Ilustração de senhor idoso sentado em uma cadeira na varanda pela manhã, com o rosto voltado para a claridade e uma xícara na mesinha ao lado
Sono e ritmo biológico

Luz e sono no idoso

O corpo acerta o horário de dormir pela claridade que recebe durante o dia. Quando a manhã passa dentro de casa, a noite perde a referência.

Atualizado em 13 de agosto de 2026. Conteúdo de Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F.

Quando o dia e a noite trocam de lugar

O jantar termina às sete e a novela das oito passa com o ente querido cochilando na poltrona. Às dez ele vai para a cama e o sono não vem. Por volta das duas da manhã, levanta para o banheiro, acende a luz do corredor, dá uma volta pela sala, volta a deitar e adormece perto do amanhecer. Às seis está acordado outra vez. Depois do almoço dorme duas horas na mesma poltrona, e à noite a história recomeça.

A família descreve essa cena como insônia, e a conversa com o médico costuma terminar em uma receita. A descrição mais fiel é outra: o relógio interno perdeu a referência. Ele continua funcionando, apenas deixou de receber todos os dias o sinal que o acerta, e esse sinal é a luz.

O problema é comum. Entre idosos que vivem em instituição de longa permanência, o distúrbio do sono aparece em 43% dos residentes 2, e a prevalência varia conforme a região, o instrumento usado e o perfil de cada casa. Quem mora com a família enfrenta o mesmo quadro em versão menos visível, porque a noite mal dormida se dilui na rotina da casa e só ganha nome quando alguém precisa acordar junto.

Ilustração de idosa tomando café da manhã à mesa, ao lado de uma janela com a claridade entrando
As duas primeiras horas depois de acordar são as que mais informam o relógio do corpo sobre a hora do dia.

O mecanismo por trás dessa cena é pouco discutido, e o manejo é barato. A luz que chega aos olhos durante o dia determina a hora em que o sono aparece à noite, e o envelhecimento reduz essa entrada por vários caminhos ao mesmo tempo. Entender essa engrenagem muda a ordem das tentativas dentro de casa: antes de ajustar remédio, vale ajustar o dia.

43%dos idosos que vivem em instituição de longa permanência têm distúrbio do sono
5.000 luxa intensidade a partir da qual a luz melhora a eficiência do sono
+8 pontosde eficiência do sono com terapia cognitivo-comportamental, sem nenhum medicamento

O relógio do corpo e o interruptor que é a luz

No centro do cérebro, logo acima do cruzamento dos nervos ópticos, existe um par de agrupamentos de neurônios do tamanho de um grão de arroz, o núcleo supraquiasmático. Ele funciona como relógio-mestre do organismo e comanda o horário de dezenas de processos: temperatura corporal, pressão arterial, produção de cortisol, fome, atenção e sono.

Esse relógio tem um defeito de fábrica útil. O ciclo próprio dele não dura exatamente vinte e quatro horas, e por isso precisa ser acertado todos os dias, como um relógio antigo que atrasa alguns minutos. O acerto vem da luz que entra pelos olhos.

A tarefa não cabe às células que usamos para enxergar. Uma parte pequena das células da retina contém um pigmento chamado melanopsina e não participa da formação da imagem: a função dela é medir quanta claridade existe no ambiente e avisar o relógio-mestre. Essas células respondem melhor à faixa azulada da luz, a mesma que predomina no céu aberto e é escassa na iluminação doméstica amarelada.

O recado que chega ao relógio se converte em hormônio. A melatonina, produzida pela glândula pineal, começa a subir cerca de duas horas antes do horário habitual de dormir e sinaliza ao corpo que a noite chegou. Luz forte nos olhos interrompe essa subida. Por isso a hora da exposição importa tanto quanto a quantidade: luz pela manhã adianta o relógio e faz o sono chegar mais cedo; luz à noite atrasa o relógio e empurra o sono para a madrugada.

Falta ainda a noção de escala, que costuma ser o ponto cego da conversa. A claridade se mede em lux. Um dia de sol aberto oferece entre 10.000 e 100.000 lux, e mesmo o céu nublado passa de 5.000. Uma sala doméstica bem iluminada fica entre 100 e 300 lux, e um quarto com luz acesa à noite raramente passa de 50. A diferença entre estar dentro e fora de casa chega a cem vezes, e o olho não a percebe, porque a visão se adapta e faz os dois ambientes parecerem igualmente claros. O relógio biológico, esse, percebe.

