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Operou o quadril e não anda: fisioterapia após fratura de fêmur

Depois da cirurgia de fêmur, o idoso costuma ficar de pé já nos primeiros dias, e a carga que o cirurgião libera, por escrito, define o que se faz em casa. Veja como a fisioterapia treina levantar, sentar, ir ao banheiro e andar com o andador dentro do domicílio.

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Homem idoso levantando da cadeira apoiado nos braços, com o fisioterapeuta orientando

Atualizado em 15 de setembro de 2026. Revisado por Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F, formado na UFMG com residência multiprofissional em saúde do idoso pelo Hospital das Clínicas da UFMG. Como este texto foi feito.

Da artrose à cirurgia: por que o quadril falha

A cena costuma ser esta: a cirurgia deu certo, o hospital deu alta em poucos dias e a família chegou em casa com uma pessoa que não senta sozinha, não vai ao banheiro sem ajuda e tem medo de apoiar a perna operada. O quadril chega à mesa cirúrgica por dois caminhos, a fratura de fêmur proximal depois de uma queda sobre osso enfraquecido, que é emergência, e a artrose avançada que leva à prótese programada. A reabilitação pós-operatória domiciliar muda conforme o caminho e conforme o tipo de via cirúrgica.

Ilustração simplificada da articulação do quadril, com destaque para o colo do fêmur
O colo do fêmur é a região que mais cede na queda do idoso.

Entender qual dos dois cenários originou a cirurgia é essencial, porque cada um exige uma reabilitação diferente. Em ambos, porém, o que está em jogo é o mesmo: a independência do idoso e a sua capacidade de voltar a caminhar com segurança.

O tempo é o fator crítico. A mobilização precoce e segura, iniciada nos primeiros dias após a cirurgia, está diretamente associada a melhores resultados funcionais e a menor risco de complicações do acamamento: trombose, pneumonia, lesões por pressão e novas perdas musculares 2.

Cerca de 50% dos idosos não recuperam a mobilidade prévia sem um programa de reabilitação estruturado 1. A janela é curta: as primeiras semanas concentram o maior potencial de ganho funcional pós-operatório 3.

até 30%de mortalidade no primeiro ano após uma fratura de quadril
50%não recuperam a mobilidade prévia sem reabilitação estruturada
24 a 48hcirurgia precoce está ligada a melhor prognóstico funcional

O pré-operatório, a pré-habilitação

Quando a cirurgia é programada, como na artrose, o trabalho não deve começar só depois da alta. A pré-habilitação prepara o idoso para chegar mais forte ao centro cirúrgico, e isso encurta a recuperação. Mesmo na fratura, em que a cirurgia é de urgência, o conceito se aplica ao período de espera hospitalar. Inclui o fortalecimento prévio de glúteos, quadríceps e core que serão exigidos no treino de marcha; a educação do paciente e do cuidador (ensaiando transferências, uso do andador e os cuidados pós-operatórios); o preparo respiratório e cardiovascular para reduzir o risco de complicações pulmonares pós-anestesia; e a adaptação antecipada da casa (cama na altura certa, retirada de tapetes, barras de apoio e assento elevado já instalados antes da volta para casa).

Ilustração de idoso sentado estendendo a perna em exercício de preparo
Chegar mais forte à cirurgia encurta a recuperação depois dela.

Os tipos de cirurgia do quadril

A conduta fisioterapêutica muda conforme a técnica utilizada pelo ortopedista. Os três cenários mais comuns no idoso são:

Fratura · preserva a articulação

Osteossíntese, a fixação

Placas, parafusos ou haste intramedular (ex.: DHS) fixam o osso fraturado sem trocar a articulação. Indicada em fraturas transtrocantéricas e em colo de fêmur de pacientes mais jovens ou com bom estoque ósseo.

Fisioterapia: carga progressiva conforme liberação médica (por vezes parcial nas primeiras semanas), foco em consolidação óssea, marcha com andador e fortalecimento. Não há risco de luxação protética.

