Ilustração de senhor idoso sentado sozinho no último degrau da escada de uma igreja, com o chapéu nas mãos e o portão de ferro aberto atrás, enquanto as pessoas já foram embora
Saúde e envelhecimento

Depressão no idoso

Depois dos 60 a depressão quase nunca chega chorando. Ela chega como dor que muda de lugar, sono que não repara e vontade que some. Quem convive é quem percebe primeiro.

Atualizado em 16 de setembro de 2026. Conteúdo de Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F.

O que é depressão no idoso

Resposta curta

Depressão no idoso é um transtorno do humor que, nessa idade, raramente se apresenta como tristeza declarada. O quadro chega pelo corpo: dor que muda de lugar, sono que não repara, apetite que some, cansaço que não passa com descanso e perda de interesse por tudo o que antes dava prazer. Não é consequência natural de envelhecer, tem tratamento com bom resultado e o primeiro passo é uma consulta com o médico de confiança, levando por escrito o que a família observou e desde quando.

A confusão começa no nome. Quando alguém pergunta a um idoso se ele está deprimido, a resposta é quase sempre não. Ele não se sente triste, sente um cansaço que não cede, uma dor nas costas que já mudou de lugar três vezes, uma noite que termina às quatro da manhã com os olhos abertos no teto. A palavra depressão, para a geração dele, faz fronteira com fraqueza de caráter e com hospital psiquiátrico, e ninguém quer nenhum dos dois. O que ele descreve é o corpo, e é pelo corpo que a consulta segue.

A conta é grande. No Brasil, entre os idosos que moram na própria casa, cerca de vinte e seis em cada cem convivem com sintomas depressivos fortes o bastante para atrapalhar o dia, e sete em cada cem preenchem o quadro completo de depressão maior, a forma mais grave1. Entre mulheres a proporção é maior, e há uma companhia frequente: doença cardiovascular caminha junto com depressão nessa faixa, nos dois sentidos.

26 em cada 100idosos brasileiros que moram na própria casa convivem com sintomas depressivos que já atrapalham o dia
quase metadede quem passou dos 60 com duas ou mais doenças crônicas tem depressão junto
7 mil passospor dia marcam o ponto em que o risco de depressão cai cerca de trinta por cento

Em instituição de longa permanência a conta é outra: cerca de metade dos moradores apresenta humor deprimido e um quarto tem depressão maior2. Não é o prédio que adoece. O que pesa ali é a soma de dor mal controlada, dependência para as tarefas do dia, renda insuficiente, pouca autonomia sobre a rotina e solidão, e é a solidão que mais conta no humor. Quem carrega duas ou mais doenças crônicas também entra em outro patamar: perto de metade dos idosos nessa situação tem depressão associada3.

Por que a depressão no idoso não parece tristeza

O disfarce tem mais de uma camada. A de baixo é a apresentação pelo corpo. Dor difusa, peso no estômago, tontura, falta de ar, boca seca e formigamento são queixas comuns de quem está deprimido nessa idade, e cada uma delas rende um exame, um encaminhamento e uma espera. A investigação corre atrás de um órgão enquanto o problema está no humor, e não é raro o idoso chegar ao diagnóstico com um envelope cheio de exames normais.

Vem depois a apatia sem tristeza. Muita gente perde o interesse antes de perder o ânimo: para de ligar para os netos, larga o jornal, desiste da novela que acompanhava havia anos, e responde que está tudo bem porque não está triste, apenas não tem vontade. Essa forma, que se manifesta mais como desligamento do que como sofrimento, engana até dentro de casa, e é a mesma que se confunde com a apatia da demência.

E há a nossa própria expectativa. Espera-se que idoso seja quieto, que durma mal, que coma pouco, que não queira sair. Cada um desses sinais, quando aparece num adulto de quarenta anos, acende uma luz; diante dos mesmos sinais aos oitenta, a família diz que é da idade. Essa frase é o principal atraso no diagnóstico, e ela custa meses. Velho ranzinza não é uma etapa da vida, é com frequência um velho doente.

Acrescente-se o que a doença faz com a percepção. A depressão reduz a capacidade de a pessoa se enxergar de fora, e o idoso muitas vezes não reconhece o que está acontecendo com ele nem tem nome para aquilo. Por isso o convite para procurar ajuda quase sempre precisa vir de fora, com companhia até a porta do consultório, e não como sugestão deixada no ar.

