Ilustração de senhora de lenço na cabeça caminhando devagar numa ladeira de bairro no começo da manhã, ao lado do filho adulto que carrega uma garrafa de água, com muro de tijolo e samambaias ao fundo
Saúde e envelhecimento

Cansaço na quimioterapia: por que o repouso não resolve

Esse é o efeito colateral mais comum do tratamento, e o único cujo melhor remédio não vem em comprimido. Dormir mais não alivia. Mexer o corpo um pouco, sim.

Atualizado em 20 de setembro de 2026. Conteúdo de Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F.

O que é o cansaço da quimioterapia

Resposta curta

O cansaço da quimioterapia é uma exaustão desproporcional ao esforço feito, que chega sem motivo e não melhora com uma noite de sono nem com um dia inteiro deitado. Ele atinge o corpo e a cabeça ao mesmo tempo, e é um dos efeitos adversos mais frequentes e mais duradouros do tratamento oncológico. O que mais reduz esse cansaço não é o repouso e não é remédio: é atividade física leve a moderada, feita de forma regular durante o próprio tratamento.

Quem nunca passou por isso costuma imaginar um cansaço maior, e o erro está na palavra maior. O cansaço da quimioterapia não é uma versão aumentada do cansaço de um dia puxado, é outra coisa. O primeiro traço é esse: o cansaço não tem relação com o que se fez antes. Aparece ao acordar, depois de nove horas de sono, e se instala antes de qualquer esforço. A pessoa levanta, escova os dentes e precisa sentar.

O segundo traço é que ele não fica só no corpo. A cabeça entra junto: a frase some no meio, o nome da vizinha não vem, o filme precisa voltar dez minutos. Muita gente descreve isso como estar dentro de uma neblina, e o termo é tão comum entre pacientes que acabou virando nome informal do sintoma.

O terceiro traço é o que define o manejo. Esse cansaço ignora o descanso. Quem responde a ele deitando mais tempo vê a mesma exaustão no dia seguinte, agora com um corpo mais fraco para enfrentá-la, e esse ciclo transforma um efeito colateral em perda de autonomia.

Poucos sabem o quanto isso é comum. Entre quem tem câncer, cerca de 43 em cada 100 convivem com fadiga de intensidade moderada ou grave, e a conta chega a 71 em cada 100 quando se somam os casos leves16. Durante o tratamento, a forma grave aparece em cerca de 34 em cada 100, e a quimioterapia produz uma vez e meia mais fadiga grave do que a cirurgia ou a radioterapia. Nos serviços de oncologia o quadro tem nome próprio: fadiga relacionada ao câncer.

Há um segundo dado que explica por que tanta gente atravessa o tratamento sem nunca ouvir falar do assunto. Quando quem responde é o próprio paciente, cerca de 24 em cada 100 relatam fadiga grave; quando quem classifica é o médico, a conta cai para 2 em cada 10016. A diferença é de vinte vezes, e ela não vem de descuido: vem de o sintoma não aparecer em exame nenhum. Ele só existe na consulta se alguém disser que existe. Por isso o assunto precisa ser levado de propósito, e não solto na porta, com o médico já de pé.

90 em cada 100estão vivas oito anos depois da quimioterapia do câncer de intestino entre quem faz exercício estruturado, contra 83 entre quem não faz
13 em cada 100deixam de ter efeito colateral grave da quimioterapia quando a avaliação geriátrica é feita antes de começar
2 dias e meioa menos de hospital depois da cirurgia de intestino, quando o preparo físico começa antes da operação

Por que dormir mais não tira esse cansaço

A resposta instintiva ao cansaço é economizar. Cancela-se a caminhada, passa-se a tarde na cama, a família assume as tarefas da casa para poupar quem está em tratamento. A intenção é boa e o resultado é ruim, porque o corpo lê a economia como ordem de desligar.

Duas semanas de cama custam uma fatia grande de força nas pernas, e essa perda não é gradual nessa situação: ela se concentra nos músculos que tiram o corpo da cadeira e sobem a escada. Some a isso o efeito do próprio tratamento sobre o músculo e sobre o apetite, e o que era fadiga vira perda de força de verdade. A partir daí cada tarefa exige uma fatia maior do que sobrou, e a sensação de exaustão aumenta mesmo que o tratamento esteja indo bem.

