Ilustração de senhora idosa sentada na beira da cama à noite, com o abajur aceso e um frasco de cápsulas e um copo de água na mesa de cabeceira
Saúde e envelhecimento

Magnésio para dormir no idoso

A prateleira da farmácia traz uma sigla diferente em cada frasco, e todas prometem a mesma noite inteira de sono. O que o magnésio faz depois dos 60 é menor do que a propaganda e maior do que nada.

Atualizado em 13 de setembro de 2026. Conteúdo de Rubens Alves de Lima, fisioterapeuta, CREFITO 4/277587-F.

Magnésio para dormir: o que ele faz e o que não faz

Resposta curta

O magnésio ajuda pouco no sono, e ajuda mais quem estava com o mineral baixo. Em idosos com insônia, ele encurta em cerca de 17 minutos o tempo até pegar no sono e quase não muda o total de horas dormidas. A forma mais sensata para a noite é o bisglicinato, de 200 a 350 mg de magnésio elementar, uma a duas horas antes de deitar. Magnésio não é tratamento de insônia e não substitui o ajuste do que já se toma.

O magnésio é um mineral que o corpo não fabrica e que participa de mais de trezentas reações do organismo, entre elas o batimento do coração, a contração do músculo, a condução do nervo e a fixação do cálcio no osso 10,11. Um adulto carrega por volta de 25 gramas dele, e mais da metade fica presa dentro do osso. Nada disso, por si, explica a fila de potes na farmácia: o que criou a fila foi a promessa de dormir.

A promessa tem fundamento, e ele é mais modesto do que o rótulo sugere. Existe uma diferença grande entre repor o que falta e tomar um comprimido para dormir, e é justamente essa diferença que se perde no balcão. Quem tem o estoque baixo costuma dormir melhor quando o repõe. Quem já tem magnésio suficiente toma a cápsula, espera o efeito e não encontra nada 1.

Depois dos 60 anos, a chance de o estoque estar baixo é maior, e por motivos que se somam: o prato encolhe e perde verdura, grão e castanha; o intestino absorve menos do que absorvia; e o rim devolve menos magnésio para o sangue do que devolvia 10. Some a isso os remédios de uso contínuo, que são muitos nessa faixa de idade, e a conta de quem realmente precisa repor começa a fechar.

17 mina menos para pegar no sono, o ganho medido em idosos com insônia que passam a tomar magnésio
8 em cada 10brasileiros adultos não chegam ao magnésio recomendado só com a comida do dia
350 mgé o máximo que pode vir de suplemento por dia, e acima disso o intestino cobra a conta

Por que o magnésio entrou na conversa do sono

Dentro do sistema nervoso, o magnésio trabalha dos dois lados da balança que decide entre acordar e desligar. Ele ocupa a porta de um receptor chamado NMDA, que é uma das vias de excitação do cérebro, e segura essa porta fechada enquanto o nível de magnésio está adequado. Ao mesmo tempo, ele favorece a ação do GABA, o principal freio natural do sistema nervoso, o mesmo freio que os remédios para dormir apertam à força 4,10.

Quando o magnésio falta, esse conjunto se inclina para o lado da excitação. O resultado que a família descreve é conhecido: a pessoa deita cansada e não desliga, acorda várias vezes, tem a musculatura tensa no fim da tarde, fica irritada com pouco. São queixas inespecíficas, que também aparecem no envelhecimento sem falta nenhuma de mineral, e é por isso que ninguém deveria diagnosticar carência de magnésio pelo sintoma 10.

Há ainda um segundo caminho, o do relógio biológico. O magnésio participa da produção de melatonina e da variação do cortisol ao longo do dia, os dois sinais químicos que organizam a hora de dormir e a hora de acordar 21. Esse é o ponto onde o mineral encosta no assunto de luz e sono no idoso: a claridade do dia continua sendo o sincronizador mais forte do relógio, e nenhum suplemento compete com ela.

Nada nesse mecanismo transforma o magnésio em sedativo. Ele não desliga o cérebro, não força o sono e não deixa ninguém grogue no dia seguinte. O que ele faz é devolver uma condição de funcionamento a quem está sem ela, o que é bem diferente de induzir o sono em quem já tem o mineral em dia.

Ilustração em duas cenas do mesmo quarto: à esquerda a senhora deitada de olhos abertos com o abajur aceso, à direita a mesma senhora dormindo com a luz apagada
As duas noites da mesma pessoa. O magnésio atua no freio, nunca no interruptor: devolve uma condição de funcionamento a quem está sem ela e não induz o sono em quem já tem o mineral em dia.

