Operou o quadril e não anda: fisioterapia após fratura de fêmur
Alta hospitalar marcada e ninguém explicou como levantar, sentar e ir ao banheiro em casa. O trabalho é de carga, transferências e treino de marcha dentro do domicílio.
Atualizado em 12 de agosto de 2026. Escrito por Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F, formado na UFMG com residência multiprofissional em saúde do idoso pelo Hospital das Clínicas da UFMG. Ver formação e como trabalho.
Da artrose à cirurgia: por que o quadril falha
A cena costuma ser esta: a cirurgia deu certo, o hospital deu alta em poucos dias e a família chegou em casa com uma pessoa que não senta sozinha, não vai ao banheiro sem ajuda e tem medo de apoiar a perna operada. O quadril chega à mesa cirúrgica por dois caminhos, a fratura de fêmur proximal depois de uma queda sobre osso enfraquecido, que é emergência, e a artrose avançada que leva à prótese programada. A reabilitação muda conforme o caminho e conforme o tipo de via cirúrgica.
Entender qual dos dois cenários originou a cirurgia é essencial, porque cada um exige uma reabilitação diferente. Em ambos, porém, o que está em jogo é o mesmo: a independência do idoso e a sua capacidade de voltar a caminhar com segurança.
O tempo é o fator crítico. A mobilização precoce e segura, iniciada nos primeiros dias após a cirurgia, está diretamente associada a melhores resultados funcionais e a menor risco de complicações do acamamento: trombose, pneumonia, lesões por pressão e novas perdas musculares 2.
Cerca de 50% dos idosos não recuperam a mobilidade prévia sem um programa de reabilitação estruturado 1. A janela é curta: as primeiras semanas concentram o maior potencial de ganho funcional pós-operatório 3.
O pré-operatório, a pré-habilitação
Quando a cirurgia é programada, como na artrose, o trabalho não deve começar só depois da alta. A pré-habilitação prepara o idoso para chegar mais forte ao centro cirúrgico, e isso encurta a recuperação. Mesmo na fratura, em que a cirurgia é de urgência, o conceito se aplica ao período de espera hospitalar. Inclui o fortalecimento prévio de glúteos, quadríceps e core que serão exigidos no treino de marcha; a educação do paciente e do cuidador (ensaiando transferências, uso do andador e os cuidados pós-operatórios); o preparo respiratório e cardiovascular para reduzir o risco de complicações pulmonares pós-anestesia; e a adaptação antecipada da casa (cama na altura certa, retirada de tapetes, barras de apoio e assento elevado já instalados antes da volta para casa).
Os tipos de cirurgia do quadril
A conduta fisioterapêutica muda conforme a técnica utilizada pelo ortopedista. Os três cenários mais comuns no idoso são:
Osteossíntese, a fixação
Placas, parafusos ou haste intramedular (ex.: DHS) fixam o osso fraturado sem trocar a articulação. Indicada em fraturas transtrocantéricas e em colo de fêmur de pacientes mais jovens ou com bom estoque ósseo.
Fisioterapia: carga progressiva conforme liberação médica (por vezes parcial nas primeiras semanas), foco em consolidação óssea, marcha com andador e fortalecimento. Não há risco de luxação protética.
Endoprótese, a hemiartroplastia
Substitui apenas a cabeça do fêmur, a prótese parcial, como a bipolar, mantendo o acetábulo natural. Costuma ser a escolha para fraturas do colo do fêmur no idoso, pois permite carga total imediata.
Fisioterapia: geralmente carga total precoce e marcha já nos primeiros dias. Como há um componente protético no quadril, valem as precauções contra luxação descritas abaixo.
Artroplastia total (ATQ)
Substitui a cabeça do fêmur e o acetábulo por componentes protéticos. Trata-se da cirurgia padrão para a artrose avançada e para algumas fraturas. Devolve uma articulação indolor, mas com regras de movimento.
Fisioterapia: reabilitação do movimento e da força com respeito rigoroso às precauções de luxação, especialmente nas primeiras 6 a 12 semanas, quando a cápsula ainda cicatriza.
Risco de luxação na artroplastia de quadril
Esta é a principal diferença em relação a outras cirurgias. Quando o quadril recebe uma prótese (parcial ou total), a articulação fica temporariamente mais instável até que a cápsula e os músculos cicatrizem. Certos movimentos podem fazer a cabeça da prótese ”pular” para fora do encaixe (a temida luxação), que é uma emergência e muitas vezes exige nova manipulação ou cirurgia.