Esse é o ponto em que o cansaço deixa de ser sintoma e passa a ser causa. Quem anda menos come menos, quem come menos perde músculo, quem perde músculo anda menos ainda. A síndrome do imobilismo é o nome desse desfecho quando a espiral se fecha, e no tratamento oncológico ela pode se instalar em poucas semanas, sem que ninguém tenha errado nada.

Heroísmo não resolve. O que quebra o ciclo é o movimento diário em dose pequena, que é também o ponto mais barato de todos. Corpo que continua em uso, mesmo pouco, não entra nessa espiral.

Ilustração de senhor sentado na beira da cama arrumada no meio da tarde, de pijama, com os pés no chão e a luz da janela atrás dele
Cansaço que aparece com a cama arrumada e o dia inteiro pela frente não é cansaço de esforço, e não responde a mais repouso.

O que mais causa esse cansaço além da quimioterapia

Nem todo cansaço dessa fase vem do tratamento. Algumas causas têm tratamento à parte e passam despercebidas porque produzem o mesmo sintoma. Anemia, tireoide funcionando devagar, desidratação, sódio, potássio ou magnésio fora da faixa e perda de peso por falta de ingestão produzem o mesmo cansaço, e ele cede quando cada uma delas é tratada. Um exame de sangue simples separa quase tudo isso, e é por ele que a conversa começa.

Três acompanhantes do cansaço precisam ser nomeados, porque cada um deles piora o quadro sozinho. A insônia quase triplica a chance de fadiga. A dor mal controlada faz quase o mesmo. O humor deprimido mais do que dobra17. Nenhum dos três melhora sozinho, e tratar qualquer um deles devolve uma parte da energia antes de qualquer exercício entrar em cena.

A receita entra na mesma conta. Analgésico opioide, anti-histamínico, remédio para dormir, alguns anti-hipertensivos e antieméticos somam sonolência, e um idoso em tratamento oncológico costuma usar mais de um ao mesmo tempo. A revisão dessa lista é tema da página de polifarmácia no idoso, e é uma das poucas medidas que aliviam o cansaço na mesma semana.

A fadiga também não é igual para todo mundo. Ela pesa mais sobre quem já chega com a capacidade física reduzida, sobre quem faz quimioterapia e radioterapia ao mesmo tempo e sobre as mulheres17. Saber disso antecipa a conversa, em vez de deixá-la para quando a pessoa já não sai da cama.

O que funciona contra a fadiga do câncer

Entre tudo o que já se testou contra o cansaço do tratamento, duas frentes se sustentam e uma decepciona. Exercício e acompanhamento psicológico reduzem a fadiga durante e depois do tratamento. Os medicamentos prescritos com esse objetivo não produzem diferença relevante1. A orientação que sai daí é direta: a primeira prescrição contra o cansaço do câncer não é uma receita.

A orientação internacional em vigor organiza o resto por momento. Durante o tratamento, funcionam exercício, terapia cognitivo-comportamental, programas de atenção plena, tai chi, qigong e o ginseng americano. Depois do tratamento, entram também a ioga, a acupressão e a moxabustão, essas duas últimas vindas da medicina tradicional chinesa. Os demais suplementos alimentares não reduzem a fadiga, nem durante nem depois2. Isso merece atenção de quem cuida: é na farmácia que mais se promete alívio nessa fase, e é para lá que o dinheiro da família costuma ir.

O corticoide merece parágrafo à parte, porque é o que mais se receita no Brasil com essa finalidade. Ele tem lugar demonstrado num cenário específico, o cuidado de fim de vida, e fora dele não é a resposta ao cansaço do tratamento2. Usado por conta própria ou por tempo indeterminado, cobra caro: sobe o açúcar no sangue, acelera a perda de massa muscular e piora o sono, e os três já estão em jogo nessa fase.

Dois quadros se confundem no dia a dia e precisam ficar separados. Tratar a fadiga não é tratar a depressão, embora as duas andem juntas com frequência e uma alimente a outra. Quando o desânimo vem com perda de prazer por tudo, choro fácil, culpa ou falas sobre não valer a pena continuar, a conversa é outra e tem urgência própria.