Magnésio para dormir funciona no idoso?

Funciona um pouco, e o tamanho desse pouco merece ser dito com números. Em idosos com insônia, o magnésio encurta em cerca de 17 minutos o tempo que se leva para pegar no sono, e o ganho no total de horas dormidas fica em torno de 16 minutos, sem se confirmar 2. O número da latência é atraente e frágil ao mesmo tempo: ele nasce de poucos participantes, com medidas que dependem do que a própria pessoa relata.

A medida mais usada para julgar insônia é o Índice de Gravidade da Insônia, um questionário de sete perguntas que vai de 0 a 28 pontos, em que acima de 15 se considera insônia moderada. Em adultos que dormem mal, a cápsula de bisglicinato derruba 3,9 pontos nessa escala, contra 2,3 pontos do placebo 3. A diferença real, portanto, é de 1,6 ponto, e uma melhora que a pessoa sente na vida costuma exigir 6 pontos ou mais. O efeito existe, é mensurável e cabe quase inteiro dentro do que se considera ruído clínico.

A soma de tudo o que se testou até hoje chega a uma conclusão desconfortável para o marketing: o magnésio não sustenta a posição de tratamento de rotina para insônia, e a confiança nos resultados é baixa ou muito baixa 1. O ganho aparece num item relatado pelo paciente aqui, some ali, e as medidas objetivas de sono, as que vêm de exame ou de aparelho, quase nunca acompanham o que a pessoa diz sentir 1,4.

No meio dessa discussão está o detalhe mais útil na prática: o ganho se concentra em quem comia pouco magnésio antes de começar 3. Vale aqui a mesma lógica da vitamina D: repor em quem está baixo muda alguma coisa, e repor em quem está normal não muda nada. Quem monta a expectativa por aí erra menos.

Tipos de magnésio: qual é a diferença

O magnésio puro não existe em frasco: ele vem sempre de mãos dadas com outra substância, e é esse par que o rótulo chama de dimalato, citrato, treonato, óxido. O acompanhante define quanto magnésio de verdade cabe em cada cápsula, quanto disso o intestino consegue absorver e o quanto o estômago reclama. De modo geral, as formas orgânicas, ligadas a ácidos ou a aminoácidos, se dissolvem melhor e são mais bem absorvidas que as inorgânicas 8,9.

A proporção de magnésio elementar é a primeira coisa a conferir, e ela varia muito. Um comprimido de 500 mg de citrato entrega por volta de 80 mg de magnésio; os outros 420 mg são citrato. Essa é a razão de duas embalagens com o mesmo número grande na frente entregarem doses completamente diferentes.

Óxido de magnésio

O mais barato e o mais vendido, com a maior proporção de magnésio elementar, perto de 60%, e a pior absorção de todas. Ele é pouco solúvel em água, e o que não se dissolve não atravessa a parede do intestino: fica no caminho, puxa água e amolece as fezes 9. Essa característica explica o leite de magnésia e o uso como laxante. Como suplemento de sono, é a pior escolha da lista, e ainda assim é o que costuma vir nos frascos genéricos de farmácia.

Citrato de magnésio

Cerca de 16% de magnésio elementar, boa solubilidade e boa absorção, com preço acessível 9. Funciona bem para repor o mineral, com uma ressalva conhecida de quem já tomou: em dose mais alta, ele acelera o intestino. Quem convive com constipação intestinal às vezes vê nisso uma vantagem dupla; quem tem intestino solto encontra ali o motivo para abandonar o frasco na segunda semana.

Bisglicinato, também chamado de glicinato

Cerca de 14% de magnésio elementar, ligado ao aminoácido glicina. Essa é a forma mais suave no aparelho digestivo, a que menos solta o intestino, e foi com ela que se mediu a melhora na escala de insônia citada acima 3. A glicina, sozinha, também tem relação com o sono, o que torna difícil separar o que vem do mineral e o que vem do acompanhante. Para quem quer testar magnésio à noite e tomar outros remédios sem sobressalto, é a escolha mais defensável, e costuma ser a mais cara.

Dimalato de magnésio, ou malato

Perto de 15% de magnésio elementar, ligado ao ácido málico, o mesmo ácido da maçã. Absorve bem e é tolerado sem grande queixa. O ácido málico participa da produção de energia dentro da célula, o que deu ao dimalato a fama de combater fadiga e dor muscular difusa. Essa fama corre à frente do que existe medido, e para o sono não há vantagem alguma sobre as outras formas orgânicas.