Ilustração de mesa de cozinha vista de cima com um prato de almoço servido e quase intocado, talheres cruzados ao lado e uma cadeira vazia afastada
O prato que volta cheio é um dos primeiros avisos, e costuma ser lido como falta de apetite da idade.

Sinais de depressão no idoso

O sinal mais confiável não é um sintoma isolado, é a mudança. Alguém que fazia deixou de fazer, e o recuo tem data aproximada. Vale mais reparar no que saiu da rotina do que procurar tristeza no rosto.

O primeiro campo é o convívio. Ele parou de atender o telefone, deixou de ir à missa, ao clube, ao grupo de caminhada, e passou a recusar convites com desculpas que se repetem. Depois vem o autocuidado: o banho espaçou, a barba ficou, a roupa é a mesma de ontem, a casa foi perdendo a ordem. Por fim, a mesa: o prato volta quase cheio, o peso cai sem dieta, a roupa folga na cintura.

Há sinais mais discretos, e esses passam em branco com facilidade. A queixa de memória que apareceu junto com o retraimento, e não antes dele. A irritabilidade nova, sobretudo em homens, que troca o choro pela impaciência. O sono invertido, com cochilo à tarde e madrugada acordada. A recusa de tomar os remédios de uso contínuo, que raramente é esquecimento e muitas vezes é desistência. E as falas sobre não fazer mais falta a ninguém, que ganham seção própria mais abaixo, porque não entram na categoria de desabafo.

Existe ainda um padrão que aparece depois de um evento. Retraimento que começou após uma internação, uma queda, uma viuvez ou um remédio novo tem endereço e data, e esse é justamente o tipo de informação que resolve a consulta em dez minutos. Vale anotar.

Depressão ou demência: o que separa as duas

A depressão pode produzir uma falha de memória, de atenção e de raciocínio tão parecida com a da demência que recebeu nome próprio: pseudodemência4. O prejuízo é real, o idoso realmente não consegue, e ele desaparece quando o humor é tratado. Confundir um com o outro custa caro, porque um dos dois é reversível.

Três detalhes ajudam a orientar quem convive. O tempo: na depressão o começo costuma ser rápido, com data aproximada, semanas a poucos meses; na demência ele é lento e ninguém sabe dizer quando começou. A queixa: quem está deprimido reclama muito da própria memória e descreve as falhas em detalhe, enquanto quem tem demência tende a minimizar e a se irritar com o assunto. A resposta: diante de uma pergunta difícil, a depressão responde não sei e fica por isso mesmo, enquanto a demência responde errado com convicção, ou inventa uma saída plausível.

Nenhum deles fecha diagnóstico sozinho. Os quadros se sobrepõem, e a depressão é comum nos primeiros anos da demência, justamente quando o idoso ainda percebe o que está perdendo. E a depressão também é fator de risco para demência, o que embaralha de vez a ordem dos acontecimentos. Diante de queixa de memória que apareceu junto com retraimento, o caminho é a avaliação do médico, e não a escolha entre um rótulo e outro. A página de dificuldade cognitiva no idoso trata dessa triagem em detalhe, e o declínio cognitivo leve cobre o estágio anterior à demência.

Ilustração de senhora idosa sentada à mesa diante de um caderno aberto e uma caneta, com a mão na testa e o olhar parado sobre a página em branco
Queixar-se muito da própria memória é mais típico da depressão do que da demência, que costuma minimizar o esquecimento.

O que causa depressão no idoso

Nessa idade a depressão raramente tem uma causa só. Ela é o ponto em que várias pressões se encontram, e por isso o tratamento também não é um só.

As perdas encabeçam a lista, e são concretas: viuvez, morte de irmãos e amigos, saída do trabalho, filhos em outra cidade, carteira de motorista entregue. A aposentadoria costuma vir com duas perdas de uma vez, a do lugar social e a da renda. Cada uma dessas perdas retira um pedaço da rotina e da identidade, e a soma vai estreitando o mundo até sobrar a sala de casa. A solidão no idoso é o elo mais forte entre esse encolhimento e o humor: entre tudo o que se mede na velhice, a depressão é um dos fatores mais fortemente ligados a dizer que a vida não está boa, e a solidão vem logo atrás19.

A dor crônica é a segunda frente, e a relação é de mão dupla. Entre os idosos que vivem em instituição, onde isso foi bem medido, quem sente dor tem quase três vezes mais chance de estar deprimido2, e a depressão por sua vez baixa o limiar do que dói. Quem convive com lombalgia crônica, artrose ou dor no ombro sabe que os dias piores do corpo são também os piores do humor, e não é coincidência.