Qual exercício alivia mais a fadiga do câncer

Nem toda atividade rende igual, e a diferença entre a melhor e a pior é grande o bastante para orientar a escolha. Entre as modalidades, a combinação de exercício aeróbico com treino de força fica em primeiro lugar, com folga, tanto durante quanto depois do tratamento. Ioga vem em segundo, atividade física regular em terceiro. Depois que o tratamento termina, a combinação de aeróbico com força é a única que mantém efeito sobre a fadiga3.

Aeróbico, aqui, é caminhada, bicicleta estacionária ou esteira em ritmo confortável. Força é levantar peso, e peso inclui o peso do próprio corpo: levantar da cadeira sem usar as mãos, subir um degrau e descer, empurrar a parede, segurar uma garrafa de água em cada mão. Não é preciso academia e não é preciso equipamento.

O que surpreende é o que não funciona. Alongamento isolado, que é justamente o que mais se oferece a quem está fraco, não muda a fadiga. Acrescentar caminhada e força ao que já se faz aponta para melhora do sintoma; acrescentar apenas alongamento, não4. Alongar continua sendo útil para conforto e amplitude, mas não é tratamento de fadiga.

O alvo de intensidade é o moderado, e vale saber disso de antemão: no esforço leve o efeito sobre a fadiga é fraco, e é no moderado que ele aparece inteiro5. Nada disso autoriza puxar forte na primeira semana, porque quem exagera no começo abandona na segunda. Moderado, em termos práticos, é o esforço em que ainda se consegue falar frases inteiras sem precisar respirar no meio, e o caminho até ali começa no leve.

Quanto exercício por semana, e em que dias

A recomendação para quem tem câncer parte de uma frase curta: evitar ficar parado. A partir dela, a dose com melhor resultado sobre fadiga, função física, humor e qualidade de vida é de três sessões de meia hora de atividade moderada por semana, somadas a dois dias de exercícios de força para os grandes grupos musculares, em duas séries de doze a quinze repetições5. O prazo é de doze semanas: a diferença aparece nessa escala, não em quinze dias.

Meia hora contínua, porém, é uma meta, não um ponto de partida. Quem está no meio de um ciclo difícil começa por cinco minutos, três ou quatro vezes ao dia, e soma. Três caminhadas de dez minutos rendem o mesmo que uma de trinta, e cabem num dia ruim, o que a caminhada longa não faz.

O calendário do tratamento pede um ajuste que ninguém costuma explicar. Nos ciclos de quimioterapia, a energia tem um desenho previsível: cai nos dias seguintes à infusão, chega ao fundo em dois ou três dias e volta a subir na semana anterior ao ciclo seguinte. Em vez de brigar com essa curva, o melhor é encaixar o plano nela. Nos dias de fundo, o objetivo é não zerar: levantar da cama, sentar na poltrona, andar dentro de casa, fazer os exercícios de tornozelo sentado. Nos dias bons, aumenta-se o tempo e entra a força. Duas semanas assim e a semana ruim já começa de um patamar mais alto.

Duas regras de rotina fecham o desenho da semana. O cochilo da tarde ajuda desde que fique em até uma hora e aconteça sempre no mesmo horário; passou disso, ele come o sono da noite e devolve o cansaço multiplicado no dia seguinte. E o dia tem sua curva, quase sempre com as melhores horas na parte da manhã. O que exige energia, do banho à caminhada e à visita da família, rende mais se for marcado nessa faixa, e o resto do dia aceita o que é leve.

A companhia importa mais do que parece. O programa feito sozinho é o que mais se abandona, e quem tem alguém marcando a hora e indo junto chega ao fim. A página de atividade física para idosos traz os formatos que funcionam quando sair de casa ainda não é opção.

Ilustração de senhora caminhando devagar pelo corredor de casa, com a mão apoiada na parede e uma cadeira posicionada no fim do corredor
Nos dias de fundo do ciclo, a meta é o corredor com uma cadeira no fim, e não a caminhada da praça.

Exercício aumenta a sobrevida no câncer de intestino

Até aqui o assunto foi sintoma. Há um momento em que ele passa a ser sobrevivência, e esse momento tem endereço: o câncer de intestino operado e tratado com quimioterapia. Nesse cenário, um programa de exercício estruturado iniciado logo depois da quimioterapia e mantido por três anos deixa mais gente viva e sem recaída. Cinco anos adiante, entre quem faz o programa, 80 em cada 100 seguem sem recaída; entre quem não faz, 74. Oito anos adiante, 90 em cada 100 estão vivas, contra 836.