Treonato de magnésio

A menor proporção da lista, cerca de 8% de magnésio elementar, ligado ao ácido treônico. Essa é a forma vendida com a promessa de chegar ao cérebro, e a mais cara de todas. A dose usual de 2 gramas do composto entrega por volta de 150 mg de magnésio, menos do que uma cápsula comum de citrato, e o assunto merece um parágrafo próprio, que vem adiante.

Cloreto de magnésio

Cerca de 12% na forma hidratada, com boa solubilidade e boa absorção 9. Custa pouco, tem gosto amargo na versão em pó e solta o intestino com facilidade. O cloreto de magnésio PA, vendido a granel e popular como receita caseira, é justamente essa forma, e o problema dele nunca foi a absorção: é a dose, que fica por conta de quem prepara.

Taurato de magnésio

Perto de 9% de magnésio elementar, ligado ao aminoácido taurina. Vem promovido para pressão e coração, com base mais na taurina do que no magnésio, e o que existe medido em gente é pouco. Não há motivo para pagar mais por ele com o sono em mente.

Lactato, carbonato e hidróxido

O lactato tem cerca de 12% e boa tolerância, e aparece em apresentações de farmácia. O carbonato, com 29%, e o hidróxido, com 42%, são inorgânicos, mal absorvidos e usados sobretudo como antiácido e laxante. O leite de magnésia é hidróxido de magnésio, e ninguém o toma para dormir.

Sulfato de magnésio, o sal amargo

Esse é o sal de Epsom do banho de imersão e o remédio injetável usado no hospital em situações específicas. Por via oral, funciona como purgante. A ideia de absorver magnésio pela pele no banho é agradável e não tem sustentação: o que se mede depois do banho é relaxamento, não reposição.

Ilustração de dois potes de suplemento lado a lado sobre a mesa, um deles virado de costas mostrando o painel da tabela nutricional, ao lado de um copo de água e de óculos de leitura
O número grande na frente do frasco é o peso do sal inteiro. O que interessa é o magnésio elementar, escrito em miligramas na tabela nutricional do verso.

Magnésio dimalato serve para dormir?

O dimalato virou o mais procurado nas farmácias brasileiras, e a procura tem mais a ver com a internet do que com o sono. Ele é um magnésio bem absorvido, bem tolerado e com proporção decente de mineral por cápsula, o que já basta para ser uma escolha correta de reposição.

O que não se sustenta é a hierarquia que a propaganda criou. Não existe vantagem medida do dimalato sobre o citrato ou o bisglicinato para dormir, nem para cansaço, nem para dor difusa 1,8. Quem toma dimalato e dorme melhor está colhendo o efeito do magnésio, e teria colhido o mesmo com outra forma orgânica na mesma dose de mineral.

Um detalhe prático pesa mais do que a escolha da sigla. Boa parte dos frascos de dimalato traz de 100 a 130 mg de magnésio elementar por cápsula, de modo que a dose do rótulo, uma cápsula ao dia, deixa a pessoa bem abaixo da faixa em que se observou algum efeito no sono. Antes de trocar de marca, vale conferir se a dose que se está tomando chega perto de 200 mg.

Magnésio treonato serve para a memória?

O treonato nasceu de uma ideia específica: encontrar uma forma que aumente o magnésio dentro do cérebro, e não apenas no sangue. Essa ideia se sustenta razoavelmente bem no laboratório e em animais: ali o treonato melhora memória e aprendizado e mexe em marcadores ligados à doença de Alzheimer 5.

Em pessoas, o quadro fica mais modesto. Adultos que dormem mal e tomam treonato descrevem melhora no desempenho cognitivo geral, na memória de trabalho e no tempo de reação, sem que as medidas objetivas de sono acompanhem 6. Esse resultado vem com ressalvas que precisam andar junto com ele: a maioria dos participantes tem menos de 55 anos, o sono melhora sobretudo no que a pessoa relata e o que existe é financiado por quem fabrica o ingrediente 5,6.

