lado do quadril, com os dedos virados para trás e o cotovelo esticado, e inclina o corpo para esse lado, passando peso para o braço. O peso abre a mão e alonga os músculos que dobram o punho sem que ninguém precise forçar. Se a mão não abrir sozinha, quem ajuda abre antes de apoiar.

Mão aberta sobre a mesa

A mão afetada fica espalmada sobre a mesa, e a outra mão pressiona de leve o dorso para manter os dedos esticados. Na mesma posição, deslizar a mão para a frente e para trás sobre um pano treina o ombro sem carregar peso.

Sentar e levantar

Levantar da cadeira com os dois pés bem apoiados, o pé do lado afetado um pouco mais para trás, é ao mesmo tempo treino de força da perna e de carga no lado fraco. Começar por uma cadeira mais alta, com apoio à mão, e baixar a altura conforme a força cresce.

Pedalar

A pedaleira portátil em frente à poltrona, ou a bicicleta ergométrica quando há equilíbrio para montar, movimenta joelho e tornozelo em ritmo contínuo e está entre as medidas ativas com melhor sustentação contra a espasticidade da perna3.

Nenhum desses exercícios deve doer. A dor durante o alongamento é sinal para parar e rever o movimento, porque ela está entre os gatilhos que mais aumentam a própria espasticidade. Quando a pessoa já fica em pé, os exercícios de equilíbrio completam o plano.

Ilustração de senhora sentada na beira da cama, com os pés no chão e a mão afetada espalmada no colchão ao lado do quadril, inclinando o corpo para esse lado
Com a mão espalmada ao lado do quadril, o peso do corpo abre os dedos e alonga o punho sem que ninguém precise forçar.

Como posicionar e transferir sem piorar a espasticidade

Quem tem espasticidade grave passa boa parte do dia na poltrona ou na cama, e a posição dessas horas trabalha contra ou a favor do tratamento. Na poltrona, o braço afetado fica apoiado num travesseiro ou numa mesa à frente, com a mão aberta e o cotovelo um pouco esticado, e nunca pendurado para fora da cadeira. Os dois pés ficam inteiros no chão ou no apoio.

Na cama, alternar a posição ao longo do dia evita que o corpo se acostume a um padrão só. De costas, um travesseiro sob o braço afetado mantém o ombro para a frente e a mão aberta. Sobre o lado afetado, com o ombro trazido um pouco para a frente, o peso do corpo alonga o lado espástico, desde que o ombro não fique esmagado embaixo. Sobre o lado bom, o braço afetado descansa num travesseiro à frente do peito. A posição sozinha não preserva o movimento do ombro e do punho melhor do que a fisioterapia comum8, mas protege o ombro, poupa a pele e custa pouco.

Na transferência, a regra é nunca puxar pelo braço afetado. Quem ajuda segura pelo tronco ou pela cintura, a pessoa usa o lado bom para se apoiar, e o movimento é feito em etapas: sentar na beira da cama, apoiar os pés, inclinar o tronco para a frente e só então levantar. A roldana presa acima da cabeça para exercitar o ombro, muito vendida com essa finalidade, força o ombro instável e costuma causar dor.

Ilustração de senhor sentado numa poltrona com o braço afetado apoiado num travesseiro sobre a mesa à frente, a mão aberta e os dois pés apoiados no chão
Braço apoiado à frente, mão aberta e os dois pés no chão: a posição das horas sentadas também faz parte do tratamento.

Quando procurar o neurologista ou o fisiatra

Alguns sinais pedem consulta médica, e não apenas ajuste do exercício.

Marcar consulta

Mão que não abre mais o suficiente para limpar a palma. Cotovelo ou joelho que não estica nem quando movido devagar. Espasmos que acordam a pessoa todas as noites. Dor que impede vestir ou dar banho. Pé que não apoia inteiro no chão e faz tropeçar. Piora progressiva sem causa aparente.

Procurar atendimento no mesmo dia

Rigidez que aumenta de repente junto com febre, confusão ou ardência para urinar. Perda súbita de força, de fala ou de visão, que pode ser um novo AVC. Perna do lado afetado inchada, quente e dolorida, que pode ser trombose.

Na consulta, vale perguntar se a espasticidade já foi medida e em que grau, se há indicação de toxina botulínica para os músculos que mais atrapalham e se algum remédio da receita pode estar piorando a sonolência ou a rigidez. Levar anotado o que piora e o que melhora a tensão ao longo da semana ajuda o médico a encontrar o gatilho.

Quem cuida também cansa. Abrir a mão, mudar a posição e fazer a transferência várias vezes ao dia pesa no corpo e no humor, e a sobrecarga do cuidador tem caminho próprio.

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação individual. O tratamento da espasticidade depende do grau, dos músculos envolvidos, das outras doenças e dos remédios em uso, e precisa ser definido pela equipe que acompanha o caso.

O braço duro do AVC cede devagar

Nas semanas seguintes ao AVC, cerca de 1 em cada 4 pessoas vê o braço ou a perna do lado afetado endurecer. Esse endurecimento se chama espasticidade: não some, mas se controla com toxina aplicada cedo pelo médico, eletroestimulação, treino de força e alongamento lento todos os dias, e piora com qualquer incômodo do corpo.