Por que o relógio do idoso perde a hora

O envelhecimento reduz a entrada de luz por três caminhos que se somam, e nenhum deles depende de descuido de quem cuida.

O olho filtra mais

Com o passar dos anos o cristalino amarelece e perde transparência, e a pupila diminui de tamanho, fenômeno conhecido como miose senil. Menos luz atravessa, e a parcela azulada, justamente a que o relógio biológico usa, é a mais retida. Catarata acentua o efeito, e a cirurgia devolve parte da claridade perdida. A relação entre idade e resposta não visual da luz não é simples nem uniforme, e a variação de um caso para outro é grande, com sinais de compensação em alguns idosos 3. Do ponto de vista prático, permanece a orientação de que o idoso precisa de mais claridade do que o adulto jovem para obter o mesmo acerto do relógio.

O dia acontece dentro de casa

Depois da aposentadoria, o motivo de sair pela manhã desaparece. A dificuldade para caminhar, a dor no joelho, a calçada irregular e o medo de cair reduzem ainda mais as saídas. O resultado é uma rotina em que o idoso passa o dia inteiro entre 100 e 300 lux, com curtos períodos de claridade real, e chega à noite sem que o relógio tenha recebido informação suficiente sobre a hora do dia. Em instituição de longa permanência o quadro se agrava, porque o corredor iluminado por lâmpada substitui o pátio, e a mesma iluminação fraca vale das sete da manhã às nove da noite.

A doença desmonta o relógio

Nas demências, o próprio núcleo supraquiasmático perde neurônios, e a produção de melatonina diminui. O relógio fica menos preciso e mais dependente das pistas externas, exatamente quando essas pistas ficam mais escassas, já que o idoso sai menos e passa mais tempo deitado. Daí vem a agitação do fim da tarde conhecida como sundowning, que aparece no horário em que a luz cai e o corpo não consegue mais dizer se é dia ou noite.

O efeito conjunto dos três caminhos costuma ser um adiantamento de fase: o idoso sente sono às sete da noite, dorme na poltrona, acorda às três da manhã e considera a noite terminada. O relógio não está parado, está apontando para outro horário.

O que acontece com a noite quando falta o dia

A primeira consequência é a fragmentação. O sono deixa de ocorrer em um bloco e se divide em pedaços, com despertares que se repetem. A soma das horas até parece aceitável, mas o descanso não se completa, porque o sono profundo depende de continuidade.

A segunda é o cochilo compensatório. Quem dorme mal à noite cochila durante o dia, e cada cochilo consome parte da pressão de sono que deveria se acumular até a hora de deitar. O ciclo se fecha sozinho, e cada volta o aperta um pouco mais.

A terceira é o risco que se instala na madrugada. Levantar no escuro, com sonolência, pressão baixa ao ficar de pé e chinelo solto reúne as condições clássicas de queda dentro de casa, assunto tratado na página sobre prevenção de quedas e segurança doméstica. Noites picadas também favorecem o delirium em quem já tem fragilidade cognitiva, sobretudo durante internação.

A quarta aparece no longo prazo. Distúrbio do sono e declínio cognitivo caminham juntos: a insônia acompanha aumento aproximado de 36% no risco de demência ao longo dos anos, e a apneia obstrutiva do sono, de 33% 10. Esses números pedem leitura cuidadosa, porque parte da alteração do sono é sinal precoce da própria doença neurológica, e não apenas causa dela. O que se pode afirmar com segurança é que sono ruim merece investigação em vez de conformismo, tema da página sobre sono e cognição no idoso.

O que a luz muda, e o quanto muda

A exposição controlada à claridade, chamada de luminoterapia ou fototerapia, consiste em oferecer luz intensa em horário definido, por período determinado. Entre idosos que vivem em instituição, a prática melhora a eficiência do sono, e três detalhes decidem o resultado 1.