A soma do que existe sobre magnésio e cognição autoriza pouco: não há prova de que o suplemento melhore a memória de quem já tem magnésio suficiente 7. O que se observa é outra coisa, e vale conhecer. No sangue, existe uma faixa ideal em torno de 2,1 mg/dL: abaixo de 1,8, o risco de demência sobe cerca de 40%, e acima de 2,3 ele sobe cerca de 30% 7. Os dois extremos incomodam, o que derruba de uma vez a lógica de que mais magnésio é sempre melhor.

Para quem já convive com dificuldade cognitiva ou com diagnóstico de declínio cognitivo leve, o treonato não é tratamento, não muda o curso da doença e não deve ocupar o lugar do que muda: exercício, controle da pressão, correção da audição e sono tratado de verdade.

Qual o melhor magnésio para dormir

A ordem de preferência para a noite, somadas absorção, tolerância, evidência e preço, fica assim.

O bisglicinato ocupa o primeiro lugar: absorve bem, é o mais gentil com o intestino e é a forma com a qual se mediu alguma melhora no sono. O citrato e o dimalato vêm logo atrás, com absorção equivalente e preço menor, e o citrato tem a ressalva de soltar mais o intestino. O cloreto e o lactato funcionam e são menos comuns nas prateleiras. O treonato só entra na conversa de quem busca cognição, sabendo o quanto essa promessa ainda é fina, e sabendo que ele entrega pouco mineral por cápsula. O óxido fica de fora, salvo quando a intenção é mesmo soltar o intestino.

Vale repetir o que essa ordem não significa. Nenhuma forma de magnésio é hipnótica, nenhuma delas substitui tratamento de insônia e a diferença entre as primeiras colocadas é pequena o bastante para que o preço decida. Entre um bisglicinato caro que vai acabar em duas semanas e um citrato barato que se mantém por três meses, o segundo resolve mais.

Quanto de magnésio tomar e a que horas

A recomendação diária para quem passou dos 50 anos, somando comida e suplemento, é de 420 mg para homens e 320 mg para mulheres 11. Essa conta inclui o prato, e é por isso que quase ninguém precisa suplementar a recomendação inteira.

Do que vem de cápsula, existe um teto: 350 mg de magnésio elementar por dia 11. Acima disso, a diarreia deixa de ser efeito possível e passa a ser efeito provável. Quem toma magnésio por causa do sono costuma ficar entre 200 e 350 mg de magnésio elementar, tomados de uma a duas horas antes de deitar. Quem passa do teto não dorme melhor; apenas acorda mais vezes para ir ao banheiro.

Alguns detalhes de rotina mudam o resultado mais do que a marca escolhida. O magnésio é mais bem absorvido junto de uma refeição, e em doses divididas ao longo do dia a proporção aproveitada é maior do que numa dose única grande 8. A resposta, quando existe, aparece em três a quatro semanas, não na primeira noite. E se a pessoa toma levotiroxina, remédio de osteoporose ou determinados antibióticos, o magnésio precisa ficar longe desses horários, assunto que volta adiante.

Nada disso é prescrição. O fisioterapeuta não indica suplemento, e a dose, a checagem dos remédios em uso e o acompanhamento pertencem ao médico ou ao nutricionista. O que cabe aqui é chegar à consulta sabendo o que perguntar.

Como saber se está faltando magnésio

O exame de sangue é o caminho óbvio e o menos útil. Menos de 1% do magnésio do corpo circula no sangue: o resto está guardado dentro do osso e das células, e o organismo defende o valor do sangue tirando do osso quando precisa 10,11. O resultado prático é um exame que pode sair normal com o estoque já baixo.

A faixa de referência do magnésio sérico fica entre 1,8 e 2,3 mg/dL. Um valor abaixo disso confirma a falta e merece investigação de causa. Um valor dentro da faixa não garante coisa alguma, e é esse o ponto que costuma passar despercebido na consulta rápida.

A ingestão pela comida conta outra história, e ela é constrangedora: mais de 80% dos adultos brasileiros não chegam à recomendação de magnésio pelo que comem, número medido em uma população urbana e coerente com o que se vê no mundo inteiro 13,14. Ainda assim, a falta de magnésio no sangue é bem menos comum do que a falta no prato, porque o corpo compensa por um bom tempo antes de deixar o valor cair 13.

Na prática, a pergunta mais produtiva não é qual o valor do exame, e sim quantos motivos de perda a pessoa acumula. Essa lista vem a seguir.

Ilustração vertical de uma mesa de cabeceira com caixa organizadora de remédios, receita médica e copo de água, sugerindo os medicamentos de uso contínuo que reduzem o magnésio
Diurético e protetor de estômago de uso prolongado estão entre os motivos mais comuns de magnésio baixo no idoso, e nenhum dos dois aparece como queixa.