O alcance desse dado precisa ficar claro. Ele vem do câncer de intestino e não se transfere automaticamente para os outros tipos. Em mama, pulmão e próstata, o que está demonstrado é o ganho em fadiga, função física e qualidade de vida, que já é bastante, mas é outra categoria de promessa. Dizer à família que exercício cura câncer é falso e cruel; dizer que, num tipo específico, ele mudou a conta de sobrevivência é verdadeiro e merece ser dito.

Há um custo, e ele aparece nos mesmos números. Dor muscular e dor articular aparecem mais em quem treina: cerca de 19 em cada 100, contra 12 de quem não treina6. Queixa desse tipo se resolve ajustando carga e ritmo, não parando.

Mesmo na doença avançada o movimento tem lugar. No câncer de pulmão em estágio avançado, o exercício reduz a fadiga, melhora a qualidade de vida e alivia a falta de ar, embora não mexa no sono nem na ansiedade7. Para quem está nessa situação, aliviar a falta de ar já basta como motivo.

O que muda no idoso com câncer

Tudo o que veio até aqui vale para qualquer idade. Depois dos 70, três fatores mudam de peso, e é neles que o cuidado se decide.

O primeiro é a reserva. Uma pessoa de 45 anos que passa duas semanas na cama volta a subir escada em poucos dias. Uma de 78, que já vinha com pouca massa muscular, pode não voltar. Quando a sarcopenia já existia antes do diagnóstico, o tratamento encontra um corpo sem margem, e a mesma quimioterapia que outro paciente atravessa em pé deixa essa pessoa na cama. A fragilidade prévia é o que melhor antecipa os próximos meses, e se mede antes, não depois.

O segundo é o efeito dessa perda sobre o próprio tratamento. O paciente fraco tolera menos, e quem tolera menos recebe dose reduzida, adia ciclo ou interrompe o protocolo. Nessa idade, portanto, manter a força não é cuidado paralelo ao tratamento, é o que sustenta a continuidade dele. O prato também entra nessa conta: sem proteína suficiente, o treino não constrói nada, assunto tratado em nutrição e fragilidade e em proteína para idosos.

O terceiro é a escolha da modalidade, que muda de acordo com o alvo. Em pacientes idosos com câncer, o exercício aeróbico é o que mais melhora a qualidade de vida, enquanto as práticas que integram corpo e respiração, como tai chi, qigong e ioga, são as que mais aliviam sintomas depressivos e ansiosos8. O treino de força isolado fica atrás no humor. Nem por isso sai do plano: é ele que preserva a autonomia, e autonomia é o que está em jogo.

Sobre a ioga nessa faixa, há um detalhe prático que tranquiliza. Ioga suave, feita duas a três vezes por semana durante quatro semanas, em intensidade baixa a moderada, produz em quem passou dos 60 a mesma melhora de fadiga e de qualidade de vida que produz nos mais jovens9. Não é preciso adaptar para menos por causa da idade.

Avaliação geriátrica antes de começar a quimioterapia

Reserva, tolerância e modalidade se medem no mesmo lugar, e esse lugar vem antes do primeiro ciclo. Existe uma providência que muda o curso do tratamento e que a família raramente pede: avaliar o idoso por inteiro antes de começar. A avaliação geriátrica ampla mede força, velocidade de marcha, equilíbrio, memória, humor, nutrição, apoio disponível em casa e a receita completa, em vez de olhar apenas a idade e os exames de sangue.

O ganho é concreto. Quem passa por essa avaliação antes do tratamento tem menos efeito colateral grave, cerca de 52 em cada 100 contra 65 de quem segue direto para o protocolo padrão, e precisa menos de redução de dose no meio do caminho10. Quando a avaliação vem acompanhada de mudanças concretas na conduta, e não apenas de um laudo no prontuário, a queda se repete na mesma ordem de grandeza, de 61 para 51 em cada 10011.