A eficiência do sono é o tempo efetivamente dormido dividido pelo tempo passado na cama, em porcentagem. Quem deita às dez, levanta às seis e dorme seis dessas oito horas tem eficiência de 75%. Valores acima de 85% são considerados adequados, e é essa proporção, mais do que o total de horas, que traduz a qualidade da noite.

O primeiro dos três detalhes é a intensidade. O ganho a partir de 5.000 lux é mais que o dobro do observado com o conjunto das intensidades testadas. Abaixo disso, o resultado se dispersa. O segundo é a duração de cada sessão: períodos menores de uma hora concentram o efeito, o que afasta a ideia de que mais tempo produz mais benefício. O terceiro é a persistência: programas de até três semanas mostram o efeito mais nítido, indício de que o resultado aparece cedo quando a luz chega com a intensidade certa 1. Já o horário da aplicação, isoladamente, não separa os resultados, provavelmente porque o horário ideal depende da direção do problema em cada caso, se o sono está adiantado ou atrasado.

Ilustração de idosa sentada em um banco de varanda cercado de vasos de plantas, com o rosto voltado para o céu e a bengala apoiada ao lado
Vinte a quarenta minutos de varanda ou de calçada de manhã entregam mais claridade do que o dia inteiro em uma sala bem iluminada.

Na demência, o alcance vai além do sono. A exposição regular à luz melhora a qualidade do sono, reduz os despertares noturnos e organiza o ritmo de repouso e atividade ao longo do dia 4 5. Os efeitos maiores aparecem nos sintomas que mais desgastam a casa: agitação, humor deprimido e sintomas neuropsiquiátricos cedem com magnitude moderada 4. O desempenho cognitivo também melhora, com ganho médio de cerca de 2,7 pontos no miniexame do estado mental, o teste de rastreio de trinta pontos usado no consultório, embora esse número venha de poucos estudos 14.

Duas ressalvas acompanham esses números. A confiança nos resultados é limitada, porque os estudos disponíveis são pequenos e usam protocolos diferentes entre si 5, e nem toda revisão encontra os mesmos ganhos: em outra síntese, a luz reduz os despertares da noite sem diferença em agitação e humor 13. E o efeito da luz não é imediato nem espetacular: ele reorganiza um ritmo ao longo de dias, sem produzir sonolência na hora, como faz um comprimido. Quem espera efeito de remédio na primeira noite conclui que não funcionou e abandona a rotina antes de ela mostrar resultado.

A caixa de luminoterapia, e quando ela faz sentido

O equipamento de luminoterapia é um painel que entrega entre 2.500 e 10.000 lux a meio metro de distância. Está à venda no mercado brasileiro, custa o mesmo que um eletrodoméstico pequeno e não exige receita, embora exija orientação.

A primeira pergunta antes de comprar é se a luz natural já está disponível. Uma varanda ensolarada, uma janela ampla voltada para o leste ou uma calçada tranquila resolvem o problema sem gasto nenhum e ainda acrescentam movimento à rotina. O aparelho ganha lugar em três situações: quando o idoso não consegue sair de casa, quando o inverno ou a chuva interrompem a rotina por semanas e quando o horário de sol disponível não coincide com o momento em que a luz seria útil.

O uso segue regras simples. O painel fica a cerca de meio metro do rosto, ligeiramente acima da linha dos olhos, sem que o idoso olhe diretamente para ele. A sessão acontece durante uma atividade comum, como tomar café, ouvir rádio ou conversar, de preferência nas duas primeiras horas depois de acordar, e dura de vinte a quarenta minutos. Consistência importa mais do que duração: quinze minutos todos os dias valem mais do que uma hora aos sábados.

Algumas condições pedem conversa com o médico antes de começar: doença de retina, degeneração macular, glaucoma, cirurgia ocular recente, transtorno bipolar, pelo risco de virada de humor, e o uso de medicamentos que aumentam a sensibilidade à luz, como alguns antibióticos, diuréticos e antipsicóticos. Dor de cabeça, irritação nos olhos e agitação nas primeiras sessões costumam ceder com redução do tempo de exposição ou aumento da distância.

O que se confunde com relógio desregulado

Antes de atribuir a noite ruim à falta de luz, cabe percorrer as causas que se apresentam do mesmo jeito e têm tratamento próprio.