O que faz o magnésio baixar no idoso

Alguns grupos chegam ao magnésio baixo por caminhos previsíveis, e reconhecê-los vale mais do que qualquer suplemento tomado no escuro.

Quem usa diurético

Os diuréticos de alça, como a furosemida, e os tiazídicos, como a hidroclorotiazida, aumentam a perda de magnésio pela urina. Como são remédios de uso diário em quem tem pressão alta ou insuficiência cardíaca, a perda acontece todo dia, por anos, sem sintoma que denuncie 11,13.

Quem toma protetor de estômago há anos

Omeprazol, pantoprazol e os demais da família reduzem a acidez do estômago, e sem acidez o magnésio se dissolve pior e é menos absorvido. O uso prolongado é um motivo reconhecido de magnésio baixo, e a situação é mais comum do que parece, porque esses remédios com frequência ficam na receita por inércia 11,12. Vale revisar essa lista dentro da conversa sobre polifarmácia.

Quem tem diabetes

Com a glicemia alta, o açúcar em excesso arrasta magnésio na urina. Quem convive com diabetes descompensado tem risco maior de magnésio baixo no sangue, e a falta de magnésio, por sua vez, piora a resistência à insulina, num ciclo que se alimenta sozinho 13.

Quem bebe com frequência ou tem diarreia crônica

O álcool aumenta a perda renal e reduz a ingestão. A diarreia persistente, a doença celíaca, a doença de Crohn e as cirurgias que encurtam o intestino reduzem a absorção na origem 10,11.

Quem come pouco do que tem magnésio

Um prato sem feijão, sem verdura escura, sem castanha e sem grão integral entrega pouco magnésio, e essa é a descrição de muitas refeições depois dos 75 anos, quando o apetite cai e a comida fica mais mole e mais simples. A conversa aqui é a mesma da nutrição na fragilidade: o que falta raramente é um nutriente isolado.

O que o magnésio não resolve no sono

Boa parte da insônia depois dos 60 anos tem causa identificável, e nenhuma dessas causas melhora com mineral. Vale conferir esta lista antes de comprar qualquer frasco, porque o suplemento que ocupa o lugar do diagnóstico atrasa o tratamento que funcionaria.

A apneia do sono é a primeira da fila, e se manifesta como ronco alto, pausas na respiração, sono que não descansa e sonolência de dia. A segunda é a nictúria, a ida repetida ao banheiro à noite, que costuma ter causa urológica, cardíaca ou de horário de diurético. A terceira é a dor, que acorda e impede de voltar a dormir. A quarta é o remédio: o comprimido para dormir de uso prolongado deteriora a arquitetura do sono e aumenta o risco de queda, e o magnésio não desmama ninguém dele.

Somam-se a essas a depressão e a solidão, que mudam o sono de forma característica, com despertar precoce de madrugada, e a demência, em que o relógio biológico se desorganiza e a noite se inverte. Nesses quadros, o caminho passa por luz forte pela manhã, rotina estável, atividade durante o dia e tratamento da causa, assunto desenvolvido em sono e cognição no idoso.

Para a insônia crônica sem causa clínica evidente, o tratamento de primeira escolha continua sendo a terapia cognitivo-comportamental para insônia, que ensina a mudar horário, permanência na cama e comportamento noturno. Ela supera qualquer suplemento e não tem efeito colateral. Medidas simples de relaxamento, como o relaxamento muscular progressivo, entram como apoio dessa rotina.

Magnésio para cãibra e pernas inquietas funciona?

Duas queixas noturnas chegam sempre junto com a pergunta sobre magnésio, e elas merecem respostas diferentes.

Na cãibra noturna do idoso, o magnésio não funciona. Essa é a situação mais bem estudada entre as queixas de cãibra, e nela o suplemento tem efeito próximo do placebo 15. Só na gravidez existe alguma vantagem descrita, o que não ajuda em nada a família que procura solução para a perna que trava às três da manhã. Com óxido de magnésio há um registro isolado de menos episódios e sono um pouco melhor 16, e um resultado solitário não muda o quadro geral. A cãibra que aparece do nada ou piora depressa pede investigação de outra causa: desidratação, diurético, sal alterado no sangue, circulação, coluna, tireoide.