A perda de função vem em seguida. Depender de ajuda para o banho, para vestir e para sair de casa caminha junto com o humor deprimido2, e aqui entra um círculo que se fecha sozinho: a perda de massa muscular tira a autonomia, a falta de autonomia reduz a atividade, a inatividade acelera a perda de músculo. A fragilidade e a depressão andam quase sempre juntas, e nenhuma das duas espera a outra.

Existe ainda uma forma pouco conhecida fora dos consultórios, e ela é típica dessa idade: a depressão vascular. Anos de pressão alta, diabetes e colesterol elevado vão estreitando os vasos pequenos do cérebro, e a lesão desses vasos nas regiões que ligam emoção e iniciativa produz um quadro com marca própria20. Ele aparece tarde, em quem nunca teve depressão antes, pesa mais na apatia e na lentidão do que na tristeza, vem acompanhado de dificuldade de planejar e organizar tarefas e responde menos ao antidepressivo do que a depressão que começou cedo na vida. Reconhecê-la muda o alvo: aqui, controlar pressão e glicemia faz parte do tratamento do humor, e a ligação com a demência vascular é direta.

Faltam duas frentes que a família raramente liga ao humor. A primeira é o remédio: corticoide, alguns anti-hipertensivos, sedativos e outras classes podem derrubar o ânimo, e um idoso com receita longa tem mais chance de estar tomando um deles sem que ninguém tenha feito a conta, assunto tratado em polifarmácia no idoso. A segunda são as doenças que imitam depressão: tireoide baixa, vitamina B12 em falta, anemia e apneia do sono produzem cansaço, lentidão e desânimo, e nenhuma delas melhora com antidepressivo. A investigação começa, por isso, com exames de sangue, e não com receita.

Audição, visão e depressão no idoso

Perder audição ou visão é o gatilho que menos gente associa à depressão. Quem tem perda de audição tem cerca de vinte por cento mais chance de desenvolver depressão nos anos seguintes, quem tem perda de visão cerca de quinze por cento, e quem tem as duas ao mesmo tempo quase quarenta por cento5. O risco não é o de estar deprimido hoje, é o de ficar deprimido depois, e essa diferença importa: o problema sensorial vem antes.

O caminho é banal, e é por isso que dá para interrompê-lo. Quem não ouve bem para de acompanhar a conversa da mesa, responde fora de hora, percebe o incômodo dos outros e se cala. Em pouco tempo prefere não ir. Quem não enxerga bem para de ler, larga a costura, deixa de reconhecer quem chega de longe e desiste de sair à noite. O afastamento não é escolha, é consequência, e quase sempre é lido em casa como mau humor ou teimosia.

Daí sai uma providência que rende mais do que qualquer conselho de animar o idoso. Consulta de audição e de vista, aparelho auditivo ajustado e óculos com grau atualizado são intervenções de saúde mental, e não apenas de sentido. A página de perda auditiva no idoso cobre o que muda quando o aparelho entra, e é ali que muita família recupera um convívio que nenhum convite trouxe de volta.

Diagnóstico e teste de depressão no idoso

O diagnóstico é clínico, feito por médico, e se apoia na história contada pela pessoa, na história contada por quem convive e na exclusão das doenças que imitam depressão. Quem convive costuma ser o único a saber quando o retraimento começou, e essa data raramente é lembrada por quem está deprimido.

A ferramenta mais usada nessa idade é a escala de depressão geriátrica, conhecida pela sigla GDS. A versão curta tem quinze perguntas de sim ou não sobre a última semana, do tipo está satisfeito com a vida, sente que a vida está vazia, prefere ficar em casa a sair. O detalhe que a torna útil aqui é o que ela deixa de fora: não há pergunta sobre sono, apetite, peso ou energia, justamente os itens em que doença física e depressão se confundem.

A leitura é direta. A partir de cinco respostas na direção do humor deprimido, o resultado pede avaliação; acima de dez, o quadro em geral é de depressão maior7. No ponto de corte de cinco, a escala identifica cerca de nove em cada dez pessoas que realmente estão deprimidas e aponta como suspeitos cerca de dois em cada dez que não estão6. Esse desenho é proposital: rastreio bom prefere errar para mais e mandar investigar. O que a escala não faz é fechar diagnóstico, e por isso ela não serve para autoavaliação em casa.