A apneia obstrutiva do sono é a primeira delas. Ronco alto, pausas na respiração percebidas por quem dorme junto, engasgo noturno, boca seca ao acordar, dor de cabeça matinal e sonolência que persiste depois de noites longas formam o conjunto típico. Ela é frequente e subdiagnosticada no idoso, e nenhum ajuste de rotina resolve o quadro.

A noctúria vem em seguida, e a relação dela com o sono costuma ser lida ao contrário. Levantar para urinar três vezes ou mais por noite fragmenta o sono, e a insônia também aumenta a percepção de bexiga cheia, já que quem acorda por outro motivo acaba indo ao banheiro. Quem tem insônia apresenta quase o dobro de chance de ter noctúria, e o tratamento da insônia reduz o número de idas ao banheiro, o que sugere qual dos dois puxa o outro 12. O horário do diurético, a quantidade de líquido depois do jantar e, nos homens, o aumento da próstata entram nessa revisão.

A síndrome das pernas inquietas aparece como necessidade de mexer as pernas ao deitar, com desconforto que melhora ao caminhar e piora no fim do dia. Tem tratamento específico e relação frequente com falta de ferro.

A dor desperta e impede o retorno ao sono, sobretudo a lombalgia crônica e a dor da artrose de quadril e de joelho, que incomodam ao mudar de posição na cama.

A depressão costuma se apresentar no idoso mais por despertar precoce, cansaço e perda de interesse do que por tristeza declarada, e a insônia é um dos sintomas que aparecem primeiro.

Os medicamentos fecham a lista, e essa causa é a mais fácil de corrigir. Diuréticos tomados à tarde, corticoides, alguns antidepressivos, broncodilatadores, medicamentos para Parkinson e descongestionantes atrapalham o sono. O raciocínio é o mesmo descrito na página sobre polifarmácia: a lista completa precisa ser revista pelo médico prescritor, incluindo o que se compra sem receita.

Um sinal muda a urgência de tudo. Confusão mental que se instala em horas ou poucos dias, oscila ao longo do dia e vem acompanhada de alteração da atenção não é problema de sono: é delirium, e pede avaliação médica no mesmo dia.

O que funciona além da luz

Quando se comparam entre si vinte e uma abordagens não medicamentosas para o sono do idoso, a terapia cognitivo-comportamental para insônia ocupa o primeiro lugar, com folga sobre as demais, e o benefício é ainda maior em quem tem sono de pior qualidade no início 6. O programa é curto, de quatro a oito encontros, conduzido por psicólogo ou profissional treinado, disponível também em formato remoto.

O nome da terapia soa complicado e o conteúdo é concreto. O programa organiza horário fixo para levantar, restringe o tempo na cama ao tempo em que o idoso realmente dorme, retira da cama as atividades que não são dormir, orienta sair do quarto quando o sono não vem em vinte minutos e trabalha os pensamentos que alimentam a ansiedade de deitar, do tipo "se eu não dormir agora, amanhã não presto". Os resultados são objetivos: a eficiência do sono sobe cerca de 8 pontos percentuais, o tempo até pegar no sono cai cerca de nove minutos e o tempo acordado no meio da noite diminui cerca de vinte e três minutos 7.

Um dos números acima merece explicação, porque assusta quem lê pela primeira vez: o tempo total dormido diminui um pouco no começo, cerca de doze minutos 7. A troca é deliberada. O programa concentra o sono em um bloco contínuo em vez de espalhá-lo pela noite, e o descanso melhora mesmo com o total ligeiramente menor.

A atividade física regular vem logo atrás nessa comparação, e o efeito é duplo: aumenta a pressão de sono acumulada durante o dia e, quando praticada ao ar livre pela manhã, entrega a claridade de que o relógio precisa. Caminhada, exercício em grupo e práticas de movimento lento com controle respiratório aparecem entre as abordagens úteis, e essas últimas rendem mais quando praticadas dentro de casa 6. A página sobre atividade física para idosos detalha o que fazer e em que intensidade.