Parte do ganho vem de ajustes que parecem pequenos. A dose inicial calibrada pela função real, e não pela data de nascimento. O encaminhamento para a nutrição antes do primeiro ciclo, e não depois de dez quilos perdidos. O transporte até a sessão resolvido enquanto a pessoa ainda consegue ir sozinha. Nada disso aparece em exame de sangue, e por isso a avaliação precisa ser feita à parte.

Nem todo serviço oferece essa avaliação de rotina, e é por isso que ela merece ser pedida. A pergunta cabe em uma frase na consulta: antes de começar, dá para fazer uma avaliação geriátrica?

Preparar o corpo antes da cirurgia de câncer

Quando o tratamento inclui cirurgia, existe uma janela que costuma passar em branco: as três a quatro semanas entre a decisão de operar e a data da operação. Esse tempo, que a família passa esperando, pode ser usado para chegar mais forte à mesa.

O preparo que dá resultado tem três frentes ao mesmo tempo: exercício, ajuste da alimentação e apoio para a ansiedade. Feito assim, antes da cirurgia de intestino, ele encurta a internação em cerca de dois dias e meio, reduz em torno de um quarto as complicações depois da operação e faz o intestino voltar a funcionar mais cedo12. Em idosos que vão passar por procedimentos de grande porte, o quadro é parecido, com uma ressalva: o ganho mais constante é a queda das complicações depois da operação, enquanto o tempo de internação nem sempre encurta. O miolo dos programas é exercício aeróbico somado ao de força, de três a seis vezes por semana, em sessões de vinte a cinquenta minutos, por uma a cinco semanas13.

Duas semanas já servem, e o programa cabe em quatro linhas: caminhar todos os dias aumentando um pouco o tempo, treinar levantar da cadeira, exercitar a respiração e comer proteína em todas as refeições. Quem chega assim à cirurgia levanta da cama mais cedo no pós-operatório, e levantar cedo é o que separa uma recuperação comum de uma recuperação com complicação.

Formigamento nas mãos e nos pés durante a quimioterapia

Há um efeito colateral que não cede a nenhuma das medidas anteriores e pede treino de outro tipo. Alguns quimioterápicos agridem os nervos das extremidades e deixam formigamento, dormência, queimação e perda de sensibilidade nas mãos e nos pés. O problema não é só o incômodo: pé que não sente direito é pé que tropeça, e é por aí que a queda entra no tratamento. Entre idosos com câncer de intestino que desenvolvem esse formigamento, 20 em cada 100 caem no prazo de três anos, contra 14 entre os que não desenvolvem18. A neuropatia periférica no idoso trata do quadro em detalhe.

O exercício com melhor resultado aqui tem nome e desenho definidos: treino sensório-motor. Ele consiste em ficar de pé sobre superfícies que tiram o equilíbrio, como um tapete dobrado ou uma almofada firme, variando a base dos pés e, quando há segurança, fechando os olhos. Somado ao treino de força, melhora o equilíbrio, a qualidade de vida e os sintomas sentidos nos pés, e é a peça que não pode faltar14. E rende ainda mais acompanhado: a combinação de aeróbico, equilíbrio, força e treino sensório-motor é a que mais alivia o formigamento19. Os exercícios de equilíbrio seguem a mesma lógica e valem aqui, sempre com apoio à mão.

Falta dizer a parte que costuma ser omitida. Esse ganho aparece em quem treina com regularidade suficiente, e some em quem faz duas sessões e para. Em quem mantém a frequência, os sintomas nos pés avançam menos ao longo da quimioterapia, a força sobe melhor e a dose do tratamento fica mais perto da planejada15. Não é um exercício que se faz quando dá.

Ilustração de pés descalços de uma pessoa idosa sobre uma toalha dobrada no chão, ao lado de uma cadeira com a mão apoiada no encosto
Ficar de pé sobre uma toalha dobrada, com a mão no encosto da cadeira, é o começo do treino que mais rende no formigamento.

Quando não fazer exercício na quimioterapia

Exercício durante o tratamento é seguro para a grande maioria, e os problemas que aparecem são poucos e leves. Existem, porém, situações em que a intensidade precisa ser discutida com a equipe antes, e sinais que mandam interromper no mesmo instante.