Fora do rastreio, existe uma única pergunta que vale mais do que o questionário inteiro, e qualquer pessoa pode fazer: nas últimas duas semanas, o que ainda te dá prazer? Silêncio nessa pergunta, vindo de quem sempre teve resposta, é motivo de consulta.

Tratamento da depressão no idoso sem remédio

A psicoterapia dá resultado nessa idade, e não é resultado pequeno. Terapia cognitivo-comportamental, terapia cognitiva, atenção plena, ativação comportamental e revisão de vida reduzem os sintomas depressivos, e nenhuma delas rende muito mais do que as outras8.

No tamanho da melhora elas empatam. A diferença aparece quando se soma a isso quantas pessoas ficam até o fim, e aí uma sai na frente: a revisão de vida, que consiste em percorrer a própria história em conversa guiada, episódio por episódio, dando forma ao que ficou solto. Ela combina com a idade por um motivo simples: aos oitenta anos há muito material, e organizar o que se viveu é uma tarefa que faz sentido para quem a executa. Na outra ponta, a ativação comportamental, que funciona bem, é a que mais perde gente pelo caminho, porque exige fazer antes de ter vontade, e é justamente a vontade que falta.

Para quem ainda não tem depressão instalada, mas já mostra sintomas, vale prevenir, e prevenir dá resultado. Grupos de convivência, treino de habilidades, programas de atividade e acompanhamento estruturado derrubam os sintomas depressivos, e a melhora ainda está lá meses depois de o programa terminar9. O mais útil aqui é o que não aparece: nenhum formato leva vantagem sobre os outros. Não importa muito qual grupo, qual duração, se presencial ou a distância. Importa começar algum.

Começar algum, porém, não é o mesmo que ocupar. Ocupar o idoso não é tratamento. Atividade escolhida por ele, com gente, em horário fixo e com algum grau de compromisso, é outra coisa, e a diferença entre as duas não é sutil: a jardinagem na depressão do idoso mostra bem como uma tarefa com sentido próprio produz efeito que a distração não produz.

Exercício e caminhada na depressão do idoso

O exercício reduz sintomas depressivos e ansiosos, com efeito consistente o bastante para ele entrar no plano de tratamento com a mesma seriedade de qualquer outra medida. Do ioga ao treino de força, passando por pilates, exercício aeróbico e treino combinado, todos funcionam, e a distância entre eles é pequena10. O ioga fica na frente por pouco, e esse pouco não justifica empurrar ninguém para uma modalidade que não quer fazer. A modalidade que o idoso aceita fazer três vezes por semana vence qualquer ranking.

A caminhada tem uma medida própria que serve de meta. Sete mil passos por dia marcam o ponto a partir do qual o risco de depressão cai cerca de trinta por cento em relação a quem anda menos do que isso, e mil passos a mais por dia caminham junto com quase dez por cento menos risco11. O alvo, portanto, não é dez mil, e isso muda o que se pode propor a quem hoje anda mil por dia.

Para quem está parado há meses, nem o número serve de alvo. O que vale é o primeiro movimento, e ele precisa caber num dia ruim. Sentar na poltrona em vez de ficar deitado. Almoçar à mesa em vez de na cama. Ir até o portão em vez de caminhar no quarteirão. Reduzir o tamanho do pedido até ele ser aceito é mais eficaz do que insistir em animar, porque a animação depende justamente da vontade que está em falta. O texto sobre atividade física para idosos traz os formatos possíveis quando sair de casa ainda não é opção.

Há um obstáculo que aparece nessa hora e precisa ser nomeado: o medo de cair. Sintomas depressivos costumam anteceder o aumento do número de quedas, e o medo de cair e a queda se alimentam um ao outro18. Quem já caiu anda menos, perde força por andar menos, cai de novo por ter menos força, e o humor acompanha a curva. Tratar o medo, com treino de equilíbrio e com a casa ajustada, é parte do tratamento do humor. As páginas de medo de cair e de exercícios de equilíbrio tratam desse ponto.

Ilustração de senhor idoso parado no portão de casa, de manhã, com a mão apoiada na grade e olhando para a calçada arborizada à frente
Para quem está parado há meses, a meta do dia é o portão, não o quarteirão. Pedido pequeno é pedido aceito.