Na síndrome das pernas inquietas, aquela necessidade incontrolável de mexer as pernas que piora ao deitar e alivia ao andar, o magnésio tem indícios mais favoráveis e ainda frágeis: com citrato de magnésio, os sintomas e a qualidade de vida melhoram, sem que exista comparação com placebo para confirmar 17. Antes de qualquer suplemento, essa síndrome exige dosar a ferritina, porque a falta de ferro é a causa tratável mais comum, e revisar remédios que a desencadeiam. Vale diferenciá-la ainda do formigamento da neuropatia periférica, que é outra coisa.

Para que serve o magnésio além do sono

Fora do sono, o mineral cumpre melhor o que promete, e o que vem a seguir costuma justificar a reposição bem mais do que a noite mal dormida.

Na pressão alta, o magnésio reduz a pressão máxima em cerca de 2,8 mmHg na média geral, e o efeito cresce onde importa: em quem já toma remédio para pressão, a queda chega a 7,7 mmHg, e em quem tem magnésio baixo, a 6 mmHg 18. Em quem tem pressão normal, nada muda. Uma queda de 7 mmHg é relevante, e mesmo assim não substitui o anti-hipertensivo: ela se soma a ele.

No osso, quem come mais magnésio tende a ter densidade um pouco maior no quadril e no colo do fêmur, os dois pontos que mais importam na osteoporose 19. Isso vem da comida, não de cápsula, e o osso continua sendo construído por carga, vitamina D, cálcio e tratamento específico.

No intestino, o efeito que atrapalha quem busca sono é exatamente o que ajuda quem tem constipação: o magnésio mal absorvido puxa água para dentro do intestino e amolece as fezes. O óxido e o hidróxido são usados assim há décadas.

Falta ainda a evidência mais consistente de todas, e ela não é de suplemento: comer bem. Dieta com feijão, verdura escura, castanha e grão integral acompanha menos doença cardiovascular, menos diabetes e melhor cognição, e o magnésio é apenas um dos motivos possíveis 10.

Efeitos colaterais e quem não pode tomar magnésio

O magnésio é seguro na dose recomendada para quem tem o rim bom, e deixa de ser simples fora dessa condição.

O efeito adverso comum é o intestinal: fezes amolecidas, cólica, diarreia, náusea. Aparece mais com óxido, citrato e cloreto, e em doses acima de 350 mg de magnésio elementar por dia 11. Em idoso, uma diarreia que ninguém relaciona ao frasco novo vira desidratação, tontura ao levantar e queda.

O risco sério mora no rim. O magnésio sai do corpo pela urina, e com a filtração reduzida ele se acumula. O excesso no sangue causa sonolência, náusea, fraqueza muscular, pressão baixa, confusão e, em quadro grave, parada respiratória e cardíaca. Há registro de excesso fatal por uso continuado de laxante de magnésio, inclusive com função renal considerada normal, quando o produto fica retido no intestino e a absorção não para 20. Doença renal crônica, portanto, significa autorização médica antes de qualquer frasco, e não vigilância depois.

Outras situações pedem conversa com o médico antes: bloqueio cardíaco, miastenia grave, uso de digoxina e uso prolongado de laxante com magnésio.

Remédios que precisam de horário separado

Levotiroxina: o magnésio reduz a absorção do hormônio da tireoide. Manter pelo menos 4 horas de distância.

Alendronato e outros remédios de osteoporose: tomar o magnésio pelo menos 2 horas antes ou 2 horas depois 11.

Antibióticos como ciprofloxacino, levofloxacino e doxiciclina: o magnésio se liga a eles no intestino e anula o efeito. Tomar o antibiótico pelo menos 2 horas antes ou de 4 a 6 horas depois do magnésio 11.

Diuréticos e protetores de estômago: não exigem separação de horário, e sim revisão periódica do magnésio, porque são eles que o reduzem 11,12.

Alimentos ricos em magnésio

Repor pelo prato é mais barato, mais seguro e traz junto tudo o que a cápsula não tem. As porções abaixo dão a ordem de grandeza do que cada alimento entrega 11.

A semente de abóbora lidera: um punhado de 30 gramas tem cerca de 156 mg. Chia, os mesmos 30 gramas, cerca de 111 mg. Amêndoa, 30 gramas, cerca de 80 mg. Espinafre cozido, meia xícara, cerca de 78 mg. Castanha de caju, 30 gramas, cerca de 74 mg. Amendoim, um quarto de xícara, cerca de 63 mg. Feijão preto cozido, meia concha, cerca de 60 mg. Chocolate amargo com 70% de cacau, 30 gramas, cerca de 50 mg. Arroz integral, meia xícara, cerca de 42 mg. Banana, uma unidade, cerca de 32 mg.