Conversar com a equipe antes de começar

Plaquetas ou glóbulos brancos muito baixos no exame da semana. Metástase em osso, que muda o tipo de carga permitida. Cateter de longa permanência no peito ou no braço, que restringe alguns movimentos. Anemia importante. Náusea e vômito que impedem de beber água. Febre nas últimas 24 horas. Perda de peso rápida e contínua. Em nenhum desses casos a resposta padrão é parar tudo: quase sempre é ajustar o que fazer.

Parar na hora e avisar no mesmo dia

Dor ou aperto no peito. Falta de ar desproporcional ao esforço feito. Tontura forte, escurecimento da vista ou sensação de desmaio. Batimento irregular ou muito acelerado em repouso. Dor óssea nova, em um ponto fixo, que piora com o movimento. Dor de cabeça súbita e intensa. Qualquer sangramento inesperado.

Fora dessa lista, a regra é de bom senso: dor muscular leve no dia seguinte faz parte, dor que não passa em dois dias pede redução da carga, e o que não se resolve em uma semana merece uma ligação para a equipe.

Como começar a se exercitar na quimioterapia

O plano que funciona é o que sobrevive a um dia ruim, e por isso ele começa pequeno demais de propósito. Na primeira semana, três caminhadas de dez minutos dentro de casa ou na rua, em dias alternados, mais dois dias de levantar da cadeira sem usar as mãos, dez vezes, descansando entre as séries. Só isso. Na segunda semana, acrescentam-se cinco minutos a cada caminhada.

Anotar parece burocracia e não é. Uma folha presa na geladeira, com o dia da semana e o que foi feito, mostra em quinze dias o que a memória não mostra: que a semana seguinte à infusão é sempre a pior e que a energia volta antes do ciclo seguinte. Esse desenho é a informação que permite planejar o mês em vez de reagir a ele.

Na consulta com o oncologista, três perguntas valem a ida: tem alguma restrição de exercício no meu caso, dá para fazer uma avaliação geriátrica antes de começar, e a quem eu ligo se aparecer formigamento nas mãos ou nos pés. As três cabem em dois minutos e mudam o que acontece nos três meses seguintes.

Por fim, quem acompanha. Cuidar de alguém em tratamento oncológico consome sono, trabalho e convívio, e o desgaste de quem acompanha costuma ser tratado como assunto menor até deixar de ser. A sobrecarga do cuidador tem caminho próprio, e não se resolve com mais orientação sobre o paciente.

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação individual. Qualquer programa de exercício durante o tratamento oncológico precisa ser conversado com a equipe que acompanha o caso, porque o tipo de câncer, o esquema de quimioterapia e as doenças já existentes mudam o que é seguro fazer.

Esse cansaço não passa deitado

Na quimioterapia, a exaustão chega sem esforço e ignora o descanso. O que reduz esse cansaço é caminhada somada a exercícios de força, em dose pequena e regular, feita durante o próprio tratamento. A diferença aparece em cerca de doze semanas, não em quinze dias.

Caminhar

Três vezes por semana, dez minutos por vez, dentro de casa se for preciso, em ritmo que ainda permita falar uma frase inteira sem parar para respirar. Nos dias piores do ciclo, troque por três voltas no corredor com uma cadeira no fim. Acrescente cinco minutos por semana até chegar a trinta.

Levantar

Dois dias na semana, sente na beira da cadeira, cruze os braços no peito e levante sem usar as mãos: duas séries de dez, com um minuto de descanso entre elas. Se não conseguir dez, faça cinco com a mão num apoio. Essa força é o que sustenta a próxima dose da quimioterapia.

Perguntar

Na próxima consulta, faça três perguntas: tenho alguma restrição de exercício, dá para fazer uma avaliação geriátrica antes de começar, e a quem eu ligo se aparecer formigamento nas mãos ou nos pés. A do meio reduz o efeito colateral grave de 65 para 52 em cada 100 idosos.