Antidepressivo no idoso: efeito e riscos

Quando o quadro é moderado ou grave, o medicamento entra, e entra para valer: depressão maior não se resolve só com atividade e convívio. A decisão é do médico, e a família acompanha melhor esse período sabendo de antemão o que vem pela frente.

O primeiro ponto é o tempo. O efeito sobre o humor não aparece na primeira semana. Costuma levar de duas a seis semanas para começar, e às vezes mais nessa idade. Abandonar o remédio no décimo dia porque nada mudou é o erro mais comum, e ele devolve a pessoa ao ponto de partida com a impressão de que não funciona.

O segundo é o sódio no sangue. A queda do sódio é o efeito adverso que mais exige atenção com essa classe de remédios: ela aparece em cerca de uma pessoa em cada cem no primeiro mês de uso e em cerca de uma em cada dez ao longo de três anos13. Os sinais são inespecíficos e fáceis de atribuir à idade: confusão nova, sonolência, fraqueza, náusea e desequilíbrio. Um exame de sangue simples resolve a dúvida, e por isso o médico pede a coleta nas primeiras semanas.

O terceiro é a queda. Praticamente todas as classes de antidepressivo aparecem associadas a queda em idosos, e os relatos mostram três acompanhantes que se repetem: confusão aguda, pressão que despenca ao levantar e sódio baixo14. Nenhum deles é motivo para não tratar a depressão, que por si só derruba mais. São motivos para medir a pressão deitado e de pé nas primeiras semanas, revisar o resto da receita e olhar o chão da casa. A hipotensão ortostática e a segurança da casa entram na mesma conversa.

Resta uma situação em que a expectativa precisa ser corrigida. Quando a depressão aparece em quem já tem demência estabelecida, o antidepressivo não mostra efeito sobre os sintomas depressivos12. Isso não significa abandonar o idoso ao quadro: significa que o ganho, ali, vem de outro lugar, do ajuste da rotina, do controle da dor, da atividade com sentido e do apoio a quem cuida. A agitação e apatia na demência trata desse manejo, e nenhuma decisão sobre parar ou manter o remédio se toma sem o médico.

Depressão no idoso aumenta o risco de demência

Aumenta, e a diferença é grande. Quem passa por depressão tem cerca de oitenta por cento mais chance de desenvolver demência do que quem não passa15. O risco é quase o dobro, e não muda quando se olha só para o que há de mais confiável sobre o assunto.

Vale entender o que esse dado quer dizer e o que não quer. Ele não afirma que a depressão causa demência. Parte dos casos é o contrário: a depressão é o primeiro sinal de uma demência que ainda não apareceu, quando a pessoa começa a perceber falhas e reage a elas. Outra parte tem causa comum: o estreitamento dos vasos pequenos do cérebro, o mesmo que sustenta a depressão vascular descrita acima, produz os dois quadros, e é o que aproxima o humor da demência vascular.

Na prática, o que importa é que a depressão está no grupo dos fatores de risco que dá para modificar. Num dos modelos mais usados para fazer essa conta, sete fatores respondem juntos por cerca de um terço dos casos de demência, e a depressão é um deles16. Os outros seis são escolaridade baixa, pressão alta na meia-idade, obesidade na meia-idade, tabagismo, inatividade física e diabetes. Tratar a depressão do pai de oitenta anos devolve a ele o prazer das coisas e ainda mexe num dos poucos fatores sobre os quais a família tem alguma mão.

Quando a depressão no idoso vira urgência

Até aqui o assunto comporta consulta marcada e tempo de tratamento. Há um conjunto de sinais, porém, que tira o caso dessa escala e o põe no mesmo dia.

Procurar atendimento no mesmo dia

Qualquer menção a não valer a pena continuar, a ser um peso para os filhos, a estar de partida ou a já ter vivido o suficiente, mesmo dita em tom leve ou de brincadeira. A recusa de comer e de beber. A interrupção dos remédios de uso contínuo. O começo súbito de organizar pertences, distribuir objetos de estimação, insistir em acertar documentos e se despedir de pessoas sem motivo aparente. O acesso fácil a arma de fogo ou a estoque grande de comprimidos dentro de casa, em alguém que já demonstrou desânimo profundo.

Pessoas idosas têm as maiores taxas de suicídio entre todas as faixas etárias, e o aviso, quando existe, é discreto. Ele quase nunca vem como ameaça e quase sempre como uma frase de passagem, dita no meio de outro assunto e desfeita com um sorriso quando alguém estranha. A resposta certa a essa frase é perguntar diretamente, sem rodeio, se a pessoa tem pensado em morrer. Perguntar não planta a ideia, e a pergunta direta costuma aliviar quem a recebe.