Duas observações ajudam a enxergar o caminho. Um punhado de semente de abóbora à tarde e uma concha de feijão no almoço somam quase 220 mg, mais do que qualquer cápsula comum entrega. E o prato brasileiro tradicional, com feijão todo dia, já resolvia boa parte da conta antes de o feijão começar a sair da mesa.

Existe uma ressalva para quem tem doença renal: castanha, semente e chocolate são ricos em potássio e em fósforo, e a orientação nutricional nesse caso vem do médico e do nutricionista, não desta lista.

Do rótulo à cabeceira: por onde começar

A ordem abaixo evita o erro mais comum, que é comprar o frasco antes de saber se o problema é magnésio.

1. Descarte primeiro o que o magnésio não resolve

Ronco com pausas na respiração, idas repetidas ao banheiro, dor que acorda, tristeza persistente, remédio para dormir de uso antigo. Qualquer um desses muda o alvo da consulta, e nenhum melhora com suplemento.

2. Leve a lista completa de remédios ao médico

Inclusive o que foi comprado sem receita. Diurético e protetor de estômago de uso prolongado são os dois motivos mais frequentes de magnésio baixo, e o segundo com frequência já podia ter saído da receita.

3. Comece pela comida

Um punhado de castanha ou semente por dia e feijão no almoço mudam a conta sem custar consulta, e trazem fibra, potássio e proteína no mesmo pacote.

4. Se for suplementar, escolha a forma e a dose certas

Bisglicinato, citrato ou dimalato, de 200 a 350 mg de magnésio elementar, conferidos na tabela nutricional do verso e não no número da frente. Junto de uma refeição, de uma a duas horas antes de deitar, com prescrição de quem acompanha o caso.

5. Marque a data e dê quatro semanas

Anote em que dia começou e o que pretende observar: o tempo até pegar no sono, o número de despertares, a disposição da manhã seguinte. Sem mudança em quatro semanas, o frasco não é o caminho, e insistir só adia a conversa que resolveria.

O que decide não é a sigla, é a dose

Dimalato, glicinato e citrato entregam o mesmo mineral. O que muda o resultado é chegar a algo entre 200 e 350 mg de magnésio elementar por dia, número que está na tabela do verso do frasco e nunca no rótulo da frente.

Descartar

Antes de comprar, pergunte se existe ronco com pausas na respiração, ida ao banheiro mais de duas vezes por noite, dor que acorda ou comprimido para dormir de uso antigo. Com qualquer um deles na mesa, o suplemento atrasa o tratamento que resolveria.

Conferir

Vire o frasco e leia na tabela nutricional quantos miligramas de magnésio elementar tem cada cápsula. Multiplique pelo número de cápsulas do dia e confira se o resultado fica entre 200 e 350 mg. Abaixo disso não muda nada; acima, solta o intestino.

Observar

Anote a data de início e, todas as noites por quatro semanas, quantos minutos levou para pegar no sono e quantas vezes acordou. Compare a quarta semana com a primeira. Sem diferença entre as duas, suspenda o frasco e leve a anotação à consulta.