Fratura · troca parcial

Endoprótese, a hemiartroplastia

Substitui apenas a cabeça do fêmur, a prótese parcial, como a bipolar, mantendo o acetábulo natural. Costuma ser a escolha para fraturas do colo do fêmur no idoso, pois permite carga total imediata.

Fisioterapia: geralmente carga total precoce e marcha já nos primeiros dias. Como há um componente protético no quadril, valem as precauções contra luxação descritas abaixo.

Artrose · troca total

Artroplastia total (ATQ)

Substitui a cabeça do fêmur e o acetábulo por componentes protéticos. Trata-se da cirurgia padrão para a artrose avançada e para algumas fraturas. Devolve uma articulação indolor, mas com regras de movimento.

Fisioterapia: reabilitação do movimento e da força com respeito rigoroso às precauções de luxação, especialmente nas primeiras 6 a 12 semanas, quando a cápsula ainda cicatriza.

Risco de luxação na artroplastia de quadril

Esta é a principal diferença em relação a outras cirurgias. Quando o quadril recebe uma prótese (parcial ou total), a articulação fica temporariamente mais instável até que a cápsula e os músculos cicatrizem. Certos movimentos podem fazer a cabeça da prótese ”pular” para fora do encaixe (a temida luxação), que é uma emergência e muitas vezes exige nova manipulação ou cirurgia.

O conjunto de movimentos perigosos depende da via de acesso cirúrgica. Na via posterior (a mais comum), o trio de risco é flexão excessiva, adução e rotação interna. O ortopedista sempre informa qual via foi usada, e a fisioterapia se adapta a ela.

Movimentos a evitar após prótese de quadril (via posterior)

Não flexionar o quadril além de 90° (nada de sentar em sofás ou vasos baixos, agachar ou trazer o joelho ao peito). Não cruzar a perna operada sobre a outra nem levá-la para o meio do corpo (evitar adução e cruzar a linha média). Não rodar o pé e o joelho para dentro, a chamada rotação interna, principalmente ao girar o corpo em pé. Não se inclinar para frente sentado para pegar objetos no chão ou calçar sapatos sem ajuda. Não dormir sem o coxim ou travesseiro entre as pernas nas primeiras semanas, pois isso mantém o quadril em abdução segura.

Como reabilitamos com segurança. Adaptamos a casa para respeitar a regra dos 90°: assento de vaso elevado, cadeira firme com braços, calçadeira de cabo longo e cama na altura certa. Treino transferências, vestir e caminhar dentro da margem segura, ganhando força sem expor a prótese ao risco de luxação 2.

Como a fisioterapia ReabilitaCare atua

O treino de marcha progressivo vai da transferência leito-cadeira até caminhar com andador, bengala e, quando possível, sem auxílio. O fortalecimento com carga controlada reconstrói a força de glúteo, quadríceps e quadril respeitando o tipo de cirurgia (osteossíntese, endoprótese ou ATQ). A proteção da prótese envolve educação contínua sobre os movimentos contraindicados e adaptação do ambiente para evitar a luxação. O treino de equilíbrio e prevenção de nova queda visa evitar uma segunda fratura, que costuma ser ainda mais grave. A orientação ao cuidador garante transferências seguras, posicionamento no leito e organização do quarto dentro da própria casa.

Ilustração de idoso apoiado em andador ao lado da cama
A recuperação avança da cama para a cadeira, da cadeira para o andador.

O treino acontece onde ele vai ser usado. A marcha é treinada entre os tapetes, os degraus e os móveis da casa do idoso, então o ganho já nasce aplicado, e ninguém precisa transferir depois para a rotina o que foi treinado em outro lugar.

Depois da fratura de quadril, o corpo recupera, apoio após apoio

Começar cedo, com dor controlada, é o que devolve a marcha e evita complicações. Cada fase tem seu objetivo (e seu tempo).

Fase 1

Levantar

Sair do leito e ficar de pé com segurança nos primeiros dias.