Entre as formas de proteger, a que tem demonstração mais firme é o cuidado articulado na atenção primária, com rastreio do humor, tratamento e acompanhamento no mesmo serviço e com a mesma equipe, arranjo que reduz em cerca de vinte por cento as tentativas e os pensamentos de morte17. O que mais protege, no fim, é alguém de olho e com retorno marcado. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida atende de graça pelo telefone 188, 24 horas por dia, e o CAPS do município é a porta de entrada da rede pública para casos que precisam de acompanhamento contínuo.

Como ajudar um idoso com depressão

Ajudar começa antes da consulta, e meia folha de papel resolve mais do que qualquer aplicativo. Nela cabem quatro respostas que o médico vai pedir e que ninguém lembra na hora: desde quando a pessoa mudou, o que exatamente deixou de fazer, o que aconteceu nas semanas anteriores à mudança, e a lista completa dos remédios em uso, incluindo os comprados sem receita e os chás. Essa folha encurta a investigação e evita que a consulta inteira seja gasta na dor das costas.

A conversa em casa pede um ajuste de tom. Frases como reage, você tem tudo, tem gente em situação pior e é só levantar dessa cama são recebidas como cobrança, e a cobrança afasta. O que funciona é nomear o que se vê sem interpretar: percebi que você não tem ido à missa há um mês, e isso me preocupou. Depois, oferecer companhia em vez de conselho, e propor um pedido pequeno o bastante para ser aceito num dia ruim.

A recusa é comum e tem explicação. Para boa parte dessa geração, transtorno mental é frescura ou é loucura, e nenhuma das duas cabe na imagem que ele tem de si. Discutir o rótulo raramente convence. O que costuma destravar é tratar o assunto como se trata qualquer outro: a consulta é para investigar o cansaço, o sono e a dor, que é exatamente o que ela está sentindo, e o médico decide o resto. Netos, quando existem, são os que melhor fazem esse convite, porque não carregam a cobrança que a conversa com os filhos carrega.

Na sequência vêm três consultas, e elas pesam mais do que qualquer mudança de rotina. A do médico de confiança, com exames de sangue que afastem alteração de tireoide, falta de vitamina B12 e anemia, e com revisão da receita inteira. A do otorrinolaringologista ou fonoaudiólogo, se a conversa em família já exige repetir. E a do oftalmologista, se o grau está vencido. São encaminhamentos banais, e mexem em algumas das causas mais frequentes.

Por último, o cuidador. Quem acompanha uma depressão de perto adoece também, e a sobrecarga de quem cuida é tratada como assunto menor até o dia em que deixa de ser. A avaliação vale para ele do mesmo jeito, e a sobrecarga do cuidador tem caminho próprio, que não se resolve com mais orientação sobre o doente.

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação individual. Depressão no idoso exige diagnóstico médico, porque o tratamento muda conforme a gravidade, conforme as doenças que a pessoa já tem e conforme os remédios que ela já usa.

Ninguém vai dizer que está deprimido

Depois dos 60 a queixa vem como dor que muda de lugar, noite mal dormida e coisas que ele simplesmente deixou de fazer. Não é da idade, tem tratamento com bom resultado, e quem convive é quem carrega a informação que resolve a consulta: desde quando ele mudou.

Perguntar

Sente-se ao lado dele, sem pressa, e pergunte: nas últimas duas semanas, o que ainda te dá prazer? Silêncio, vindo de quem sempre teve o que responder, é consulta marcada nesta semana. Se ele disser que não faz mais falta a ninguém, é atendimento no mesmo dia.

Anotar

Numa folha só, escreva desde quando ele mudou, o que exatamente deixou de fazer, o que aconteceu nas semanas anteriores e a lista completa dos remédios, inclusive os sem receita. Leve essa folha à consulta e entregue ao médico.

Convidar

Troque o convite grande pelo pedido que cabe num dia ruim: almoçar à mesa em vez de na cama, ir até o portão em vez de caminhar no quarteirão. Vá junto e não cobre reação. Insistir para que ele anime não funciona; diminuir o tamanho do pedido, sim.