Perguntas frequentes

O que é o cansaço da quimioterapia?
Trata-se de uma exaustão desproporcional ao esforço feito, que aparece com o tratamento e não melhora depois de uma noite de sono ou de um dia inteiro deitado. Ela difere do cansaço comum em três pontos: chega sem motivo, atinge o corpo e a cabeça ao mesmo tempo e ignora o descanso. Ela está entre os efeitos adversos mais frequentes e mais duradouros de quem passa por tratamento oncológico.
Pode fazer exercício durante a quimioterapia?
Pode, e é justamente durante o tratamento que o exercício rende mais contra a fadiga. A orientação vigente para quem tem câncer é evitar ficar parado, e o treino leve a moderado se mostra seguro mesmo nos dias de ciclo. O que muda de pessoa para pessoa é a intensidade e o tipo, por causa de plaquetas baixas, cateter, metástase óssea e outras situações que a equipe precisa avaliar antes.
Qual exercício alivia mais a fadiga do câncer?
A combinação de caminhada com exercícios de força é a que reduz mais a fadiga, tanto durante quanto depois do tratamento. Ioga e atividade física regular vêm em seguida. Alongamento sozinho é a única modalidade que não faz diferença nesse sintoma, apesar de ser a mais oferecida.
Quanto exercício fazer por semana durante o tratamento?
A recomendação para quem está em tratamento oncológico é de três sessões de meia hora de atividade moderada por semana, mais dois dias de exercícios de força para os grandes grupos musculares. Moderado quer dizer conseguir falar frases inteiras sem ofegar. Quem está muito debilitado começa por cinco minutos, várias vezes ao dia, e cresce a partir disso.
Existe remédio para o cansaço da quimioterapia?
Os medicamentos testados para esse fim não mostram efeito relevante sobre a fadiga, enquanto exercício e terapia psicológica mostram. Por isso a primeira prescrição contra o cansaço do tratamento não é uma receita, é movimento e apoio psicológico. Suplementos alimentares também não reduzem a fadiga, com exceção do ginseng americano durante o tratamento.
Quanto tempo dura o cansaço da quimioterapia?
Dentro do tratamento, a fadiga segue o ritmo dos ciclos: piora nos dias seguintes à infusão e alivia na semana anterior ao ciclo seguinte. Ela diminui quando o tratamento termina, mas não some para todo mundo: cerca de um quarto das pessoas ainda tem fadiga grave depois do fim do tratamento, contra um terço durante. Cansaço que continua meses depois merece ser reavaliado, porque a essa altura costuma ter causa acrescentada, como anemia, tireoide, insônia ou humor.
Exercício durante o tratamento aumenta a chance de cura?
No câncer de intestino operado e tratado com quimioterapia, um programa de exercício estruturado iniciado logo depois da quimioterapia deixa mais pessoas vivas e sem recaída anos depois: oito anos adiante, 90 em cada 100 estão vivas, contra 83 entre quem não faz o programa. Esse dado é do câncer de intestino e não se transfere automaticamente para os outros tipos, onde o ganho comprovado é de fadiga, função e qualidade de vida.
O que muda no tratamento do câncer depois dos 70 anos?
Muda a reserva. Uma pessoa de 75 anos que já tinha pouca massa muscular perde autonomia em duas semanas de cama, e a fraqueza que sobra atrasa o ciclo seguinte. Por isso, depois dos 70 o exercício deixa de ser cuidado paralelo e vira parte do tratamento: ele preserva a força que sustenta a dose e a continuidade da quimioterapia.
O que é avaliação geriátrica antes da quimioterapia?
Trata-se de uma avaliação ampla feita antes de começar o tratamento, que mede força, marcha, memória, humor, nutrição, apoio em casa e a lista inteira de remédios, em vez de olhar apenas a idade e os exames de sangue. Quem passa por ela tem menos efeito colateral grave: cerca de 52 em cada 100, contra 65 de quem segue direto para o protocolo padrão.
Exercício ajuda no formigamento das mãos e dos pés?
O treino que mais rende nesse sintoma é o sensório-motor, feito em superfícies instáveis e com os olhos fechados, de preferência somado a aeróbico, equilíbrio e força. Ele melhora equilíbrio, qualidade de vida e os sintomas sentidos nos pés, mas só em quem treina com regularidade suficiente. Quem faz duas sessões e para não colhe nada disso.
Quando parar o exercício e avisar a equipe?
Parar na hora e avisar diante de dor no peito, falta de ar desproporcional ao esforço, tontura forte, batimento irregular, dor óssea nova em um ponto fixo ou febre no mesmo dia. Também vale avisar quando surge dor muscular ou articular que não passa em dois dias, queixa mais comum em quem treina do que em quem não treina.

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