A música, ouvida antes de deitar, mostra bom resultado em quem tem alteração leve do sono 6, e o mesmo vale para técnicas de relaxamento e respiração. São recursos de baixo custo, sem efeito adverso, que ajudam sobretudo quem já dorme razoavelmente e quer dormir melhor.

Uma ressalva acompanha essa comparação: a confiança nas estimativas é baixa, e os números indicam direção mais do que medida exata 6. A hierarquia entre as opções, no entanto, é clara o bastante para orientar a primeira tentativa.

O que atrapalha mais do que ajuda

Algumas soluções populares cobram caro e entregam pouco.

Remédio para dormir de uso contínuo

Benzodiazepínicos mantêm o sono, e essa é a única boa notícia a respeito deles nessa faixa etária. O custo aparece em sedação que atravessa a manhã, lentidão de reação, desequilíbrio ao levantar de madrugada, queda, fratura e piora da memória, e por isso a recomendação é reduzir o uso em idosos 8. O uso de hipnóticos em geral acompanha aumento aproximado de 23% no risco de demência, com relação de dose, e a associação se acentua em quem usa por mais de um ano 9. Sínteses mais recentes divergem quanto ao tamanho desse risco, assunto detalhado na página sobre remédio para dormir no idoso.

Esse dado não autoriza suspender nada por conta própria. A interrupção brusca provoca insônia de rebote, ansiedade e sintomas de abstinência, às vezes graves. A redução é planejada com o médico prescritor, feita em etapas lentas, e funciona melhor quando uma alternativa não medicamentosa entra no lugar antes de a retirada começar.

Melatonina como solução isolada

A melatonina encurta um pouco o tempo até pegar no sono e aumenta um pouco o tempo total dormido em idosos, sem alterar a eficiência do sono, ou seja, sem reduzir os despertares no meio da noite 11. O efeito é modesto e o perfil de segurança é favorável, o que torna a substância uma opção razoável diante de alternativas piores. O erro comum é usá-la como sedativo, na hora em que o sono não vem. Ela funciona como sinalizador de horário e depende de ser tomada sempre no mesmo momento, algumas horas antes de deitar, com orientação médica quanto à dose.

Cochilo longo e televisão ligada

Cochilo de vinte a trinta minutos logo após o almoço é compatível com boa noite de sono. Cochilo de uma ou duas horas, ou depois das três da tarde, consome a pressão de sono do dia e desloca o horário de dormir. Cochilar na poltrona com a televisão ligada reúne os dois problemas: induz o cochilo do fim da tarde e entrega luz nos olhos no horário em que o corpo deveria estar recebendo escuro.

Erros comuns na hora de arrumar a noite

Seis raciocínios aparecem com frequência dentro de casa, e todos atrasam a solução.

Antecipar a hora de deitar. Quem não dorme às dez tende a ir para a cama às oito, na esperança de aproveitar melhor a noite. O resultado é mais tempo acordado no escuro, e a cama passa a ser o lugar onde se espera o sono, não onde se dorme.

Deixar o idoso dormir até tarde depois de uma noite ruim. O horário de levantar é a âncora mais forte do relógio biológico, e mantê-lo fixo, mesmo depois de uma noite difícil, é o que permite a recuperação na noite seguinte.

Contar com a claridade da sala. A iluminação doméstica é confortável para os olhos e insuficiente para o relógio. Sem tempo perto da janela, na varanda ou na rua, o sinal não chega.

Esperar resultado em três dias. A reorganização do ritmo leva de duas a três semanas de rotina estável, e o abandono precoce é a causa mais comum de fracasso.

Tratar a noite e esquecer o dia. Ambiente escuro, silencioso e fresco ajuda, mas não corrige um dia inteiro passado na penumbra, com poucas horas fora da cama.

Aceitar a insônia como parte natural da idade. O sono muda com os anos, ficando mais leve e mais adiantado, mas noite mal dormida semana após semana não é destino, e a maior parte das causas tem tratamento.

Do amanhecer à cama: por onde começar em casa

O primeiro passo é medir o que acontece hoje. Anote por sete dias, em uma folha simples, a hora de deitar, a hora estimada de adormecer, os despertares da noite, a hora de levantar e cada cochilo do dia, com duração. Esse registro revela padrões que a memória do dia a dia não guarda e é o documento mais útil que se pode levar à consulta.