Alongar

Com o antebraço da pessoa apoiado na mesa, segure a mão aberta por baixo e leve o punho para cima bem devagar, com os dedos esticados. Quando sentir o músculo segurar, pare e espere a tensão ceder antes de avançar um pouco mais. Faça todos os dias, sem tranco e sem dor: movimento rápido faz o músculo travar.

Posicionar

Na poltrona, apoie o braço afetado sobre um travesseiro na mesa à frente, com a mão aberta, nunca pendurado para fora. Para ajudar a pessoa a levantar, segure pela cintura e jamais puxe pelo braço afetado: esse é o caminho mais curto para a dor no ombro.

Investigar

Se o braço ou a perna endurecer mais de um dia para o outro, confira antes de mexer em qualquer remédio: ardência para urinar, dias sem evacuar, ferida na pele, unha encravada, sapato ou tala apertando. Resolver o incômodo costuma devolver a tensão ao que era; sem causa à vista, avise o médico.

Perguntas frequentes

O que é espasticidade após AVC?
Trata-se do aumento involuntário da tensão dos músculos do lado afetado pelo derrame. A lesão no cérebro tira o freio que ele exerce sobre os reflexos da medula, e o músculo passa a contrair demais a cada estiramento. Ela costuma aparecer nas primeiras semanas depois do AVC e atinge cerca de 1 em cada 4 pessoas que tiveram o derrame.
É normal ter espasmos depois do AVC?
Espasmos e tremor rítmico do pé ao apoiá-lo são comuns em quem desenvolve espasticidade, e fazem parte do mesmo quadro. O que não é normal é a piora rápida sem motivo: espasmo que aumenta de um dia para o outro costuma ter um gatilho, como infecção urinária, intestino preso, ferida na pele ou dor, e esse gatilho precisa ser procurado.
A espasticidade tem cura?
No sentido de desaparecer, não, porque a lesão no cérebro que a provoca continua lá. Mas ela tem controle. Com tratamento, dá para chegar a um ponto em que a pessoa consegue abrir a mão para a higiene, vestir sem dor, apoiar o pé inteiro no chão e dormir sem espasmos. Em parte dos casos, a tensão também diminui com o tempo, conforme o movimento voluntário volta.
Quais são os sinais de espasticidade?
No braço, o ombro puxa para junto do corpo, o cotovelo dobra, o punho vira para baixo e a mão fecha com o polegar preso dentro dos dedos. Na perna, o joelho fica duro e esticado, o pé aponta para baixo e para dentro, e os dedos se curvam em garra. A marca da espasticidade é depender da velocidade: movido devagar, o membro cede; movido rápido, ele trava.
O que piora a espasticidade?
Qualquer coisa que incomode o corpo: infecção urinária, bexiga cheia, intestino preso, escara, unha encravada, sapato ou tala apertando, dor no ombro, frio, febre, ansiedade e noites mal dormidas. Posição ruim também piora, como o braço pendurado para fora da cadeira. Quando a rigidez aumenta de repente, a primeira providência é procurar esse gatilho, antes de aumentar remédio.
Qual o melhor tratamento para espasticidade?
Não existe um tratamento único. As medidas da fisioterapia com melhor sustentação são as ativas: eletroestimulação, treino de força e pedalar. A toxina botulínica aplicada nos músculos que mais travam reduz a tensão de forma localizada, com melhor resultado quando aplicada cedo, nos três primeiros meses. Alongamento lento diário, tala moldada e retirada dos gatilhos completam o plano.
Qual relaxante muscular é indicado após um AVC?
A escolha é do médico. Baclofeno e tizanidina são os mais usados por boca e agem no corpo inteiro, com risco de sonolência, tontura e sensação de fraqueza. Quando a espasticidade se concentra em poucos músculos, a toxina botulínica local costuma fazer mais sentido. Depois dos 65, calmantes da família do diazepam raramente são boa escolha para esse fim, porque aumentam o risco de queda e de confusão.
A toxina botulínica devolve o movimento do braço?
Sozinha, não. Ela relaxa o músculo que trava, mas não ensina o braço a se mexer. O ganho de movimento depende do treino feito nas semanas seguintes à aplicação, quando o músculo está mais solto, e esse ganho aparece com mais frequência na perna do que no braço.
Fortalecer o músculo piora a espasticidade?
Não. Esse receio orientou a reabilitação por décadas e não se confirmou. O treino de força devolve mais força e mais função ao braço e à perna do que as outras terapias, sem aumentar a espasticidade além do que elas aumentam. Músculo espástico também é músculo fraco.
O que muda na espasticidade do idoso depois do AVC?
Depois dos 70, a pele fina machuca com tala mal ajustada, o osso com osteoporose não tolera alongamento forçado, o ombro do lado afetado dói com facilidade e o relaxante muscular por boca soma sonolência aos outros remédios e aumenta o risco de queda. Por isso o cuidado com posição, transferência e pele pesa tanto quanto o tratamento da tensão.

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