Fase 2

Caminhar

Treino de marcha com andador, descarregando peso de forma progressiva.

Fase 3

Fortalecer

Força e equilíbrio para voltar à rotina sem medo de cair de novo.

Quanto tempo para voltar a andar depois da fratura

É a pergunta que a família faz ainda no corredor do hospital, e a resposta honesta não é um número único. O que existe são marcos, e eles ajudam mais do que um prazo médio que não vale para ninguém em particular.

O primeiro marco costuma surpreender: ficar de pé acontece nos primeiros dias depois da cirurgia, muitas vezes já no dia seguinte, e não quando o osso estiver consolidado. O material colocado na cirurgia existe justamente para permitir isso, e esperar a consolidação para sair da cama é o caminho mais curto para não voltar a andar nunca. Nas semanas seguintes vem o andador dentro de casa, depois o andador na rua ou a bengala, e por fim o percurso maior sem apoio, quando ele for possível.

O que faz esse relógio andar mais rápido ou mais devagar é conhecido, e quase tudo é visível já na alta:

Uma parte grande dos idosos volta a andar; outra parte não recupera o padrão que tinha antes, e passa a andar com um apoio que não usava. Vale dizer isso abertamente, porque a meta realista é o que orienta o trabalho: às vezes ela é voltar à caminhada da padaria, às vezes é atravessar a casa com segurança e sem depender de alguém. As duas são vitórias, e nenhuma delas acontece sozinha.

Ele vai ficar acamado para sempre?

Esta pergunta aparece na primeira noite, quase sempre por mensagem, quase sempre de madrugada. A resposta curta é não, ficar acamado não é o desfecho esperado de uma fratura de quadril operada. Só que ela tem uma segunda metade que importa mais: esse desfecho não é automático, ele é construído nas primeiras semanas, e é justamente nelas que a família costuma achar que deve deixar o idoso descansar.

O que leva alguém a ficar acamado depois de uma fratura raramente é o osso. É a sequência que começa quando ninguém tira a pessoa da cama: a perna boa enfraquece junto, o equilíbrio se perde, aparece o medo, e o medo justifica ficar deitado mais um dia. Três semanas assim e a dificuldade deixa de ser cirúrgica e passa a ser de condicionamento, e essa é muito mais difícil de reverter do que a fratura.

Por isso a orientação, que parece dura e é protetora, é a mesma desde o primeiro dia: sair da cama todo dia, comer sentado fora do leito, andar o que estiver liberado, e tratar a dor para poder se mexer, em vez de se mexer menos por causa da dor.

O medo de cair de novo

Depois de uma queda que quebrou o fêmur, o medo de cair outra vez é esperado e é, em alguma medida, útil: ele deixa a pessoa mais atenta. O problema é quando ele passa do ponto e começa a decidir o dia, e isso acontece com frequência.

O sinal de que passou do ponto é a recusa: ele não quer levantar, não quer andar sem alguém segurando, não sai do quarto, encurta a vida para caber no que parece seguro. A consequência é cruel, porque quem anda menos perde força e equilíbrio, e perder força e equilíbrio aumenta o risco real de cair. O medo acaba produzindo aquilo que ele queria evitar.

O que desfaz esse ciclo não é convencer pela conversa, é experiência de sucesso repetida: tarefas um pouco difíceis, feitas com segurança e sem susto, várias vezes, até o corpo recuperar a confiança que a cabeça perdeu. Também ajuda tornar visível o que melhorou, porque quem tem medo não percebe o próprio ganho. O trabalho sobre o risco em si está na avaliação do risco de queda e nos exercícios de equilíbrio.

As primeiras semanas em casa: o que perguntar e o que cuidar

Duas informações do resumo de alta valem mais do que qualquer exercício, e a família precisa sair do hospital com elas por escrito: quanto peso a perna operada pode receber, e quais movimentos estão proibidos por causa da via cirúrgica. Muita prótese de quadril traz restrição de cruzar as pernas, de girar o corpo com o pé fixo no chão e de sentar em assento baixo, que leva o quadril a dobrar além do permitido. Ninguém deve afrouxar essas restrições porque o idoso está andando bem, e é comum que a melhora rápida crie exatamente essa tentação.