O segundo passo é reconstruir a manhã. Nas duas primeiras horas depois de acordar, leve o idoso para a claridade real: varanda, quintal, calçada ou a cadeira encostada na janela mais clara da casa, com a cortina aberta. Vinte a quarenta minutos bastam. Se houver companhia e segurança para caminhar, melhor ainda, porque luz e movimento se somam.

O terceiro passo é dar contorno ao dia. Refeições em horários fixos, contato com outras pessoas, alguma tarefa doméstica ao alcance e atividade física distribuída pelo dia, sem exercício vigoroso nas duas horas antes de dormir. Cochilo, se houver, curto e logo depois do almoço.

Ilustração vertical de quarto à noite, com abajur aceso ao lado da cama, chinelos no chão e a porta entreaberta com luz baixa marcando o caminho
Luz baixa e quente no fim da noite protege o sono, e o trajeto até o banheiro continua sinalizado.

O quarto passo é reduzir a luz do fim da noite. Duas horas antes de deitar, apague a iluminação central e use abajur de luz amarelada, deixe a televisão fora do quarto e reduza o brilho do celular. Um cuidado parece contradizer o anterior: o caminho até o banheiro precisa continuar iluminado, com luz baixa e quente junto ao rodapé, porque queda de madrugada custa mais caro do que alguns minutos de claridade. A página sobre adaptação do ambiente domiciliar detalha esse arranjo.

O quinto passo é preparar o quarto. Escuro, silencioso, entre 18 e 22 graus, cama usada apenas para dormir. Se o sono não vier em cerca de vinte minutos, levantar, ir para outro cômodo com luz baixa, ler algo leve e voltar quando o sono aparecer.

Nem toda noite ruim se resolve com rotina. Procure atendimento médico no mesmo dia quando a confusão mental surgir em horas ou poucos dias e oscilar ao longo do dia, quando houver dor no peito ou falta de ar ao deitar, ou quando a sonolência for tão intensa que impeça a alimentação. Marque consulta nas próximas semanas diante de ronco com pausas na respiração, sonolência diurna persistente apesar de noites longas, três ou mais idas ao banheiro por noite, pernas que obrigam a levantar da cama, tristeza mantida por mais de duas semanas, ou insônia que persiste por mais de três meses mesmo com a rotina ajustada.

Na consulta, leve o registro de sete dias e a lista completa de medicamentos, incluindo os de venda livre e os chás. Faça três perguntas objetivas: se algum desses remédios pode estar atrapalhando o sono ou se o horário dele pode mudar, se há indicação de investigar apneia do sono neste caso e qual alternativa não medicamentosa começar agora. Anote as respostas e marque o retorno antes de sair, porque o intervalo entre uma consulta e outra é onde a maioria dos planos se perde.

A noite do idoso começa a ser decidida de manhã

O relógio do corpo se acerta pela claridade que recebe durante o dia, e a luz de dentro de casa não chega perto da que vem do céu.

Clarear

Vinte a quarenta minutos de luz natural nas duas primeiras horas depois de acordar.

Movimentar

Atividade distribuída pelo dia e cochilo curto acumulam sono para a noite.

Escurecer

Luz baixa e quente nas duas horas antes de deitar, com o caminho do banheiro sinalizado.