Perguntas frequentes

Magnésio para dormir funciona mesmo?
Ajuda pouco, e ajuda mais quem estava com o mineral baixo. Em idosos com insônia, o magnésio encurta em cerca de 17 minutos o tempo que se leva para pegar no sono, e não aumenta de forma confiável o total de horas dormidas. A confiança nesse número é baixa. Na medida de gravidade da insônia, um questionário de sete perguntas que vai de 0 a 28 pontos, quem toma magnésio cai 3,9 pontos e quem toma placebo cai 2,3: a diferença de 1,6 ponto fica bem abaixo dos 6 pontos que marcam uma melhora sentida na vida real. Magnésio não é tratamento de insônia.
Qual o melhor magnésio para dormir?
Para a noite, o bisglicinato, também escrito como glicinato, é a escolha mais sensata: absorve bem, é o mais suave no intestino e é a forma testada em quem dorme mal. O citrato e o cloreto também absorvem bem e custam menos, com a ressalva de soltarem mais o intestino. O óxido é o mais barato e o pior absorvido, e serve melhor como laxante do que como suplemento de sono. O treonato entrega pouco magnésio por cápsula e é caro. Nenhuma forma transforma o sono: a diferença entre elas é de absorção e de tolerância, não de efeito hipnótico.
Qual a diferença entre magnésio dimalato, glicinato e treonato?
A diferença está no que acompanha o magnésio e no quanto de magnésio puro sobra em cada cápsula. No dimalato, o acompanhante é o ácido málico, e cerca de 15% do peso é magnésio de verdade. No bisglicinato, é o aminoácido glicina, com cerca de 14%, e é a forma mais suave no estômago. No treonato, é o ácido treônico, com cerca de 8%, a menor proporção entre as três, o que obriga a cápsulas maiores para a mesma dose. O nome comercial no rótulo diz pouco: o número que importa é o de magnésio elementar, escrito em miligramas na tabela nutricional.
Quanto de magnésio o idoso deve tomar por dia?
A recomendação diária, somando comida e suplemento, é de 420 mg para homens e 320 mg para mulheres depois dos 50 anos. Do que vem de suplemento, o teto é de 350 mg de magnésio elementar por dia, porque acima disso a diarreia se torna provável. Quem toma por causa do sono costuma usar de 200 a 350 mg de magnésio elementar, uma a duas horas antes de deitar. Quem prescreve é o médico ou o nutricionista, e a dose muda quando existe doença do rim.
Magnésio dá sono ou é só relaxante muscular?
Nenhum dos dois, no sentido que a propaganda sugere. O magnésio não é sedativo e não induz o sono como um comprimido para dormir. Ele participa do freio natural do sistema nervoso e da regulação do relógio biológico, e é essa participação que se perde quando o mineral falta. Quem está em falta pode dormir melhor ao repor; quem já tem magnésio suficiente costuma não sentir diferença, e nenhuma dose extra gera sonolência.
Magnésio resolve cãibra na perna à noite?
Em idosos, não. A cãibra noturna depois dos 60 anos é a situação mais bem estudada, e nela o magnésio tem efeito próximo do placebo. Só na gravidez existe alguma vantagem descrita. A cãibra que aparece do nada ou piora depressa pede investigação de outra causa: desidratação, diurético, alteração de sal no sangue, problema de circulação, coluna ou tireoide.
Como saber se estou com falta de magnésio?
O exame de sangue ajuda pouco, porque menos de 1% do magnésio do corpo circula ali: o resto está dentro do osso e das células. Um magnésio sérico normal, entre 1,8 e 2,3 mg/dL, não garante estoque cheio, e um valor baixo confirma a falta. Mais útil que o exame é a lista de motivos: pouca verdura, grão e castanha no prato, uso de diurético, uso prolongado de omeprazol ou pantoprazol, diabetes com glicemia alta, diarreia crônica, álcool com frequência. Quem reúne dois ou três desses motivos tem chance real de estar com o estoque baixo.
Quem não pode tomar magnésio?
Quem tem doença renal crônica precisa de autorização médica, porque o rim é a porta de saída do magnésio e, com a filtração reduzida, ele se acumula. O excesso no sangue causa sonolência, náusea, fraqueza, pressão baixa e, em quadro grave, parada cardíaca. Também exigem conversa com o médico o bloqueio cardíaco, a miastenia grave e o uso de laxante de magnésio por tempo prolongado. O magnésio ainda atrapalha a absorção da levotiroxina, dos remédios de osteoporose e de alguns antibióticos, o que se resolve separando os horários.
Magnésio melhora a memória do idoso?
Não há prova de que suplementar melhore a memória de quem já tem magnésio suficiente. O que se observa é uma faixa ideal no sangue, em torno de 2,1 mg/dL: abaixo de 1,8 e acima de 2,3 o risco de demência sobe nos dois sentidos, o que não é o mesmo que dizer que a cápsula protege. O treonato é a forma vendida com promessa de cérebro, e os ganhos de memória descritos com ele vêm de adultos mais jovens, em trabalhos financiados por quem fabrica o ingrediente.
Pode tomar magnésio junto com remédio para dormir?
A pergunta certa é outra: se existe remédio para dormir em uso, o alvo passa a ser reduzir esse remédio, não somar um suplemento a ele. O magnésio não desmama ninguém de benzodiazepínico nem de zolpidem, e essa retirada é lenta, guiada pelo médico. Somar magnésio ao que já se toma é seguro em quem tem o rim bom, e não substitui o ajuste da lista de medicamentos.

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