Perguntas frequentes

O que é depressão no idoso?
Depressão no idoso é um transtorno do humor que, depois dos 60 anos, raramente se apresenta como tristeza declarada. O quadro chega pelo corpo: dor que muda de lugar, sono que não repara, apetite que some, cansaço permanente e perda de interesse pelo que antes dava prazer. No Brasil, um em cada quatro idosos que moram na própria casa convive com sintomas depressivos, e sete em cada cem têm depressão maior.
Como saber se o idoso está com depressão?
O sinal mais confiável é a mudança: alguém que fazia deixou de fazer. Parou de atender o telefone, abandonou a missa ou o clube, espaçou o banho, devolve o prato quase cheio, perdeu peso sem dieta e passou a dizer que nada tem graça. Duas semanas seguidas desse quadro já justificam consulta, principalmente quando a queixa de memória apareceu junto com o retraimento.
Depressão no idoso é normal da idade?
Não. Envelhecer traz perdas reais e tristeza diante delas é esperado, mas tristeza que ocupa a maior parte dos dias por duas semanas, apaga o prazer de tudo e derruba o autocuidado é doença, não idade. Tratar a depressão no idoso funciona tão bem quanto em qualquer outra fase da vida, e o maior obstáculo costuma ser justamente a crença de que aquilo é da idade.
Como diferenciar depressão de demência no idoso?
A depressão pode provocar falha de memória, de atenção e de raciocínio parecida com a da demência, quadro chamado de pseudodemência. Três detalhes ajudam a separar: na depressão o início costuma ser rápido e datável, a pessoa reclama muito da própria memória e responde não sei, enquanto na demência o começo é lento, o esquecimento é minimizado e a resposta errada vem com convicção. Quem decide é o médico, e as duas condições podem coexistir.
Qual é o teste de depressão para idoso?
A escala de depressão geriátrica, conhecida pela sigla GDS, é a mais usada nessa idade. A versão curta tem quinze perguntas de sim ou não sobre a última semana e não pergunta nada sobre o corpo, o que evita confundir doença com humor. A partir de cinco respostas na direção do humor deprimido o resultado pede avaliação, e acima de dez o quadro costuma ser depressão maior. A escala é rastreio, não diagnóstico.
Depressão no idoso tem cura?
Tem tratamento com bom resultado, e a maioria das pessoas volta ao patamar de antes. Psicoterapia, retomada de atividade física e, quando indicado, medicamento funcionam nessa idade. Entre as psicoterapias, a revisão de vida, que organiza a própria história em conversa guiada, é a que reúne melhor resultado e maior permanência das pessoas no tratamento.
O que fazer quando o idoso não quer sair da cama?
Insistir em animar não funciona e costuma afastar. O que muda a rotina é reduzir o tamanho do pedido até ele caber no dia ruim: sentar na poltrona em vez de ficar deitado, ir até o portão em vez de caminhar no quarteirão, almoçar à mesa em vez de na cama. Cada mil passos a mais por dia caminham junto com cerca de dez por cento menos risco de depressão, e sete mil passos marcam o ponto em que a diferença fica grande.
Antidepressivo faz mal para idoso?
Não faz mal, mas exige vigilância maior do que em outras idades. Os dois pontos a acompanhar são a queda do sódio no sangue, que aparece em cerca de uma pessoa em cada cem no primeiro mês de uso, e o risco de queda, que sobe com praticamente todas as classes. Nos relatos de queda em idosos que usam antidepressivo, três acompanhantes se repetem: confusão aguda, pressão que despenca ao levantar e sódio baixo. Nunca se interrompe o remédio por conta própria.
Depressão no idoso aumenta o risco de demência?
Quem passa por depressão tem cerca de oitenta por cento mais chance de desenvolver demência do que quem não passa. A depressão entra no grupo dos sete fatores que dá para modificar, ao lado de escolaridade baixa, pressão alta, obesidade, tabagismo, inatividade física e diabetes, e esses sete juntos respondem por cerca de um terço dos casos de demência.
Quando procurar ajuda com urgência?
No mesmo dia, sempre que houver qualquer menção a não valer a pena continuar, a ser um peso para a família ou a estar de partida, mesmo dita em tom de brincadeira. Também no mesmo dia quando a pessoa passa a recusar comida e água, para de tomar os remédios de uso contínuo ou começa a organizar pertences e a se despedir. Pessoas idosas têm as maiores taxas de suicídio entre todas as faixas etárias, e o aviso quase sempre é discreto.

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