Perguntas frequentes

Idoso que dorme de dia e fica acordado à noite tem insônia?
Nem sempre. Quem dorme quatro horas espalhadas pela tarde e passa a madrugada acordado costuma ter um relógio biológico sem referência, e não falta de sono. A diferença aparece na soma do dia inteiro: na insônia o total dormido em vinte e quatro horas é pequeno, no ritmo desorganizado o total é razoável, só que distribuído na hora errada. O tratamento também muda. O relógio desorganizado responde a luz de manhã, atividade durante o dia e escuro à noite, enquanto o remédio para dormir tende a piorar o quadro, porque acrescenta sonolência diurna a quem já cochila demais.
Quanta luz é necessária e como saber se a de casa basta?
A luz interna de uma casa bem iluminada fica entre 100 e 300 lux, e a sombra de uma varanda em dia claro passa de 10.000. A diferença é grande e o olho não percebe, porque a visão se adapta e faz os dois ambientes parecerem parecidos. Para efeito prático vale uma regra simples: se a claridade vem de lâmpada, não conta; se vem do céu, conta. Um aplicativo de medição de luz no celular resolve a dúvida em segundos e costuma surpreender quem acha que a sala é clara.
Qual é a melhor hora para tomar luz?
A manhã, nas duas primeiras horas depois de acordar. Luz nesse período adianta o relógio e faz o sono chegar mais cedo à noite. Luz forte no fim da noite produz o efeito contrário, empurra o sono para mais tarde. Para quem já dorme cedo demais e acorda de madrugada, a orientação se inverte e a luz passa a ser oferecida no fim da tarde, sob orientação profissional, porque nesse caso o objetivo é atrasar o relógio.
Lâmpada comum de casa serve para regular o sono?
Para regular o relógio biológico, não. A iluminação doméstica costuma ficar dez a cem vezes abaixo da claridade de um ambiente externo, mesmo em dia nublado. Trocar lâmpadas por modelos mais potentes melhora a visão de quem tem catarata e reduz risco de tropeço, o que já justifica a mudança, mas não substitui o tempo passado perto da janela, na varanda ou na rua.
A caixa de luminoterapia funciona?
Funciona quando a intensidade e o horário são respeitados. O ganho de eficiência do sono mais que dobra a partir de 5.000 lux, e sessões de menos de uma hora, mantidas por poucas semanas, concentram o resultado. O equipamento fica a cerca de meio metro do rosto, ligeiramente acima da linha dos olhos, sem que o idoso olhe diretamente para ele, enquanto toma café ou ouve rádio. Quem tem doença de retina, degeneração macular, glaucoma, transtorno bipolar ou usa medicamento que aumenta a sensibilidade à luz precisa conversar com o médico antes de começar.
Melatonina resolve o problema?
O efeito existe e é modesto. A melatonina encurta um pouco o tempo até pegar no sono e aumenta um pouco o tempo total dormido em idosos, sem mudar a eficiência do sono, ou seja, sem reduzir os despertares no meio da noite. Ela funciona como sinalizador de horário, não como sedativo, e por isso depende de ser tomada sempre no mesmo horário, algumas horas antes de deitar. Dose e indicação são decisão médica, sobretudo em quem já usa vários medicamentos.
O remédio para dormir faz mal ao idoso?
Benzodiazepínicos e os chamados hipnóticos Z mantêm o sono, e cobram por isso: sedação que atravessa a manhã, desequilíbrio ao levantar de madrugada, queda, fratura e confusão. O uso de hipnóticos acompanha aumento de cerca de 23% no risco de demência, com relação de dose, e a associação é mais forte em quem usa por mais de um ano e em dose alta, embora sínteses mais recentes divirjam quanto ao tamanho desse risco. Isso não significa retirar de uma hora para outra: interrupção brusca provoca insônia de rebote e sintomas de abstinência. A redução é planejada com o médico prescritor, em etapas, com uma alternativa não medicamentosa entrando no lugar.
O cochilo depois do almoço atrapalha o sono da noite?
Depende do tamanho e da hora. Um cochilo de vinte a trinta minutos, logo depois do almoço, é compatível com boa noite de sono e faz parte da rotina de muitos idosos. O que desorganiza a noite é o cochilo longo, de uma ou duas horas, e o cochilo que acontece no fim da tarde, porque consome a pressão de sono acumulada durante o dia. Cochilo que só aumenta, mesmo com noites longas, é sinal de sonolência excessiva e merece investigação, com atenção especial para apneia do sono e efeito de medicamento.
Quando a dificuldade para dormir precisa de médico?
Quando há ronco alto com pausas na respiração observadas por quem dorme junto, sonolência que atrapalha o dia mesmo após noites longas, necessidade de urinar três vezes ou mais por noite, dor que desperta, pernas que obrigam a levantar da cama, tristeza persistente e perda de interesse, ou quando a confusão mental aparece em poucos dias e oscila ao longo do dia. Vale procurar também quando a dificuldade persiste por mais de três meses, apesar de rotina de luz, atividade e horários já ajustada.

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