O conjunto de movimentos perigosos depende da via de acesso cirúrgica. Na via posterior (a mais comum), o trio de risco é flexão excessiva, adução e rotação interna. O ortopedista sempre informa qual via foi usada, e a fisioterapia se adapta a ela.
Movimentos a evitar após prótese de quadril (via posterior)
Não flexionar o quadril além de 90° (nada de sentar em sofás ou vasos baixos, agachar ou trazer o joelho ao peito). Não cruzar a perna operada sobre a outra nem levá-la para o meio do corpo (evitar adução e cruzar a linha média). Não rodar o pé e o joelho para dentro, a chamada rotação interna, principalmente ao girar o corpo em pé. Não se inclinar para frente sentado para pegar objetos no chão ou calçar sapatos sem ajuda. Não dormir sem o coxim ou travesseiro entre as pernas nas primeiras semanas, pois isso mantém o quadril em abdução segura.
Como reabilitamos com segurança. Adaptamos a casa para respeitar a regra dos 90°: assento de vaso elevado, cadeira firme com braços, calçadeira de cabo longo e cama na altura certa. Treino transferências, vestir e caminhar dentro da margem segura, ganhando força sem expor a prótese ao risco de luxação 2.
Como a fisioterapia ReabilitaCare atua
O treino de marcha progressivo vai da transferência leito-cadeira até caminhar com andador, bengala e, quando possível, sem auxílio. O fortalecimento com carga controlada reconstrói a força de glúteo, quadríceps e quadril respeitando o tipo de cirurgia (osteossíntese, endoprótese ou ATQ). A proteção da prótese envolve educação contínua sobre os movimentos contraindicados e adaptação do ambiente para evitar a luxação. O treino de equilíbrio e prevenção de nova queda visa evitar uma segunda fratura, que costuma ser ainda mais grave. A orientação ao cuidador garante transferências seguras, posicionamento no leito e organização do quarto dentro da própria casa.
O treino acontece onde ele vai ser usado. A marcha é treinada entre os tapetes, os degraus e os móveis da casa do idoso, então o ganho já nasce aplicado, e ninguém precisa transferir depois para a rotina o que foi treinado em outro lugar.
Depois da fratura de quadril, o corpo recupera, apoio após apoio
Começar cedo, com dor controlada, é o que devolve a marcha e evita complicações. Cada fase tem seu objetivo (e seu tempo).
Levantar
Sair do leito e ficar de pé com segurança nos primeiros dias.
Caminhar
Treino de marcha com andador, descarregando peso de forma progressiva.
Fortalecer
Força e equilíbrio para voltar à rotina sem medo de cair de novo.
As primeiras semanas em casa: o que perguntar e o que cuidar
Duas informações do resumo de alta valem mais do que qualquer exercício, e a família precisa sair do hospital com elas por escrito: quanto peso a perna operada pode receber, e quais movimentos estão proibidos por causa da via cirúrgica. Muita prótese de quadril traz restrição de cruzar as pernas, de girar o corpo com o pé fixo no chão e de sentar em assento baixo, que leva o quadril a dobrar além do permitido. Ninguém deve afrouxar essas restrições porque o idoso está andando bem, e é comum que a melhora rápida crie exatamente essa tentação.
A casa precisa de alguns ajustes antes da chegada. Elevação no vaso sanitário e cadeira com braços resolvem o problema do assento baixo. O caminho até o banheiro precisa de largura para o andador manobrar, o que quase sempre significa tirar tapete e afastar móvel. Levantar da cama devagar, sentando na beira e esperando alguns segundos antes de ficar em pé, evita a tontura que derruba justamente quem acabou de operar.
Alguns sinais exigem retorno imediato ao cirurgião: dor que aumenta em vez de diminuir, febre, secreção na ferida, a perna que parece mais curta ou virada para fora de repente, e panturrilha inchada e dolorosa de um lado só. Como a fratura de quadril quase sempre veio de uma queda, o passo seguinte é reduzir a chance da próxima, e o levantamento de risco de queda mostra por onde começar.
Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação individual do idoso, presencial, nem a conduta do médico que o acompanha.