A casa precisa de alguns ajustes antes da chegada. Elevação no vaso sanitário e cadeira com braços resolvem o problema do assento baixo. O caminho até o banheiro precisa de largura para o andador manobrar, o que quase sempre significa tirar tapete e afastar móvel. Levantar da cama devagar, sentando na beira e esperando alguns segundos antes de ficar em pé, evita a tontura que derruba justamente quem acabou de operar.

Alguns sinais exigem retorno imediato ao cirurgião: dor que aumenta em vez de diminuir, febre, secreção na ferida, a perna que parece mais curta ou virada para fora de repente, e panturrilha inchada e dolorosa de um lado só. Como a fratura de quadril quase sempre veio de uma queda, o passo seguinte é reduzir a chance da próxima, e o levantamento de risco de queda mostra por onde começar.

Perguntas frequentes

Quanto tempo para o idoso voltar a andar depois da cirurgia de fêmur?
Ficar de pé costuma acontecer nos primeiros dias, muitas vezes no dia seguinte à cirurgia, e não quando o osso consolidar. Depois vem o andador dentro de casa, o andador na rua ou a bengala, e por fim o percurso maior. O prazo total varia conforme a pessoa andava antes, a liberação de carga, quantos dias ficou na cama e quem supervisiona em casa.
Ele pode pisar na perna operada?
Quem responde é o cirurgião, e a resposta precisa sair do hospital por escrito. Pode ser carga total, carga parcial ou nenhuma carga, com prazo para mudar. Essa única frase define tudo o que se faz nas primeiras semanas, e trabalhar sem ela obriga a ficar no que é seguro em qualquer cenário, que é sempre menos do que seria possível.
Quando começa a fisioterapia depois da cirurgia de quadril?
Na prática, ainda no hospital: sair do leito nas primeiras quarenta e oito horas já é reabilitação. Em casa, o ideal é a primeira visita nos primeiros dias após a alta, quando as dúvidas são maiores e os erros de transferência acontecem. Esperar o retorno com o cirurgião para só então começar custa semanas que não se recuperam.
Ele pode dormir de lado?
Depende da via cirúrgica, e a orientação vem do cirurgião. Quando é permitido, costuma ser com um travesseiro firme entre as pernas, para que a de cima não cruze a linha do corpo. Em boa parte das próteses valem restrições de cruzar as pernas, girar com o pé fixo no chão e sentar em assento baixo, e elas seguem valendo mesmo quando ele já está andando bem.
Precisa de cama hospitalar em casa?
Na maioria dos casos não. O que importa é a altura: sentado na beira da cama, os pés precisam alcançar o chão. Cama hospitalar faz sentido quando há muito tempo no leito, curativo que exija manuseio ou necessidade de elevar a cabeceira, e nesses casos vale alugar antes de comprar. Mais decisivos que a cama são o assento elevado do vaso e uma poltrona firme com braço dos dois lados.
Quantas sessões por semana?
As primeiras semanas costumam pedir frequência alta, porque é quando cada dia parado cobra caro e a família ainda precisa de supervisão nas transferências. Conforme a autonomia volta, a frequência diminui e o que ele faz sozinho nos outros dias passa a pesar mais do que o número de visitas.
Ele não quer levantar. O que fazer?
Primeiro separar as causas, porque a conduta muda: dor mal controlada, tontura ao levantar, confusão mental e medo de cair de novo pedem coisas diferentes, e as três primeiras são assunto médico. Quando é medo, o que funciona não é convencer pela conversa, é repetir tarefas pequenas com segurança até a confiança voltar. O que não ajuda é deixar para amanhã: cada dia na cama torna o dia seguinte mais difícil.

Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação individual do idoso, presencial, nem a conduta do médico que o acompanha.

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